A vez da Europa

As negociações entre Bruxelas e Washington podem ser mais difíceis do que seria de supor

Sergio Amaral*, O Estado de S.Paulo

18 de fevereiro de 2020 | 03h00

Os aficionados de xadrez conhecem as partidas simultâneas, nas quais um campeão enfrenta, ao mesmo tempo, uma dezena de adversários, dispostos em círculo à sua volta. O mestre faz o seu lance num tabuleiro, em seguida desloca-se para o tabuleiro seguinte, e assim por diante.

Não se sabe se Donald Trump é enxadrista. Acredito que não. Mas pode ter-se inspirado na dinâmica das partidas simultâneas para desenhar sua estratégia de negociação internacional.

Ao início de seu mandato, o presidente norte-americano deixou clara sua desconfiança em relação ao multilateralismo, pilar central da ordem construída sob inspiração norte-americana após a 2.ª Guerra Mundial. A seu ver, o multilateralismo não mais atendia aos interesses de Washington e, portanto, deveria ser rejeitado, sobretudo quando objetivos relevantes de seu país pudessem ser tolhidos por países que representam menos de 1% de seu produto interno bruto (PIB) ou uma parcela ínfima de seu poderio político e militar. Além disso, no caso da Organização Mundial do Comércio (OMC), as regras multilaterais não haviam cumprido a sua missão de conter a expansão da China e de suas práticas desleais de comércio. A saída está nas negociações bilaterais, em que a superioridade dos Estados Unidos assegura a realização dos seus interesses.

Imbuída dessas convicções, a nova administração americana deu início a uma ampla rodada de negociações. Os primeiros contenciosos residiram no comércio, para garantir a “reciprocidade das trocas”, como no caso da China. No plano político, as negociações visavam a conter países que os Estados Unidos consideram seus adversários ou competidores estratégicos, como a Rússia, a China, a Coreia do Norte e o Irã. Paradoxalmente, em alguns temas a Europa foi incluída também.

O processo negociador seguia as prescrições de Trump, em A Arte da Negociação, agora transplantadas do reino dos negócios para a cena internacional. A sequência das ações costuma ser a seguinte: primeiro, a intimidação; depois, a ameaça; em seguida, a adoção de sanções cada vez mais desestabilizadoras; por fim, a negociação, muitas vezes com a imposição de cláusulas desiguais. Nesse contexto, as sanções unilaterais, frequentemente extraterritoriais, desempenharam um papel central na estratégia de Trump e têm contribuído para a corrosão de uma ordem internacional baseada em regras.

Depois do México, da Coreia do Norte, da Rússia e do Irã, é chegada a vez da Europa, o mais antigo e fiel aliado da nação americana. Fortalecido pela recente trégua comercial com a China e pela absolvição pelo Senado, Trump chegou a Davos pronto a dar a largada para a temporada europeia.

Os contenciosos com Bruxelas não são tão profundos quanto com a China. Mas são numerosos. O primeiro deles está na contribuição dos europeus para a Otan, que Washington considera insuficiente. A seguir estão as diferenças quanto ao acordo nuclear com o Irã, que Trump denunciou, mas os europeus mantêm. Eles incluem, também, divergências na OMC e, mais recentemente, os desdobramentos da trégua comercial entre China e Estados Unidos, que poderão representar uma perda de US$ 11 bilhões nas exportações europeias para a China.

O capítulo das intimidações já se havia iniciado com a ameaça de impor tarifas às exportações de automóveis europeus para os Estados Unidos caso a Alemanha desse seguimento ao gasoduto da Nord Stream que levará o gás russo para os consumidores alemães; ou se Emmanuel Macron persistisse na adoção de uma taxa sobre os serviços prestados na França pelos gigantes tecnológicos americanos, tais como Amazon e Google.

O Conselho Europeu buscou apaziguar os ânimos ao sugerir uma aliança entre Washington e Bruxelas para pressionar a China na OMC, no capítulo de transferência de tecnologia, propriedade intelectual e subsídios, que constituem o núcleo sensível no contencioso entre Beijing e Washington. Não obstante os gestos de boa vontade, as negociações entre Bruxelas e Washington poderão ser mais difíceis do que seria de supor entre dois tradicionais aliados.

Não se conhecem ainda com clareza os resultados das negociações orquestradas por Trump. Em alguns casos, os Estados Unidos conseguiram em parte os seus objetivos, como na trégua comercial com a China; em outros, como na Coreia do Norte, os resultados, ainda que vendidos com maestria, foram modestos e não lograram avançar na desnuclearização. Em geral, pode-se dizer que, nesta primeira rodada, as partidas se concluíram com um empate.

Trouxeram, é verdade, a estabilização das expectativas, num período de incertezas. Mas deixam indagações relevantes. Conquistas ainda parciais ou aparentes compensam os desgastes à imagem dos Estados Unidos e as cicatrizes em sua credibilidade como parceiro confiável? Num mundo cada vez mais multipolar, regido pela balança de poder, em que medida ameaças e ações unilaterais poderão induzir os demais polos a se aproximarem e se articularem, em detrimento da solidariedade com os Estados Unidos?

* SERGIO AMARAL É CONSELHEIRO DE FELSBERG ADVOGADOS E FOI EMBAIXADOR DO BRASIL EM WASHINGTON

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