A união necessária para vencer o populismo

Enquanto o centro vacila, Bolsonaro busca cooptar o bloco do fisiologismo político

Luiz Felipe d’Avila, O Estado de S.Paulo

24 de fevereiro de 2021 | 03h00

Desde a redemocratização do País, em 1985 o Brasil foi governado por presidentes populistas, com exceção de três breves hiatos: dois anos de governo Itamar Franco (1993-1995), oito anos da Presidência de Fernando Henrique Cardoso (1995-2003) e dois anos e meio do mandato de Michel Temer (2016-2019). Curioso notar que os vice-presidentes provaram ser muito melhores que os presidentes depostos pelo Congresso Nacional.

Itamar substituiu o presidente Fernando Collor e foi responsável por implementar o Plano Real, que acabou com a hiperinflação no País. Michel Temer ocupou a Presidência após o impedimento de Dilma Rousseff e aprovou a reforma trabalhista, implementou o teto do gasto público e reformou a base curricular do ensino médio.

Apenas Fernando Henrique honrou a Presidência com a agenda reformista. Privatizou estatais, fez a primeira reforma administrativa, promoveu uma revolução educacional que incluiu quase 90% das crianças no ensino fundamental e criou o Bolsa-Escola – o programa de transferência de renda que se transfigurou no Bolsa Família em 2003.

Esses três presidentes restauraram a esperança na nossa capacidade de construir uma democracia forte, uma economia de mercado competitiva e um País mais justo e menos desigual. Mas esses hiatos de bom governo foram ofuscados por desastrosos governos populistas.

Cada um deles contribuiu para denegrir as instituições democráticas, disseminando a polarização política e a divisão entre “nós e eles”; privilegiando o corporativismo público e privado em detrimento da competição de mercado; propagando a desigualdade de oportunidades pela perpetuação da péssima qualidade dos serviços públicos; e transformando os mais pobres em eternos dependentes do Estado para extrair ganhos eleitorais.

O resultado desse cataclismo populista foi trágico. Enquanto os principais países emergentes tiraram milhares de pessoas da pobreza, ganharam mercado e melhoraram consideravelmente a renda, a educação, a saúde e a infraestrutura, o Brasil regrediu.

Perdemos mercado, renda, competitividade e produtividade. Exportamos menos que a pequena ilha de Taiwan, cultivamos os piores indicadores educacionais entre os países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e temos uma democracia disfuncional porque resistimos a avançar com as reformas do Estado.

A saída dessa encruzilhada se dá pela política. Demanda competência para unir os partidos do centro democrático e construir um projeto de País. Requer criar uma narrativa cativante para transformar boas propostas em votos nas urnas e resgatar a esperança no País. Exige coragem para acabar com as fortalezas de privilégios nos setores público e privado e determinação para combater o descalabro do desgoverno Bolsonaro: 20 milhões de brasileiros de volta à pobreza, 30 milhões de pessoas sem emprego, mais de 240 mil mortos pela covid-19, o menor índice de investimento dos últimos 11 anos e uma nação que se tornou pária internacional. É preciso muita incompetência, desunião e ausência de propostas e de liderança do centro democrático para perder a eleição em 2022 para um presidente da República que deixará essa herança maldita para as gerações futuras.

A desunião do centro democrático é o fator decisivo para pavimentar o caminho da reeleição de Bolsonaro. Há um certo compasso de espera no centro que pretende denotar sabedoria, mas no fundo revela hesitação, desunião e medo das incertezas inerentes à natureza do jogo político.

Enquanto o centro vacila, Bolsonaro busca cooptar o bloco do fisiologismo político, que está sempre à espreita para abocanhar cargos e verbas do governo, em troca de votos e influência para vencer eleições regionais e se perpetuar no poder. Bolsonaro adula a elite econômica, garantindo subsídios e reservas de mercado que desviam o foco dos reais problemas e perpetuam o corporativismo público e privado. O povo se ludibria com as promessas populistas porque a narrativa do centro não lhes toca o coração.

A união do centro democrático é vital para quebrar o instinto adesista que atrai partidos, empresários e o povo para o centro de gravidade do poder governamental. A construção da vitória eleitoral no próximo ano começa já. Não há tempo a perder. Estamos a apenas 17 meses das eleições. É urgente unir esforços das instituições que estão trabalhando na construção de propostas. Os partidos do centro democrático têm de se unir para ter um candidato competitivo, capaz de evitar a fragmentação do voto que pavimentou a vitória de Bolsonaro em 2018. Nomes como o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, ajudam a agregar as forças políticas e a construir pontes.

O populismo se derrota com a união das forças do centro em torno de propostas concretas e de um candidato competitivo, capaz de percorrer o País e reavivar a esperança de que é possível construir uma nação melhor e sem os embustes do populismo de esquerda e de direita que continuam a minar a liberdade e a democracia no Brasil.


CIENTISTA POLÍTICO, É AUTOR DO LIVRO ‘10 MANDAMENTOS – DO BRASIL QUE SOMOS PARA O PAÍS DE QUEREMOS’

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