Alguém sabe para onde estamos indo?

Mesmo vendo os riscos crescerem, nada faz crer que tenhamos clareza quanto ao rumo a seguir

Bolívar Lamounier*, O Estado de S.Paulo

07 de setembro de 2020 | 03h00

Ao contrário da Argentina e de Portugal, o Brasil nunca viu seu passado como um período prolongado de decadência. Não tendo atrás de si nada que se assemelhe a uma idade de ouro, nunca experimentou sentimentos de declínio comparáveis aos vividos por aqueles países. 

Os ciclos econômicos da cana-de-açúcar, do ouro e do café não levaram ao esperado enriquecimento, mas, em cada caso, o empobrecimento foi compensado pelo surgimento de atividades importantes noutras regiões. O primeiro grande baque econômico deveu-se à crise de 1929. Assim, foi só nas três últimas décadas do século 20 e agora, com os trancos brutais causados pelo governo Dilma e pela pandemia de covid-19, que começamos a refletir seriamente sobre as agruras sociais, as desigualdades, o crime organizado, o estado calamitoso da educação, as nossas catastróficas condições sanitárias e, naturalmente, o azedume generalizado da sociedade em relação à política. Ainda assim, a verdade é que não sabemos se essa terrível coleção de tragédias vai solapar ou inverter nosso otimismo futurista de “país novo”.

Não é difícil perceber como essa identidade otimista se formou, apesar da pobreza generalizada. Durante a primeira metade do século 20, até os anos 70, conseguimos sustentar um ritmo acelerado de industrialização. Essa foi a época em que o desenvolvimentismo se firmou como mística mundial, impulsionado pelo New Deal e pela prosperidade americana no segundo pós-guerra, pela reconstrução da Europa, pelo “milagre japonês” e até pelos arroubos retóricos de Kruchev a respeito dos avanços da URSS. No Brasil, em 1958, a vitória das chuteiras nacionais na Suécia, a suavização da velha música de dor de cotovelo e o sorriso de JK contribuíram poderosamente para melhorar nossa autoestima. Víamos tudo no País por uma ótica dual. Agricultura era arcaísmo, indústria era modernidade. Interior era atraso, cidade grande era progresso. Silêncio era tristeza, barulho era alegria, a tal ponto que a aconchegante tranquilidade dos pequenos municípios hoje compartilha o ruído infernal produzido por potentes aparelhos de som. 

Na esfera pública, nossos anseios de modernização política e democracia esbarraram em numerosos obstáculos. Isso não deve ser esquecido, pois, gostemos ou não, retrocessos podem acontecer na história de qualquer país, e suas consequências podem ser duradouras. 

Sinais de preocupação não faltam. Na política e nas instituições, dificilmente veremos o Congresso aprovar uma reforma política digna desse nome. Dificilmente conseguiremos fazer algo contra um Supremo Tribunal Federal desnorteado ou contra as ações e omissões que empreende com o objetivo de combater o combate à corrupção. É duro constatar que temos na Presidência um homem tosco, agressivo, que não vacila em sabotar o trabalho dos agentes de saúde, ignora a liturgia do cargo que ocupa e ameaça agredir fisicamente jornalistas como se isso fosse a coisa mais normal do mundo. E que as Forças Armadas, cristalinamente definidas na Constituição como “instituições nacionais”, se deixam cooptar pelo Executivo aos magotes, sem atentar para os riscos que tal comportamento implica para sua identidade histórica. 

E não esqueçamos que sinais dessa ordem estão acontecendo em numerosos outros países. Na maior e mais exemplar democracia, a eleição de 2016 levou à Casa Branca ninguém menos que o sr. Donald Trump, um claro adepto do enfrentamento como forma de ação política, e cuja desídia no combate à pandemia certamente responde por muitos milhares de óbitos. Na Hungria, o primeiro-ministro Viktor Orbán só não impõe uma ditadura escancarada porque não tem força para tanto. Na Turquia, na contramão da mais elementar prudência, o sr. Recep T. Erdogan insufla clivagens religiosas, regredindo nos importantes avanços históricos de seu país no sentido de um Estado laico. Na Índia, o primeiro-ministro Narendra Modi promove violências sem conta contra a minoria muçulmana, para só ficarmos neste exemplo. E a China, como ninguém ignora, além de manter intacta sua máquina de governo totalitária, não perde uma oportunidade de recorrer à chantagem comercial quando se sente incomodada pela liberdade de expressão do Ocidente.

Voltando ao Brasil, registremos, de saída, que os gastos (indispensáveis) com a pandemia liquidaram a perspectiva de contas públicas ajustadas nos próximos dez anos. Sabemos que tão cedo não lograremos o nível de investimento e de aumento da produtividade de que desesperadamente necessitamos. Milhões de famílias sentem o desemprego bater à sua porta e outras tantas retornam, humilhadas, da paradisíaca “classe média” para onde o governo Dilma levianamente as mandou. 

Fato é que, mesmo vendo os riscos crescerem cada vez mais, nada faz crer que tenhamos alguma clareza quanto ao rumo a seguir. Não a tem o governo, não a têm as elites dos diferentes segmentos da sociedade e tampouco a tem aquela parcela irresponsável que se recusa a usar máscaras e manter o indispensável distanciamento.

* BOLÍVAR LAMOUNIER É SÓCIO-DIRETOR DA AUGURIUM CONSULTORIA E MEMBRO DAS ACADEMIAS PAULISTA DE LETRAS E BRASILEIRA DE CIÊNCIAS

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.