Agricultura e tecnologia

A consolidação de uma lavoura moderna, eficiente e tecnológica, sintonizada ao mercado de carbono, é essencial para alcançar as metas de sustentabilidade.

Ruy Altenfelder e Claudia Calais, O Estado de S.Paulo

05 de abril de 2022 | 03h00

O setor agrícola passa por uma verdadeira revolução, ligada, em primeiro lugar, a uma mudança de paradigma na economia mundial, que cada vez mais atribui valor simbólico e financeiro aos recursos naturais e, em segundo lugar, à conquista de novas fronteiras tecnológicas.

O uso da Inteligência Artificial (IA) no campo é uma dessas fronteiras. Algumas de suas aplicações, presentes ou futuras, são relativamente conhecidas, como as previsões meteorológicas cada vez mais focadas e precisas ou os vários projetos de veículos agrícolas automatizados. Mas essa, por assim dizer, é a ponta do iceberg. Os maiores ganhos potenciais em eficiência e sustentabilidade estão atrelados ao uso da Inteligência Artificial no monitoramento do solo e da irrigação.

A lavoura é uma das principais consumidoras de água do País. De acordo com a Agência Nacional de Águas (ANA), nossas propriedades rurais retiram dos rios cerca de 32 trilhões de litros para irrigação em um ano, o que corresponde a quase 50% da água consumida no Brasil. Note-se que essas propriedades correspondem a pouco mais de 10% da área ocupada por lavouras, de acordo com levantamento da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). A maior parte da nossa agricultura não conta com sistemas de irrigação e depende, portanto, do regime de chuvas.

Logo, qualquer implemento que torne o consumo de água mais eficiente é bem-vindo, especialmente num cenário de escassez crescente deste recurso natural diante do quadro de mudanças climáticas.

As ferramentas de IA têm permitido realizar uma espécie de varredura dos diferentes tipos de solos, com suas diferentes porosidades, para prever ou simular, a partir desse perfil detalhado, como um fluído irá se comportar nele. Em outras palavras, essa tecnologia permite que o agricultor calcule, com muito mais precisão, o quanto de água será necessária para uma determinada área plantada, ou qual a capacidade de retenção do líquido apresentada por cada solo. Isso resulta em economia, tanto financeira quanto de recursos naturais.

Esse tipo de tecnologia também ajudará a lidar com outras variáveis: o acréscimo de uma substância no solo irá ou não aumentar a retenção de água? Em quanto? Quais materiais podem facilitar o transporte de certos nutrientes até as raízes das plantas? A Inteligência Artificial tem fornecido respostas cada vez mais precisas para todas essas perguntas, o que permitirá um uso cada vez mais racional e sustentável das terras agrícolas e de recursos naturais como a água.

Até aqui, falamos de como as novas tecnologias, como a IA, estão revolucionando a lavoura. Mas um país que busca inserção na economia deste século precisa levar em consideração também o valor – financeiro, inclusive – de preservar suas florestas de pé.

Especialistas anteveem que o mercado de carbono deve se tornar o maior do mundo nas próximas décadas, superando até mesmo o de petróleo e gás antes de 2050, segundo a revista Forbes. De fato, somente em 2020 este setor da chamada economia verde movimentou € 229 bilhões, valor 20% acima dos resultados do ano anterior.

Os créditos de carbono representam um ativo financeiro precioso, especialmente num país como o Brasil, que tem quantidade significativa de suas matas preservada e a manutenção de áreas de preservação ambiental no interior das grandes propriedades rurais representa uma decisão economicamente mais vantajosa do que o plantio predatório.

À diferença de outras nações de mesmo porte, com inserção internacional similar, o Brasil pode almejar uma economia de “carbono zero” nas próximas décadas – isto é, uma cadeia produtiva que elimine as emissões de gases do efeito estufa ou, complementarmente, que as compense com créditos de carbono. Nosso patrimônio ambiental permite essa ambição.

No entanto, ainda há um longo caminho a percorrer. Em 2020 (último ano com dados consolidados), os bancos brasileiros concederam R$ 376 bilhões em crédito para operações no campo da “economia verde”, de acordo com dados da Federação Brasileira de Bancos (Febraban). Este valor corresponde a 21,75% do total emprestado, proporção semelhante àquela registrada no ano anterior (22,48%).

A consolidação de uma lavoura moderna, eficiente e tecnológica, sintonizada aos fluxos internacionais do mercado de carbono, é fundamental para que alcancemos estas metas de sustentabilidade. Essa é a chave para a construção de uma agricultura propriamente adaptada aos desafios do século 21. Os temas escolhidos para a edição 2022 do Prêmio Fundação Bunge – Crédito de carbono e agricultura regenerativa e Inteligência Artificial e o uso das águas e do solo – estão em sintonia com esses desafios.

Afinal, é papel de toda a sociedade – em especial das empresas – encontrar soluções sustentáveis para o desenvolvimento econômico e social do País.

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SÃO ADVOGADO, CURADOR DOS PRÊMIOS FUNDAÇÃO BUNGE, PRESIDENTE DA ACADEMIA DE LETRAS JURÍDICAS; E DIRETORA-EXECUTIVA DA FUNDAÇÃO BUNGE

 

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