Ainda lidamos com o lixo como na Idade Média

Produtos de papel têm origem sustentável e podem retornar à cadeia produtiva

Paulo Hartung*, O Estado de S.Paulo

06 de agosto de 2019 | 03h00

Cada vez mais se fala de bioeconomia e consumo sustentável. Esse novo paradigma é uma demanda que o mundo impõe à nossa geração, a última capaz de empreender ações para efetivamente diminuir o aquecimento global. Nossos netos e o mundo exigem comportamentos mais sustentáveis e isso passa pela adoção do consumo responsável.

A bioeconomia exige consumidores mais conscientes. Entender as nossas necessidades e estudar melhor os produtos que serão adquiridos. Essa nova dinâmica impulsiona a utilização de fontes renováveis e biodegradáveis nos produtos e nas embalagens. Esse caminho ganha impulso importante a partir das regulações estabelecidas em alguns países, como Reino Unido, Suíça, China, Índia, e até em cidades brasileiras que restringem materiais de recursos não renováveis. O consumidor passa a entender que a escolha na gôndola é muito importante e busca produtos de base biológica, produzidos a partir de recursos renováveis.

Ao empoderar o consumidor da sua responsabilidade, outra etapa importante, que muitas vezes fica longe da atenção de todos, ganha espaço, o descarte. Não podemos continuar descartando o lixo que produzimos como se fazia na Idade Média, colocando-o em ruas ou a céu aberto, ignorando as consequências desse gesto danoso e ultrapassado.

Diante da poluição global causada pelos resíduos sólidos, principalmente os provenientes dos polímeros derivados do petróleo, a adoção de melhores práticas e a migração para produtos de base renovável são o caminho. Produtos de papel têm origem sustentável e podem retornar à cadeia produtiva, mas também são facilmente compostáveis, sendo biodegradáveis em poucos meses.

Para incentivar que haja o correto descarte e os produtos não sejam enviados para aterros, quando poderiam ser reciclados, as indústrias investem no desenvolvimento da infraestrutura de coleta seletiva e nas cooperativas, na adaptação do seu parque fabril para a incorporação de fibras recicladas, e na educação ambiental das comunidades do entorno da sua operação. Só a Klabin, por exemplo, investiu cerca de R$ 400 milhões em aumento de capacidade de produção de papel reciclado, na cadeia de catadores e aparas e em educação ambiental.

O resultado é que o Brasil figura entre os maiores recicladores de papel do mundo, com 5,1 milhões de toneladas retornando ao processo produtivo por ano. A taxa de recuperação estimada é de 68%. De todo o lixo que é enviado para aterro normal, 13% ainda são papel. Apesar de uma participação relativamente baixa, o setor acredita que esse desempenho poderia ser melhor.

Muitos produtos de papel, que poderiam ser reciclados, não são destinados a esse fim. Por exemplo, aquela caixa da embalagem de bombons que tem origem sustentável pode e deve ter uma destinação correta, assim como caixas de leite, caixas de pizza (com atenção para as partes engorduradas, que não podem ser misturadas ao material reciclável) e outros produtos que estão no dia a dia e têm potencial para retornar à cadeia produtiva.

Mas nessa construção de corresponsabilidades não são apenas os consumidores e a indústria que estão envolvidos. É preciso entender que outros atores participam, como o poder público, o varejo e os importadores. Todos têm sua parcela de participação, ou ao menos deveriam ter. Nesse quesito, políticas públicas são imprescindíveis. Hoje, poucas são as cidades dos 5.570 municípios que fazem coleta seletiva. E a discussão da responsabilidade das importadoras ainda está em construção.

A bioeconomia é uma visão de futuro que requer o envolvimento e o amadurecimento de todos os participantes, além de trazer novos modelos econômicos, exigindo alta produtividade, tecnologia e inovação. E novamente o setor de florestas plantadas está trabalhando nesse sentido, com pesquisa e desenvolvimento. Um exemplo disso é a tecnologia em desenvolvimento de extração de celulose nanocristalina (CNC), produzida a partir de fontes renováveis para criar soluções de embalagens de papel mais sustentáveis e com barreiras biodegradáveis, ou seja, papéis e embalagens ainda mais resistentes e 100% recicláveis. O segmento também tem investido em novas rotas tecnológicas para aproveitamento integral da madeira, não somente para a produção de celulose, papel e energia, mas para usos dos demais componentes da madeira, como resinas e lignina em bases químicas renováveis, biodegradáveis e compostáveis.

Os produtos de base biológica, produzidos a partir de recursos renováveis, ganham espaço e são considerados o melhor e mais racional uso do capital natural disponível. Sabemos que o papel, em suas diversas utilizações, e os produtos de origem de árvores cultivadas serão protagonistas.

A cultura do consumo e o modo de vida baseado em extrair, produzir e descartar têm impactado negativamente o planeta. O Acordo de Paris, que foi aprovado por 195 países, incluído o Brasil, é um reconhecimento desse fato e busca fortalecer a resposta global à ameaça da mudança do clima, reduzindo emissões de gases de efeito estufa e investindo no desenvolvimento sustentável.

Essa consciência extrapolou o espaço técnico e já pode ser vista nas megatendências planetárias, com a sociedade pautando escolhas por um mundo mais sustentável. Vemos isso nas preocupações crescentes de marcas globais com produtos mais amigos do meio ambiente, como McDonald’s, Coca-Cola, Pepsico e Nestlé.

Está mais do que na hora de todos incentivarem a consolidação desse modelo econômico que utiliza matéria-prima renovável e de baixa emissão de carbono. E convocar todos a serem responsáveis por sua parcela nessa nova realidade, investindo em consumo sustentável e, na outra ponta, praticar o descarte responsável, muito, muito distante das feições medievais que ainda caracterizam a destinação de lixo em nosso país.

*ECONOMISTA, PRESIDENTE DA INDÚSTRIA BRASILEIRA DE ÁRVORES (IBÁ), FOI GOVERNADOR DO ESPÍRITO SANTO (2003-2010/2015-2018)

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