Amazônia – temos de agradecer ao Fórum Econômico Mundial

Ou o Brasil muda a política de meio ambiente, ou não haverá investimentos

João Lara Mesquita, O Estado de S.Paulo

29 de janeiro de 2020 | 03h00

Ninguém questiona que o tema preponderante do Fórum Econômico Mundial foi meio ambiente. Motivo de encontros e discursos das estrelas mais esperadas: Donald Trump (aceitou plantar 1 trilhão de árvores na África), Christine Lagarde, presidente do Banco Central Europeu, Greta Thunberg e, por que não, Paulo Guedes.

O Brasil foi elogiado e questionado. Saiu-se bem, pelo que dizem especialistas, nos avanços da economia. As reformas alcançadas foram bem-vindas; as estratégias futuras, questionadas.

Paulo Guedes não decepcionou ao assegurar o compromisso de seguir com reformas.

Ainda assim, investidores foram duros com a questão mais relegada pela atual administração, o meio ambiente. Fato confirmado pelo ministro Paulo Guedes, que declarou à GloboNews, de Davos, que “as preocupações ambientais podem atingir, ainda que indiretamente, os investimentos no Brasil”.

Enquanto isso, as bravatas de Jair Bolsonaro em discurso na ONU, não mencionando incêndios na Amazônia, mas reafirmando a soberania sobre a maior floresta úmida do planeta, foi cobrada. Assim como a resposta de Paulo Guedes em painel sobre o futuro da indústria, ao declarar que “o pior inimigo do meio ambiente é a pobreza”.

Foi criticado por brasileiros e estrangeiros. O climatologista Carlos Nobre, que fez parte do painel Um Futuro Sustentável Para a Amazônia, debatendo com o presidente da Colômbia, o ex-vice dos Estados Unidos Al Gore e Jane Goodall, disse à BBC: “Esse discurso vai muito na contramão da tendência mundial, esse discurso que parece defensivo: ‘eu sou contra o desmatamento, mas é mais importante eliminar a pobreza’, mas não é verdade”.

Mas a polêmica pouco importa. Importante foi o Relatório Global de Riscos, produzido pelo Fórum Econômico Mundial, afirmando pela primeira vez que todos os “principais riscos de longo prazo em relação à probabilidade são ambientais”. Isso reforçou a decisão dos maiores fundos de investimentos, que foram claros: ou o Brasil muda a política de meio ambiente, ou não haverá investimentos.

Eles não se esqueceram do aumento do desmatamento na Amazônia, em quase 30% na relação 2019-2018, muito menos a posição do Brasil, capitaneada por Ricardo Salles, na COP25, em Madri, quando quase põe fim ao fraco acordo final. Antes, o diligente ministro bombardeou os bilhões que Alemanha e Noruega investiram no Fundo Amazônia, bloqueado unilateralmente, e teve a petulância de passar o chapéu, exigindo que países ricos pagassem a conta na mesma reunião de Madri.

Os ventos de Davos incomodaram o Palácio do Planalto. Como resultado, em 21 de janeiro, início do Fórum, Bolsonaro anunciou a criação do Conselho da Amazônia e de uma Força Nacional Ambiental, para “atuarem na proteção do meio ambiente da Amazônia”. E, num evidente desprestígio ao ministro do Meio Ambiente, encarregou para comandá-lo o vice Hamilton Mourão.

Melhor para o meio ambiente. Ao contrário do ministro, que só pôs os pés na Amazônia depois de ser ungido no cargo, Mourão é conhecedor da região e de seus gargalos. De ascendência indígena, foi chefe de informação do Comando Militar da Amazônia.

Em entrevista à Central GloboNews (22/1), declinou de bate-pronto onde ficam os problemas e assegurou que “o que falta ao governo é comando e controle”, predicados que o neófito ministro do MMA não logrou alcançar, ao contrário. Foi vítima de sua ignorância e arrogância, preferindo bater boca com ONGs, em vez de mobilizar forças para combater o desmatamento ilegal.

A mesma e displicente atuação se verificou meses depois, quando do derrame de óleo no Nordeste. Na ocasião, o ministro demorou 38 dias para ir ao litoral verificar os estragos e coordenar as ações de mitigação, que, não fossem os cidadãos comuns, teriam demorado ainda mais para começar. E só entraram no bom caminho por outra ação do vice-presidente, ao designar o Exército para a limpeza das praias.

A criação do Conselho da Amazônia foi mais uma ação improvisada da administração, confirmada na entrevista de Mourão, que não soube informar como funcionará o tal conselho. A ausência de políticas públicas para a Amazônia é mais uma dívida do governo Bolsonaro, que dispara ameaças a torto e a direito, ora sugerindo abrir terras indígenas à mineração, ora à criação de gado, mas, passado um ano de governo, ainda não apresentou um plano econômico capaz de manter a floresta em pé e tirar da miséria os cerca de 20 milhões de brasileiros que lá habitam.

Enquanto isso, acadêmicos e cientistas ensinam que a melhor estratégia é o investimento em biotecnologia, aproveitando o nosso maior ativo: a biodiversidade.

Como disse Carlos Rittl, secretário executivo do Observatório do Clima, “o maior inimigo do meio ambiente é a condescendência do governo com os crimes ambientais”, com o que, por suas declarações, parece concordar o vice-presidente.

O Conselho da Amazônia – e, em consequência, a maior floresta úmida do planeta – está em boas mãos. Devemos um favor a Davos.

JORNALISTA, É MANTENEDOR DO SITE WWW.MARSEMFIM.COM.BR

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