Aprender com a ciência

Não apenas com suas conclusões mais assertivas, mas com sua incerteza.

Bruno Filardi, O Estado de S.Paulo

08 de outubro de 2021 | 03h00

“Siga a ciência!” Esse mantra, tão repetido durante a pandemia, chama ao debate público o que é ciência em si, seus limites e suas possíveis funções.

O pensamento científico adquiriu forma na Grécia antiga. Ali a humanidade começou a se preocupar em diferenciar o que era ciência do que era opinião. A verdade platônica, a ideia noética (mente ou pensamento) dos princípios fundamentais aristotélicos, o empirismo do método indutivo e a evidência como verdade inconteste de Descartes, muito divergem da visão contemporânea da ciência, entretanto. A verdade atingida pela indução abstrata (lógica) a partir observação da realidade (positivismo) e a certeza em ciência começaram a ruir mais notoriamente com a biologia de Darwin, mas foram aniquiladas pela mecânica quântica. A incerteza como parte inerente da natureza estremeceu, então, nossa visão de mundo e mudou a própria noção de ciência.

A visão contemporânea da ciência como teoria do conhecimento se contrapõe ao positivismo por aceitarmos que não saberemos a verdade inequívoca. Não entraremos em temas mais epistemológicos e filosóficos, como a própria existência da verdade ou o limite entre observador e objeto, uma vez que fogem absolutamente ao escopo deste (incerto e impreciso) texto. Mas mesmo a quem nunca se perguntou o que é física quântica ou epistemologia basta olhar com mais atenção para a pandemia e enxergar com clareza que a ciência é não definitiva, mas falível. Nela, em vez de buscarmos uma verdade inequívoca, obtemos conhecimento pela verossimilhança, como uma foto borrada e em preto e branco de uma paisagem colorida.

Se a comunicação não tiver o cuidado de transmitir as incertezas ou o grau de certeza inerente às informações que se quer passar, a população não entendedora do método científico como uma ferramenta em busca de verdades nunca inequívocas levantará dúvidas sobre a própria ciência. Aqui traio a promessa acima e me permito uma pequena digressão filosófica para dizer que não compactuo com a visão de Kuhn de que a ciência é histórica e a verdade é apenas o paradigma que prevalece. Prefiro enxergar pelos olhos míopes de Popper, que não são capazes de ver uma verdade extremamente nítida, mas se satisfazem com uma boa ideia do seu formato, apesar das imagens borradas formadas em suas retinas.

O “sigo a ciência” e o reiterado uso de palavras como “negacionista” ou “terraplanista” imputados a quem apenas tem dúvidas, ou não confia nas verdades impostas por autoridades políticas, imprensa, comunicadores científicos ou, pior ainda, celebridades, traz de volta aos costumes um neopositivismo muito pernicioso para o já fragmentado e tosco debate público atual. Como se só houvesse o caminho da ciência para o progresso e poucos fossem os líderes capazes de guiar a humanidade. As decisões em sociedade devem se pautar, sim, pela incerta e imprecisa ciência, entretanto elas são também políticas, filosóficas, éticas, etc.

Claro que há quem negue a ciência, como o movimento antivacina, por exemplo. Não me refiro a essa barulhenta e sociopática minoria. Condeno, outrossim, o julgamento de quem aponta para as pessoas sem formação científica bombardeadas por informações conflitantes ou até falsas (às vezes da própria grande mídia) e as obriga a “seguir a ciência”, esquecendo-se de que ciência não é um simples consenso de especialistas. “A ciência é a crença na ignorância dos especialistas”, disse o genial físico, laureado com o Prêmio Nobel, Richard Feynman. Quem nos ensina são os dados em si provenientes de uma metodologia adequada. Opinião só tem valor científico se acompanhada de um conjunto de dados que a justifique. É assim que a ciência é feita. A comunicação científica deve seguir a mesma lógica. 

Em meio à opinião de muitos pseudocientistas aproveitadores da pandemia, poucos (mas perniciosos) cientistas que fazem deliberada militância política pela ciência e políticos que negam ou também subvertem a ciência para ratificar teorias a priori e projetos pessoais de poder, chegamos à nossa realidade fragmentada em cujo terreno polarizado essas desinformações são armas que, como o próprio Sars-CoV-2, não distinguem direita e esquerda.

Soma-se a atitude paternalista de alguns cientistas. Agem como um pai que, omitindo fatos desagradáveis, se ilude com um futuro menos tortuoso de seu filho. Ser seletivo nas informações, mesmo com boa intenção, amplificará o efeito negativo e culminará com o descrédito na própria ciência.

Peço pela comunicação científica madura e principalmente apartidária, trazendo as limitações do método científico e a abertura ao debate. Só assim será possível falar sobre ciência em nossa sociedade dividida entre os extremos do espectro político-ideológico e, consequentemente, ávida pelas variáveis qualitativas que raramente existem em fenômenos biológicos.

Que possamos aprender com a ciência. Não apenas com suas conclusões mais assertivas, mas com sua incerteza. Entender o método científico trará mais humildade a uma sociedade que, por ter tanta certeza, comete tantos erros.

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MÉDICO ONCOLOGISTA

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