Agir no presente para destruir o futuro?

As mudanças climáticas já começam a incidir diretamente na agricultura, afetando as colheitas ou alterando o plantio.

Flávio Tavares, O Estado de S.Paulo

05 de novembro de 2021 | 03h00

A ideia pode parecer exagerada e absurda aos desavisados, alienados ou ignorantes, mas a verdade é que a mesquinhez da cobiça humana está matando o planeta. Por isso, todos os olhares se concentram, agora, na reunião de cúpula da ONU sobre as mudanças climáticas, iniciada domingo em Glasgow, na Escócia, e que decidirá sobre o futuro da vida na Terra.

Sim, pois o futuro surge do presente (ou até do próprio passado) e não é algo ao acaso, vindo milagrosamente do nada. Até porque o nada não existe e tudo tem causas, seja no comportamento individual ou na forma coletiva de tratar a natureza. Assim, os alertas e as advertências sobre o perigoso significado das mudanças no clima se sucedem há anos sem que cheguemos a soluções concretas. A nota editorial deste jornal no último dia de outubro resumiu essas dificuldades em uma frase: “O dilema é que são letais para o futuro e vitais para o presente”.

A solução está em romper os vícios e hábitos do presente em forma imediata e concreta, evitando, assim, a definitiva destruição do futuro. Os combustíveis fósseis, como carvão e petróleo, estão aquecendo a Terra muito além dos limites máximos toleráveis, mas continuamos a explorá-los porque são monetariamente “baratos” e tecnicamente “fáceis”.

Em 2015, no Acordo de Paris, 197 governantes concordaram em promover mudanças urgentes para que o aquecimento global ficasse abaixo de 1,5 grau centígrado a fim de “evitar uma catástrofe”. O pouco que se fez, no entanto, foi insuficiente até mesmo para evitar os primeiros sinais da futura catástrofe. Nos últimos anos, sentimos a expansão de ondas de calor, estiagens prolongadas alternadas com tempestades brutais e alagamentos, além do crescimento dos incêndios florestais. Houve calor tórrido na gélida Sibéria e secas na chuvosa região amazônica.

A tudo isso, some-se o contínuo desmatamento da Amazônia brasileira e a destruição ambiental provocada por grileiros e garimpeiros que, em busca de ouro, poluem rios com mercúrio. Em paralelo e para agravar a situação, desde o início do governo Bolsonaro desmontam-se alguns órgãos fiscalizadores ou de pesquisa do governo federal. Até o estratégico Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) sofreu as consequências da funesta política ambiental do atual governo.

Meses atrás, chegamos ao absurdo de que um imenso contrabando de madeira nobre extraída da Amazônia brasileira fosse descoberto nos Estados Unidos, para onde foi levado sorrateiramente com a aparente conivência do então ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles.

As mudanças climáticas já começam a incidir diretamente na agricultura, afetando as colheitas ou alterando, até, as épocas de plantio. Em poucos anos, faltarão alimentos e será a hecatombe. A fome antecipará, então, a morte da vida no planeta em si.

Essa antevisão do trágico futuro não surge a esmo nem é apenas mera possibilidade, suposição ou invencionice. Em verdade, é uma aterradora conclusão da ciência, com base em minuciosas pesquisas sobre as modificações do clima planetário a partir da era industrial.

Em quase todo o mundo, mas especialmente aqui, no Brasil, tratamos a previsível tragédia anunciada com desdém profundo e quase que apenas burocraticamente, como se a realidade estivesse nos papéis timbrados, e não nas conclusões da ciência sobre os fatos em si.

Agora, a meta da reunião de Glasgow é reduzir drasticamente a emissão de carbono até 2030 para chegar a zero em 2050. Isso, porém, só se conseguirá com estritas ações concretas a serem iniciadas já, e dependerá não apenas dos governos, mas também de cada um de nós, habitantes do planeta. Nestes 29 anos, impõe-se uma vigília permanente em que cada um fiscalize os atos dos governantes e as ações do setor privado para que se respeitem os acordos a serem acertados em Glasgow.

A cúpula de chefes de governo não conta com a presença do presidente Jair Bolsonaro. Mesmo tendo estado em Roma, na reunião do G-20, ele preferiu visitar o povoado onde nasceu o avô – e lá receber o título de “cidadão honorário” – do que deslocar-se até a Escócia para debater sobre a defesa da vida do planeta.

O ministro do Meio Ambiente, Joaquim Leite, que chefia a delegação do Brasil à COP-26, promete apresentar à reunião um programa de “Crescimento Verde” com investimentos de R$ 400 bilhões financiados pelos bancos públicos oficiais. Nada debateu, porém, com a sociedade, que deve atuar como fiscal de toda e qualquer atividade em defesa do clima, pois dele é também partícipe e agente.

Sem a participação de toda a sociedade, corremos o risco de incidir em erros, permanecendo apenas num lúdico “faz de conta” em defesa do planeta. As advertências sobre a gravidade do momento atual vão do secretário-geral da ONU, António Guterres, ao papa Francisco. Negá-las é como agir no presente para destruir o futuro, como se não houvesse amanhã.

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JORNALISTA E ESCRITOR, PRÊMIO JABUTI DE LITERATURA 2000 E 2005, PRÊMIO APCA 2004, É PROFESSOR APOSENTADO DA UnB

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