A sociedade falará pelo Brasil em Glasgow

A incompetência oficial tirou o País das discussões da Convenção do Clima firmada no Rio de Janeiro em 1992.

Paulo Sotero, O Estado de S.Paulo

31 de outubro de 2021 | 00h00

Ignore o que disserem nas próximas duas semanas na Escócia os membros da delegação oficial do Brasil à 26.ª Conferência das Partes da Convenção da ONU sobre Mudanças Climáticas – a COP-26. A presença dos representantes do desacreditado governo de Jair Bolsonaro será protocolar e relevante apenas por uma razão negativa: ela marcará um momento vergonhoso para a nação que serviu de berço à Convenção, assinada há três décadas, na Rio-92, e teve papel substantivo na sua implementação até a COP realizada em Paris, em 2015.

O Brasil não estará sozinho na berlinda em Glasgow. Com sua exígua maioria no Congresso americano enfraquecida por divisões internas no Partido Democrata sobre projetos de lei trilionários em infraestrutura e gastos sociais, fundamentais para lastrear seu programa de governo e dar credibilidade ao compromisso que assumiu de levar adiante a agenda climática, o presidente Joe Biden enfrenta o risco de chegar a Glasgow de mãos vazias. Mesmo que consiga contornar esse obstáculo, Biden sabe que o espaço para a liderança dos Estados Unidos será menor do que ele gostaria e que o seu país precisará de aliados.

No Brasil, estes incluem os nove membros do Consórcio dos Governadores da Amazônia Legal, empresários, cientistas, líderes de associações cívicas congregados na Concertação pela Amazônia e em outras entidades semelhantes que surgiram em resposta a duas demandas impostas pela realidade: os efeitos cada vez mais visíveis das mudanças climáticas e a incompetência e má-fé da administração anticiência que se instalou em Brasília em janeiro de 2019. Elas se desdobram na necessidade de adaptar sistemas de produção e distribuição de bens e serviços, que a pandemia de covid-19 escancarou, e na urgência de fazê-lo de forma a proteger a economia de represálias comerciais e outras, que virão da Europa e dos Estados Unidos, a continuar o descalabro da destruição na Amazônia e da violência contra indígenas e outras minorias e grupos vulneráveis na sociedade. Trata-se, em resumo, de quebrar o isolamento internacional autoimposto pelas ações e omissões do líder mais despreparado que já ocupou o Planalto e que lá chegou – é bom lembrar – ajudado pelos erros de seus adversários à esquerda e o apoio de aliados da direita supostamente civilizada.

Muito além e acima da capacidade do atual governo, um grupo de 150 especialistas, incluindo cientistas, lideranças de governos estaduais, Congresso, organizações da sociedade civil, empresas, fundos de investimento e coalizões e associações privadas, publicou no início de outubro um estudo intitulado Clima e Sociedade – Visões do Brasil em 2030. Coordenado por Emilio la Rovere, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, e Natalie Unterstell, do Instituto Talanoa, o trabalho avalia oportunidades e desafios que a Nação enfrentará para transitar do atual modelo de desenvolvimento nacional para um modelo de emissões líquidas zero. É um esforço considerável, visto que o País está entre os seis maiores emissores de gases de efeito estufa, graças sobretudo ao desmatamento na Amazônia, que explodiu no atual governo.

“A iniciativa esboçou uma estratégia de desenvolvimento compatível com uma trajetória de emissão de gases até 2030 que leve à neutralidade das emissões em 2050”, explicam os autores. A proposta tem como pano de fundo a necessidade de geração de empregos, redução de desigualdades e melhoria da qualidade de vida dos brasileiros. Ela é reforçada pelos argumentos que a concertação apresentou em sua recém-publicada Agenda pelo Desenvolvimento da Amazônia, valorizando atividades econômicas dependentes da floresta em pé.

Porta-voz da causa, a ex-ministra do Meio Ambiente Izabella Teixeira, que participará dos eventos paralelos à Conferência de Glasgow, diz que o Brasil desenvolveu, em meio às adversidades dos últimos anos, uma visão coerente com seus interesses de “potência ambiental” – na definição de Rubens Ricupero – e que precisa agora assumir-se como tal. “É uma estratégia factível para um país que reúne uma das maiores coleções de ativos ambientais do planeta e tem todo interesse – econômico, social e diplomático – em adotar e executar uma política de clima que promova os interesses de todos os seus habitantes e sirva de exemplo para nossos vizinhos imediatos na América do Sul”, afirma a ex-ministra.

Izabella tem credibilidade para levar à COP-26 a perspectiva de um Brasil virtuoso, que demonstrou ser capaz de reduzir drasticamente o desmatamento na primeira década do século e desenvolveu sistemas agropecuários sustentáveis. Em 2015, a ex-ministra foi parceira-chave dos Estados Unidos, da Alemanha e de outros países na COP-21, em Paris, e ajudou a garantir um bom resultado. Desde então, ela ampliou seus contatos com governos e organizações cívicas nacionais e globais. É copresidente de uma comissão da ONU sobre recursos internacionais e credenciou-se como a interlocutora brasileira mais reconhecida por seus pares nas discussões sobre a questão existencial do clima.

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JORNALISTA, É PESQUISADOR SENIOR DO BRAZIL INSTITUTE NO WILSON CENTER, EM WASHINGTON

 

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