As novidades do passado

É essencial entender que a arrogância petista no poder gerou o patológico modo bolsonarista de governar.

Flávio Tavares, O Estado de S.Paulo

07 de janeiro de 2022 | 03h00

O passado nos guia como modelo a imitar ou rejeitar. Do simples cotidiano até as minúcias da ciência, da técnica ou da ética, apelamos sempre para o passado para medir, aferir ou planejar o futuro.

No mês de janeiro, o passado se abre à nossa frente para tomar posição sobre o novo ano. Antes, ansiávamos pelas previsões, e os arremedos de oráculo (fosse cartomante, vidente, pitonisa ou astrólogo) disputavam um lugar ao sol em busca do sonho de adivinhar ou prever os futuros 365 dias. Mas os sonhos são apenas sonhos e concluem sempre num despertar, mostrando que seguimos vivos.

Por isso, nos tempos de hoje, as previsões são quase impossíveis. A pandemia, de um lado, e, de outro, os atos absurdos e contraditórios do governo federal em diferentes áreas se somam para nos apontar, apenas, um futuro nebuloso.

Não há ânimo nem condições para previsões otimistas. É como se o País vivesse em fúria contra si mesmo, tal qual as chuvas que despencaram na Bahia, arrasando o que estivesse de pé. Lá, a devastação é a cicatriz que as mudanças climáticas deixam na natureza, mas fazemos de conta que é uma distorção passageira própria do planeta. Cegos às advertências da ciência, não percebemos que a devastação é obra nossa, da incúria da sociedade de consumo.

O início de ano surge, assim, como a época propícia para rever atitudes e posições. Pretextos não faltam neste 2022 em que as datas centenárias se acumulam umas sobre as outras.

2022 marca os 200 anos da Independência do Brasil, mas continuamos com o espírito e a visão coloniais. Seguimos aplaudindo e adotando qualquer quinquilharia vinda do estrangeiro e, em todas as áreas, temos vergonha de criar. Estamos perdendo até o idioma, ao usar desnecessários termos ingleses no dia a dia. A pandemia acentuou a macaquice e lockdown e home-office passaram à linguagem corrente, como se já não bastassem show, delivery e similares.

Em fevereiro será o centenário da Semana de Arte Moderna, que em 1922 – a partir de São Paulo – iluminou o País e fez nossa literatura, pintura, escultura, música e arquitetura buscarem raízes nacionais, abandonando o vício de copiar da Europa. O Brasil passou a conhecer-se a si mesmo, deixando de se portar (nas artes) como um forasteiro na terra natal.

Nada, porém, marca tanto os últimos 100 anos do que aquele 1922 em que o chorinho Carinhoso, de Pixinguinha e João de Barro, foi considerado “atentatório aos bons costumes”. Bastou ecoar nos recém-lançados discos de vinil aquele “ah se tu soubesses como eu sou tão carinhoso” para que a letra fosse vista como perniciosa e imoral.

Estaremos necessitando de uma “modernização política” que marque uma reviravolta tão profunda quanto a Semana de Arte Moderna em 1922 ou que indique o que sejam “bons costumes”?

Só assim poderemos festejar o sucedido há 100 anos. Até as vaias e as críticas surgidas em 1922 no Teatro Municipal de São Paulo representavam algo novo. Desaparecia o medo de opinar ou criticar e brotava a análise.

Ou a política no Brasil não necessita de uma ruptura para deixar de ser a arte da mistificação para caçar votos?

Com Bolsonaro no poder, a mistificação se ampliou, mas a ferida purulenta é anterior a ele. Amadureceu com Lula e seu devaneio de se julgar Pedro Álvares Cabral descobrindo o Brasil. O tumor infeccioso cresceu e, agora, os disparates se empilham uns sobre outros. Os absurdos se escancaram, como dias atrás, quando o ministro da Educação decidiu não exigir vacinação para a retomada das aulas presenciais, pois – disse ele – “isso fere a liberdade de decidir”.

Preservar a vida será ferir a liberdade individual? Já não bastam os absurdos cometidos pelo próprio presidente da República? Primeiro, chamou a covid-19 de “gripezinha”, logo se atirou contra a vacina e inventou que provocava aids, chegando a fantasiar que o uso de máscaras gera depressão.

Essa enxurrada de tolas invencionices desmobilizou a população nos meses iniciais da pandemia e chegamos ao horror de Manaus, onde os infectados, na porta dos hospitais, esperavam a morte de outros doentes para ocupar seus leitos.

Enquanto isso, a inflação ressurge lenta, mas contínua, devorando os rendimentos do trabalho, numa volta a um passado que pensávamos superado. O preço dos combustíveis aumenta e só falta ter de vender o carro para encher o tanque de gasolina…

O passado deve levar a aprender ou, então, será como dialogar com a ventania. Neste ano de eleição presidencial, o essencial é entender que a arrogância petista no poder gerou o patológico modo bolsonarista de governar. Buscar o futuro com olhos no passado (e, assim, chegar a um caminho isento e viável) é a única forma de impedir que uma covid política nos sufoque.

Não se trata de mera opinião. Os ensinamentos da história da humanidade são indesmentíveis e nos levam a encontrar as novidades do passado.

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JORNALISTA E ESCRITOR, PRÊMIO JABUTI DE LITERATURA 2000 E 2005, PRÊMIO APCA 2004, É PROFESSOR APOSENTADO DA UnB

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