Anita Novinsky, a historiadora que revelou as origens judaicas do Brasil

Antes dela, o papel dos judeus na história do País era praticamente desconhecido.

Antonio Silvio Lefèvre, O Estado de S.Paulo

21 de setembro de 2021 | 03h00

Em 20 de julho deste ano, aos 98 anos, faleceu a historiadora Anita Waingort Novinsky, a judia de origem polonesa que foi a primeira a descobrir e a revelar a origem judaica de grande parte dos portugueses que vieram para o Brasil para escapar do Tribunal do Santo Ofício, a Inquisição, instituição da Igreja Católica que perseguia, julgava e punia os judeus de Portugal. Muito especialmente aqueles que se converteram em “cristãos novos” para tentar escapar das suas garras.

Anita chegou ao Brasil com seus pais, aos dois anos de idade. Quando ainda estudante de Filosofia na Universidade de São Paulo (USP), foi aconselhada pelo professor Lourival Gomes Machado a pesquisar o papel da Inquisição na história do Brasil – assunto que os livros de História de então simplesmente omitiam ou pouco falavam.

Anita debruçou-se inicialmente sobre os livros dos historiadores que haviam estudado o tema, em especial A História dos Judeus em Portugal, de Meyer Kayserling (1829-1905), em que o autor já revelava o funcionamento do Tribunal da Inquisição, o drama vivido pelos convertidos e o silêncio do mundo ante os festivos autos-de-fé, aonde a população eufórica ia assistir às fogueiras em que os “bons cristãos” queimavam os judeus. E relatava o drama dos judeus que procuravam escapar, migrando para países onde pudessem ser eles mesmos, entre os quais o Brasil.

Porém Anita logo percebeu que quase nada se sabia sobre quem eram estes judeus, convertidos ou não, que haviam escolhido o Brasil como destino. Para saber mais, era necessário ter acesso aos arquivos da Inquisição, mantidos secretos por décadas na Torre do Tombo, em Lisboa.

Pois para lá foi Anita no início dos anos 1960 e, com muita perseverança e com a ajuda de Lourival Machado, então diretor cultural da Unesco em Paris, conseguiu ter acesso aos arquivos inéditos. Em 1965, quando eu estudava Sociologia em Paris, mantive intenso contato com Anita, que se revezava entre Lisboa, onde pesquisava, e Paris, onde se aperfeiçoava em seus estudos com os mestres franceses.

Fui, então, testemunha de seus primeiros relatos sobre as atrocidades da Inquisição, que Anita revelava, com nomes e sobrenomes dos judeus perseguidos, alguns dos quais haviam se refugiado no Brasil e conseguido “driblar” e, em alguns casos, se vingar dos seus algozes.

Essas descobertas foram sendo o tema dos muitos livros de Anita Novinsky, desde Cristãos Novos na Bahia até os mais recentes, como Viver nos tempos da Inquisição e Os judeus que construíram o Brasil. Em seus livros, artigos e entrevistas, Anita revelou as origens judaicas de personagens dos quais nem o mais experiente inquisidor suspeitaria, como a do Padre José de Anchieta, fundador de São Paulo, cuja mãe era judia, “cristã nova”, ou seja, convertida à força ao catolicismo, e cujo tataravô fora queimado pela Inquisição.

Outra revelação de Anita, a de maior impacto histórico, foi a da origem judaica de Raposo Tavares. Anita relatou que Raposo fora criado pela madrasta, Maria da Costa, que foi presa pela Inquisição e confessou, sob tortura, o seu judaísmo secreto. Pois foi este judeu secreto, o bandeirante Raposo Tavares, que em 1647 partiu para a gigantesca expedição que permitiu conhecer, pela primeira vez, a extensão da América do Sul e ampliou várias vezes o território brasileiro. Júlio de Mesquita Filho o caracterizou como “o herói de uma das mais famosas façanhas de que guarda memória a história da humanidade”.

Anita Novinsky contou em detalhes a história dos bandeirantes, que eram quase todos de origem judaica e, por esse motivo, combateram as Missões dos jesuítas, que obedeciam às ordens da Inquisição de Lisboa, algoz dos “cristãos novos” no Brasil. Em todos os seus artigos e entrevistas, Anita sempre defendeu ardorosamente os bandeirantes, que, mais do que perseguidores de índios e de padres – como virou moda acusá-los –, eram eles os perseguidos pela Inquisição, por causa do “pecado” do seu judaísmo secreto.

Muitas famílias brasileiras descobriram suas origens judaicas por intermédio das revelações de Anita. Tanto em razão das “fichas” dos seus antepassados quanto, segundo Anita, pela simples observação dos prenomes adotados nas gerações mais recentes. A família de Julio de Mesquita Filho, do Estadão, foi uma das primeiras a ser reconhecida por Anita como de origem judaica. “Basta ver os nomes das irmãs Mesquita, Esther e Lia, típicos nomes judaicos, para ver com o que se identifica a família”, dizia Anita. E o mesmo raciocínio ela fez ao assegurar que toda a família de Monteiro Lobato é de cristãos-novos, portanto judeus convertidos.

Pelas muitas descobertas de Anita Novinsky sobre o importante papel dos judeus na História do Brasil, antes dela praticamente desconhecido ou propositalmente ignorado, podemos afirmar que esta intelectual judia, nascida na Polônia, foi uma redescobridora do país para onde veio ainda criança, o Brasil.

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SOCIÓLOGO, EDITOR E LIVREIRO

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