A rota da sustentabilidade é urgente

É preciso cumprir os compromissos anunciados e combater com energia as ilegalidades, em especial o desmatamento.

Paulo Hartung, O Estado de S.Paulo

07 de dezembro de 2021 | 03h00

O ano de 2021, certamente, será um marco para os livros de História. Além da dolorosa pandemia de covid-19, que ainda está em curso, também chegamos ao momento decisivo com relação ao futuro que estamos legando ao nosso planeta. O que era mudança do clima tornou-se emergência climática. É sobre a sobrevivência da humanidade que estamos falando.

Os contornos da urgência levaram à busca pelo caminho da convergência. Oportunidades não faltaram: Cúpula do Clima, convocada por Joe Biden; Fórum Mundial de Bioeconomia, realizado em Belém do Pará; COP-15 da Biodiversidade, na China; e a mais importante das Conferências do Clima, a COP-26, em Glasgow.

Esta última encaminhou temas importantes, como o Artigo 6 do Acordo de Paris, responsável pela criação de um mercado global de créditos de carbono, que agora precisa ser regulado. Já o financiamento climático, essencial para que países mais pobres ou em desenvolvimento possam se adaptar a uma nova realidade climática e de uma economia descarbonizada, não foi endereçado do modo como era necessário. Um tema a ser priorizado, afinal, são os vulneráveis que sofrem mais com os impactos do clima.

O Brasil deu sinais de que busca retomar seu lugar de cooperação na questão ambiental. O País fez movimentos como a adesão ao Acordo das Florestas e Uso do Solo e à iniciativa sobre emissões de gás metano, somados à revisão da Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC, na sigla em inglês), com anúncio de neutralidade de carbono até 2050 e fim do desmatamento até 2028. Agora, é preciso cumprir os compromissos anunciados e combater com energia as ilegalidades, em especial o desmatamento.

Uma verdadeira jornada que levou ao Reino Unido milhares de cidadãos de todo o mundo, com destaque para os jovens. O Brasil esteve muito bem representado por academia, ONGs, iniciativa privada, indígenas, lideranças subnacionais, entre outros. Uma mobilização mundial inédita em torno do tema, que reavivou o sentimento de esperança de que vamos construir uma rota de sustentabilidade. No entanto, é preciso reconhecer que debates são importantes, mas não bastam para resolver os problemas. As futuras gerações não vão nos julgar pelo que discutimos, mas pelo que fizemos.

A construção de uma economia descarbonizada passa, necessariamente, por uma concertação. Poder público, com políticas que incentivem o cuidado com o meio ambiente; iniciativa privada, buscando por negócios com menos impactos; e sociedade, por meio do consumo consciente e de movimentos que estimulem os demais atores a agirem dentro de limites sustentáveis.

Neste cenário, o Brasil tem exemplos para inspirar novos caminhos. O setor de árvores cultivadas tem avançado com os dois pés na bioeconomia. Essa realidade vem descrita em detalhes no Relatório Anual da Ibá 2021, lançado em novembro. Elaborado mais uma vez em parceria com o Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), da FGV, o material se destaca como uma agenda da pauta verde.

Produção e preservação andam lado a lado. São 9,55 milhões de hectares de árvores produtivas, enquanto mais 6 milhões de hectares são conservados, uma área maior do que o Estado do Rio de Janeiro. Essas florestas estocam CO2, um dos principais gases causadores do aquecimento da Terra. O manejo sustentável no campo é atestado pelas principais certificações do mundo, como FSC e PEFC/Cerflor.

A atenção não se restringe ao cultivo. No processo fabril, o setor demonstrou avanço num dos temas mais centrais na atualidade: energia limpa. Somente em 2020, o setor gerou 77,4% de toda a energia que foi necessária para suas operações, demonstrando crescimento em relação ao ano anterior.

Avanços também na questão social: houve incremento na geração de emprego, que passou para 1,5 milhão de oportunidades em cerca de mil municípios no Brasil.

Somados, todos esses esforços de responsabilidade socioambiental resultam em matéria-prima renovável em milhares de bioprodutos, tornando esta indústria mundialmente competitiva. A receita bruta de 2020 bateu recorde, chegando a R$ 116 bilhões. Um trabalho que gerou divisas ao País a partir das exportações e deixou tributos em diversas regiões. Tudo isso pode ser conferido em detalhes no material disponível no site da Ibá (www.iba.org).

O setor de árvores cultivadas se coloca como um dos faróis a iluminar um caminho possível e urgente de negócios sustentáveis e de longo prazo. Esse é um dos vários modelos bem-sucedidos que podem colocar o Brasil – detentor da maior biodiversidade do planeta, da maior floresta tropical e de 12% de água doce do mundo – em sua merecida posição de protagonismo nas questões relacionadas à economia verde.

A convulsão climática é um fenômeno que não se pode mais negar. Seu enfrentamento precisa mobilizar todos os segmentos da sociedade civil e todas as instituições da sociedade política, em todo o planeta. Pois, como afirmou António Guterres, secretário-geral da ONU, durante a COP-26, “é hora de decidir se paramos com o aquecimento ou se o aquecimento nos para, pois estamos cavando nossa própria cova”.

*

ECONOMISTA, PRESIDENTE-EXECUTIVO DA IBÁ, FOI GOVERNADOR DO ESTADO DO ESPÍRITO SANTO (2003-2010/2015-2018)

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.