As certezas do ressentimento

O mundo é complexo e, necessariamente,as percepções são plurais, diversas

Nicolau da Rocha Cavalcanti, O Estado de S.Paulo

04 de julho de 2020 | 03h00

A pandemia do novo coronavírus põe em especial evidência a complexidade do mundo real. Tudo tem matizes, contrapontos, efeitos colaterais.

Muito se desconhece e o pouco que se sabe está sujeito a questionamentos e revisões. A experiência de outros países oferece algumas pistas sobre o que fazer e o que não fazer, mas o enfrentamento da pandemia é ainda um grande aprendizado por tentativa e erro. Se algo já se sabe, é que a batalha contra o novo coronavírus transcorre em terreno pouco afeito a afirmações absolutas.

Exemplo desse aprendizado é a mudança de orientação quanto o uso de máscaras. Antes, elas eram indicadas apenas para os profissionais de saúde e as pessoas com sintomas de covid-19. Agora a orientação é de que todos devem usar alguma proteção no rosto, ainda que seja caseira. Vislumbrar sentido em duas recomendações aparentemente opostas exige entender a racionalidade, as circunstâncias e os limites de cada proposta.

De fato, o mundo do novo coronavírus não é para principiantes. O conhecimento requer esforço e tal condição não se resume às fronteiras da ciência médica. Há muitos assuntos difíceis, que exigem cuidado em sua abordagem, na política, na economia ou no Direito, por exemplo. O mundo sempre foi complexo, mas os tempos contemporâneos parecem ter extrapolado todos os limites. Discernir os temas com um mínimo de segurança exige estudo, debate, tempo – e nada disso parece estar muito em voga nos dias de hoje.

Nesse cenário de desconforto com a complexidade da realidade, um atalho sobressai. Sim, existem muitos dados de difícil compreensão, cheios de matizes e advertências, mas há também um cantinho aparentemente seguro, no qual as coisas são surpreendentemente claras, precisas, lineares. Trata-se do gueto interior, que se forma em nossa cabeça quando não estamos abertos ao contraditório.

Nesse gueto interior, o mundo, que antes era complexo, torna-se simples. Os juízos não precisam seguir procedimentos e tudo pode ser imediatamente apreendido, avaliado, julgado. Há uma linha nítida dividindo o mundo. De um lado estão os bons e no outro, os maus brasileiros. Há os que votaram pelo bem do País e há os que votaram cegos por seus vícios e ignorâncias. Não há espaço para questionamentos ou revisões. As causas, as motivações e as soluções também são claras e evidentes.

Sempre existiu o risco do enclausuramento mental. Em alguma medida, sempre foi possível levar a vida distante do convívio e do diálogo com quem pensa de forma diferente. Nos dias de hoje, no entanto, esse encerramento ganhou um aliado importante, que ratifica as certezas individuais: a desinformação. Transmitida de forma massiva, ela chega ao receptor de forma incrivelmente pessoal, por meio de familiares, amigos, colegas de profissão. Eis a grande mágica das redes sociais. O que é mais impessoal, e muitas vezes automatizado, chega sob as vestes de conselho íntimo ou de alerta confidencial.

O mal provocado pela desinformação, que inclui as fake news e outros tipos de falácias e distorções, vai muito além da difusão de informação equivocada. Sua principal manipulação consiste em ratificar o gueto interior de cada um, estreitando a racionalidade e o campo de visão do receptor. Em sua estrutura de sofisma – verdade aparente e mentira oculta –, a desinformação vale-se dos afetos mais íntimos – por exemplo, a frustração com a trajetória profissional ou mesmo com a própria família – para dar-lhes um sentido de injustiça, a suscitar raiva e revolta. E sob a sensação de pertencimento a um grupo de vítimas (o que escreveu Ortega y Gasset sobre as massas continua incrivelmente atual) não há limites para a boçalidade, o desprezo e a ignorância, como se vê nas redes sociais, mas não apenas nelas.

O fenômeno da negação da complexidade da realidade, aliado ao caráter de certeza atribuído às ideias pessoais, é um dos fatores para o esgarçamento do tecido social. O outro, aquele que não tem as mesmas percepções e convicções, é visto como alguém prejudicial à sociedade. A visão dissonante não é encarada como contribuição para um conhecimento mais apurado da realidade, e sim como fator de confusão e de obnubilamento para a compressão de um assunto. O ideal seria a uniformidade.

No resgate do valor da liberdade e do pluralismo, um dos caminhos é fomentar tudo o que ajuda a desvelar a complexidade do mundo real. Se a atual pandemia escancara a relevância da informação de qualidade, ela também evidencia o papel do jornalismo na ampliação do diálogo, do contraditório e do debate. O mundo é complexo e, necessariamente, as percepções são plurais, diversas.

Em sentido contrário, a desinformação oferece uma explicação simplista da realidade – da ciência, da política, da economia e de tantos outros temas –, tendo como aliado nessa empreitada o ressentimento, tão hábil em produzir certezas. É a ilusão da segurança e do domínio. Como a pandemia do novo coronavírus tem mostrado, essas certezas, que subjetivamente parecem muito sólidas, são mais frágeis que um castelo de cartas.

ADVOGADO E JORNALISTA

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.