A terceira via está viva nos corações e mentes

Hoje, é difícil de avaliar a probabilidade de um partido isolado, ou de uma fusão ou confederação departidos, chegar ao segundo turno

José Augusto Guilhon Albuquerque, O Estado de S.Paulo

11 de novembro de 2021 | 03h00

O sentido de terceira via corrente é o de um candidato oposto à escolha entre opções mutuamente excludentes. Ou seja: nossos eleitores podem votar livremente, desde que em Lula ou Bolsonaro. Trata-se de um equívoco, pois terceira via não quer dizer candidato único, e sim um movimento social que está hoje nos olhos, ouvidos e bocas de nosso dia a dia.

Movimento social, que pode atrair muitos e ser repelido por outros, a terceira via já está viva entre nós, é ativa e mora nos corações e mentes das camadas mais influentes do País. Seria viável extrair deste movimento cívico candidaturas eleitoralmente competitivas? A resposta é sim.

A campanha eleitoral de 2018 revelou-se uma disputa entre minorias extremas, num cenário de maioria fragmentada. Isso disseminou a convicção de que não haveria alternativa a uma escolha limitada a Lula ou Bolsonaro.

Esta percepção fatalista foi efeito de uma política, em parte deliberada, de apresentar os dois candidatos que dela se beneficiaram como os únicos capazes de chegar ao segundo turno. Pude observar nos últimos meses de 2017 que os dois maiores jornais do País apresentavam, com frequência desusada, pequenas notas na primeira página, sempre alertando para os perigos que Bolsonaro representava, mas sempre tendo-o como referência e apontando-o como a encarnação do inimigo a derrotar. Lula, por sua vez – ou seu avatar Haddad –, era apontado como o único capaz de vencer nas urnas o inimigo mortal.

Ambos adotaram a tática de apresentar-se mutuamente como as únicas opções viáveis, credenciando-se como candidatos inevitavelmente “únicos”. Essa tática foi bem-sucedida, pois a opinião pública moderada, assustada com a sombra de um desfecho inevitavelmente indesejável, acabou decidindo-se pelo que lhe parecia o mal menor.

Os partidos cometeram o erro fatal de apostar exclusivamente num terceiro candidato “único”, isto é, capaz de atrair a maioria do eleitorado cuja adesão a um dos extremos era exclusivamente por rejeição, e não por escolha. Não conversaram entre si sobre coalizões de ideias e interesses – como a defesa da liberdade democrática, a contenção do radicalismo, o combate sem trégua à pobreza e a integridade e eficiência da gestão pública. Voltaram as costas uns para os outros, o que, como seria fatal, fragmentou a representação dos moderados e os levou a uma guerra de todos contra todos.

Não se cogitou de um movimento de terceira via, embora ocorressem, entre os eleitores mais politizados, ensaios de apostarem ora num, ora noutro candidato moderado, o que não se refletiu em alterações relevantes nas pesquisas eleitorais. Nem seria de esperar, já que era um candidato único o que se buscava, e não candidatos competitivos.

A derrota da maioria moderada do eleitorado serviu de lição para a classe política: um número significativo de partidos tem-se reunido, embora alguns mais para tirar proveito do clima de independência. Tampouco se tem conhecimento de uma pauta de temas programáticos ou de agendas de negociação.

O grupo de pré-candidatos que se incluem no movimento de terceira via tem-se reunido. Alguns são de uma nova geração de políticos, embora experientes, com grande potencial para atrair o eleitorado mais jovem. Outros estão ali para atuar como dublês dos dois atuais beneficiários das pesquisas eleitorais.

Tudo isso não basta. A ocorrência de um movimento de terceira via é uma condição necessária, mas não suficiente para transformar-se em movimento político, que exige a presença de uma liderança reconhecida como tal.

Já para um movimento político ter sucesso nas urnas, é preciso, ademais, que surjam candidatos eleitoralmente competitivos. É difícil de avaliar, hoje, a probabilidade de um partido isolado, ou de uma fusão ou confederação de partidos, chegar ao segundo turno, considerando a fragmentação do sistema partidário e o espaço supostamente já ocupado no primeiro turno pela dupla na dianteira.

Deve-se levar em conta que, em todos os períodos de estabilidade, a partir do pós-guerra, nosso país foi governado por uma aliança entre partidos, com uma agenda minimamente compartilhada: PSD e PTB com Getúlio (1950), depois com Juscelino (1954) e, finalmente, com Jango (até 1964). Os dois partidos criados pela ditadura também consistiam em alianças, uma governista e outra de oposição. Mais recentemente, de FHC (1994) até o fim do segundo mandato de Dilma (2016), tivemos novamente alianças estáveis entre dois partidos, com adesão adicional de “aliados”.

Isso sugere que, sem uma aliança identificada com a terceira via, sem uma agenda de defesa da ordem democrática, de gestão pública íntegra e eficiente, de combate imediato às sequelas da pandemia, e sem o compromisso com o povo brasileiro de pôr comida no prato e dinheiro no bolso para que todos possam ter uma vida digna e garantia de proteção na velhice e na doença, nenhum candidato acenderá a luz da esperança neste país que amamos.

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