As ideias fossilizadas do general

Presidente da Petrobras usa argumento falacioso para justificar foco no pré-sal e adiar transição paraenergia renovável.

Vários autores*, O Estado de S.Paulo

23 de março de 2022 | 03h00

Enquanto os últimos relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, IPCC) trazem evidências irrefutáveis de que as emissões de gases a partir da queima de combustíveis fósseis e do desmatamento estão sufocando o planeta e colocando bilhões de pessoas em risco, o presidente da Petrobras, general Joaquim Silva e Luna, construiu uma narrativa eleitoreira e falaciosa para desmontar a necessidade premente de abandonarmos os combustíveis fósseis e ganhar tempo para adiarmos a transição energética (Pressa no pré-sal, 14/3, A4). O pretexto utilizado foi o de garantir “benefícios econômicos e sociais da produção de petróleo”. Uma mera avaliação do discurso de importantes atores deste setor mostra que não há mais lugar para sofismas sem conexão com a realidade imposta pelas mudanças climáticas.

Sugerir que ainda há tempo para explorar o petróleo tem por base uma premissa equivocada. O mundo tem menos de cem meses para cortar emissões de gases de efeito estufa pela metade, se quiser ter uma chance de estabilizar o aquecimento da Terra no patamar de 1,5°C preconizado pelo Acordo de Paris. Segundo a Agência Internacional de Energia (IEA, na sigla em inglês), nenhum novo projeto de exploração de combustíveis fósseis pode ser licenciado no mundo se quisermos cumprir esse objetivo. Quando sua casa está queimando, é de bom tom não entrar nela com um galão de gasolina.

Além da imprudência climática e da grave falha ética de deixar uma conta deste tamanho para os jovens e os que ainda nem nasceram, a corrida ao fundo do poço preconizada pelo general também traz um risco real de multiplicar ativos encalhados. Sabe-se que um campo petrolífero que comece a ser explorado hoje leva cerca de 15 anos para atingir um volume de produção razoável. Ou seja, isso ocorreria em 2037, quando o processo de transição energética terá de ser uma realidade no mundo todo.

Segundo análises da mesma Agência Internacional de Energia, as políticas de combate às mudanças climáticas causarão a queda na demanda por petróleo antes de 2030. Neste cenário, governos e empresas estarão investindo em tecnologias como eletrificação de veículos, hidrogênio verde e outros combustíveis sintéticos, enquanto aqueles que permanecerem produzindo petróleo terão de lidar com os preços crescentes das emissões de carbono e a maior concorrência entre os produtores remanescentes.

Este processo é especialmente perverso, pois, embora se saiba que o setor de energia precisará se tornar carbono neutro, o ritmo com que isso se dará é difícil de precisar. Ao vislumbrar o pré-sal como sua prioridade, a Petrobras ignora essas incertezas e arrisca perder bilhões de reais em infraestrutura que pode se tornar obsoleta antes do que se imagina. Grandes petroleiras mundiais, atentas a esse risco, planejam mudar o foco dos investimentos para a produção de energia renovável.

Argumentar que “a produção do pré-sal contribui para a transição” energética, com base na informação de que ele é produzido com menos emissões, ignora o fato de que o maior problema do petróleo está em ele ser um combustível fóssil, não renovável, que emite gases de efeito estufa independentemente da forma como é produzido. Segundo dados de 2020 da IEA, um barril de petróleo, depois de extraído, processado e consumido, acarretará na emissão de aproximadamente 370 kg de CO2e, ao que 7 kg a menos do petróleo produzido no pré-sal – a crer nos números do presidente da Petrobras – fazem pouca diferença. Ao focar num detalhe, essa linha de raciocínio menospreza a importância de a Petrobras planejar seu futuro, migrando das fontes sujas para as limpas. Curiosamente, ela iniciou esse processo anos atrás, investindo em etanol e biodiesel, mas deixou as renováveis de lado para focar no petróleo.

Essa inversão de prioridades pode custar caro à Petrobras. Ela deveria ter pressa para expandir seus investimentos em fontes renováveis, tanto as tradicionais como as novas, e desenvolver as novíssimas. Com sua experiência na cadeia de combustíveis e a enorme disponibilidade de fontes renováveis no Brasil a preços inferiores aos encontrados na maioria dos países, a Petrobras pode atingir um novo patamar como uma companhia de energias renováveis, gerando maior valor para os seus acionistas, impostos para o governo e empregos para o Brasil.

Não há mais tempo, general: não podemos pensar o futuro como uma repetição do passado. A jan9ela para investimentos de longo prazo em fontes fósseis, como é o caso do pré-sal, já se fechou. Em breve, o petróleo será visto não como um recurso a ser explorado, mas como um problema a ser evitado. A Petrobras não deve remar contra a tendência, mas, sim, pensar nas vantagens competitivas que terá quando transformar seu portfólio em alternativas neutras em carbono. O clima e as novas gerações agradecem. l

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ANA PAULA PRATES, DIRETORA DE POLÍTICAS PÚBLICAS DO INSTITUTO TALANOA;

ILAN ZUGMAN, DIRETOR PARA A AMÉRICA LATINA DA 350.ORG;

JULIANO BUENO DE ARAÚJO, DIRETOR DO INSTITUTO ARAYARA;

MARCELO LATERMAN, GEÓGRAFO DA CAMPANHA DE CLIMA E ENERGIA DO GREENPEACE;

RICARDO FUJII, ENGENHEIRO RESPONSÁVEL PELA ESTRATÉGIA DE TRANSIÇÃO ENERGÉTICA NO WWF-BRASIL; E

SUELY ARAÚJO, ESPECIALISTA SÊNIOR EM POLÍTICAS PÚBLICAS DO OBSERVATÓRIO DO CLIMA. 

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