Afinal, o que é depressão?

Só uma minoria da população se beneficia dos conhecimentos sobre o que pode ser feito para prevenir e tratar a doença.

Christian Kieling, O Estado de S.Paulo

01 de maio de 2022 | 03h00

Depressão não é a tristeza que eventualmente sentimos nem a apatia pela qual somos por vezes tomados. Depressão não se equipara às aflições cotidianas ou mesmo ao abatimento diante das derrotas ou adversidades sucessivas. Depressão é, isso sim, uma doença comum, porém ainda pouco reconhecida e compreendida.

Sob o rótulo único de depressão se esconde uma condição heterogênea, marcada por um intenso sofrimento que ultrapassa a esfera individual e impacta a vida familiar, social e ocupacional, com reflexos sobre a produtividade econômica e a saúde física, podendo levar, inclusive, à mortalidade prematura por suicídio.

Apesar da abundância de evidências científicas sobre o que pode ser feito para prevenir e tratar a depressão, diversas barreiras de demanda e de oferta fazem com que apenas uma minoria da população se beneficie desse conhecimento. Nesse sentido, a depressão é uma crise de saúde global: mesmo em países ricos, a maior parte dos indivíduos que preenchem critérios diagnósticos para depressão não tem acesso a cuidados qualificados – uma realidade ainda pior em países como o Brasil.

A inação para mudar este cenário decorre, em grande medida, das controvérsias em torno da natureza da depressão, de sua importância como condição clínica e de como deve ser manejada. Há uma tensão entre a depressão que se constitui como uma das principais causas de carga de doença em todo o mundo versus a depressão como um extremo da experiência emocional normativa que não deve ser patologizada.

A experiência de cada pessoa afetada pela depressão é única, produto de um conjunto próprio de suscetibilidades biológicas e circunstâncias individuais. Abarcar a complexidade da depressão envolve reconhecer o cérebro e a mente humanos como uma interface que conecta o nosso ser ao mundo em volta de nós. É preciso, portanto, superar falsas dicotomias e ir além de paradigmas focados apenas em aspectos neurobiológicos ou somente em fatores contextuais de dor e sofrimento.

É chegada a hora de, por fim, reconhecer que biologia e ambiente agem de forma intrincada e indissolúvel ao longo do ciclo vital, considerando o papel de influências ambientais tangíveis e intangíveis sobre a estrutura e o funcionamento cerebral ao longo do desenvolvimento.

Dados convergem em demonstrar, por exemplo, que o abuso e a negligência na infância acarretam risco para depressão tanto nas primeiras décadas de vida como na idade adulta, evidenciando que a depressão pode ter origem em eventos que ocorrem muitos anos antes do aparecimento da condição.

Para além do diagnóstico binário de presença ou ausência da depressão – útil como linguagem comum para a pesquisa e a prática clínica –, torna-se fundamental não desviar a atenção da jornada única de cada indivíduo afetado e dar peso às vozes de pessoas que passam pela experiência da depressão. A maioria dos indivíduos com depressão se recupera de um episódio, se tiver acesso a apoio e cuidados adequados, embora uma minoria possa ter recorrências. Uma abordagem que reconhece as diferentes apresentações da depressão permite uma oferta racional de psicoterapias e medicamentos de modo abrangente e proporcional.

Investimentos em estratégias de prevenção são essenciais, se quisermos reduzir a prevalência da depressão. Benefícios comparáveis aos obtidos com programas de prevenção em áreas como doença cardiovascular ou câncer podem ser alcançados pela combinação de ações focadas em aspectos estruturais (como redução de discriminação e promoção da equidade) e individuais (como abordagens psicossociais para indivíduos em alto risco para desenvolver depressão).

Considerando que o primeiro episódio depressivo muitas vezes ocorre na segunda ou na terceira décadas de vida, intervenções precoces para adolescentes e adultos jovens representam uma importante janela de oportunidade para prevenir a cronificação de quadros clínicos.

Se, por um lado, uma agenda de pesquisa de ponta é essencial para avançarmos cada vez mais nosso conhecimento sobre depressão, por outro, é preciso reconhecer que já há muito que sabemos, porém ainda não o usamos de forma otimizada. É imperativo, portanto, investir na tradução do conhecimento para a prática.

O relatório da Comissão Lancet-Associação Mundial de Psiquiatria sobre depressão teve como missão sintetizar uma visão equilibrada das melhores evidências sobre o assunto. Sua principal mensagem é de esperança: não apenas na forma de evidências robustas sobre o que pode ser feito para prevenir e tratar a depressão, mas também sobre como intervenções podem ser integradas aos sistemas de saúde e à sociedade como um todo, mesmo em contextos desfavorecidos. Uma agenda ambiciosa, mas que nunca foi tão urgente ou necessária.

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MÉDICO PSIQUIATRA, PROFESSOR DA UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL, COEDITOR DE ‘LANCET-WORLD PSYCHIATRIC ASSOCIATION COMMISSION: TIME FOR UNITED ACTION ON DEPRESSION’

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