As palavras e o tempo

Não subsistem otimismos fáceis nem se pode contar com horizontes finais que resistam às ‘duras réplicas da História’.

Luiz Sérgio Henriques, O Estado de S.Paulo

19 de dezembro de 2021 | 03h00

Complexo e contraditório como é, todo tempo histórico convida a conceitos-síntese que, mesmo parciais e sumários, algum fragmento de verdade sinalizam e, de um modo ou de outro, respondem a uma necessidade imediata do espírito.

Há duas gerações, com o “socialismo realmente existente” assentado numa parte extensa do mundo e os processos de descolonização, poucos discordariam de Jean-Paul Sartre, para quem o marxismo – designado assim mesmo, sem nuances – seria o horizonte insuperável da época. As revoluções se seguiriam como num jogo de dominó e as gestas do romantismo revolucionário não se deteriam com a morte de Guevara, antes se multiplicariam em mil Vietnãs. A “metrópole” capitalista estaria sob o assalto da classe operária ou, então, cercada pelo “campo” global.

Algumas décadas depois, o espírito do tempo se inverteria. As reformas de Gorbachev chegaram tarde demais e as palavras que ele trouxera, como a glasnost e a perestroika, logo perderam o viço. Talvez tenham facilitado a implosão relativamente pacífica do anquilosado país dos sovietes – o que não foi pouco, dado o arsenal atômico ali acumulado –, mas o fato é que desapareceram sem deixar rastro, tal como o marxismo genérico antes anunciado pelo filósofo existencialista.

O horizonte, então, se abriu para a globalização capitalista – termo sintético para a unificação contraditória do gênero humano, levada a cabo por um hegemon incontrastado. O “fim da história” parecia a nova senha explicativa. Uma versão fraca da liberal-democracia recobriria os mecanismos implacáveis de produção de mercadorias finalmente dispostos em escala universal, acima e além de fronteiras nacionais. O mundo estava pronto, a vida era um fato consumado.

A bem da verdade, milhões foram retirados da penúria extrema, ainda que a desigualdade tenha paradoxalmente se acentuado. A percepção de que tudo se relaciona e a noção de que povos e nações dependem uns dos outros se tornaram realidades palpáveis até para o indivíduo comum. Por sua vez, do movimento de “recuo das barreiras naturais”, efeito da ampliação do domínio humano sobre toda a Terra, passaram a vir sinais cada vez mais inquietantes. É que há óbvios limites intransponíveis para tal recuo e, como se pode constatar com evidência contundente, riscos fatais sempre estão à espreita em cada lance de apropriação da natureza, por mais que obedeça a sofisticados cálculos formais.

Não subsistem otimismos fáceis nem se pode contar com horizontes finais que resistam às “duras réplicas da História”. Aquele hegemon incontrastado não ocuparia sozinho por muito tempo o centro do palco. Refiro-me, evidentemente, à ascensão econômica da China, um dos mais espetaculares acontecimentos na escala dos séculos, a ponto de incendiar a imaginação dos modeladores de cenários nas ciências sociais. Tucídides e a Guerra do Peloponeso voltaram a ser invocados para explicar novamente a possibilidade do quase inevitável conflito entre a potência que irrompe impetuosamente e a que vê diminuir seu poder relativo.

Um choque geopolítico com reverberações clássicas, só que agora dotado de dimensões catastróficas? Uma segunda guerra fria, com suas zonas inevitáveis de confronto direto ou por interpostas nações? Não faltará quem – na trilha aberta por um dirigente perigoso, como Donald Trump – planeje e queira a reedição do contraste entre sistemas frontalmente contrapostos. Uma vez mais, agora num contexto em que ninguém se salva sozinho, “capitalismo” e “comunismo” (chinês) promoveriam a mobilização total de cada um dos seus campos, armados até os dentes, minados reciprocamente por “quintas-colunas” e assolados por teorias conspiratórias. Haverá quadro mais propício para o suicídio coletivo?

Seguindo esta trilha, extravia-se o elemento de progresso na convocação feita pelo presidente Joe Biden em prol da democracia – esta que nos parece a palavra por excelência do nosso tempo. Por certo, há diferenças essenciais entre sociedades abertas e fechadas, entre dois ideais reguladores, um liberal e cosmopolita, outro autoritário e nacionalista. Mas a disputa só pode se dar no campo da política ou, se se quiser, da disputa hegemônica no sentido nobre – a saber, como capacidade de solução de avassaladores problemas comuns, como a atual pandemia nos ensina todos os dias.

É preciso, ainda, falar de um fator perturbador: no caso do Ocidente político, a que pertencemos por origem e vocação, tem se espalhado a feroz corrupção populista da democracia. Tal espalhamento chama-nos a um autoexame a propósito do que Norberto Bobbio costumava denominar “promessas não cumpridas” da democracia. De resto, incumprimento não só no plano institucional, como no da própria vida cotidiana, o que atinge em cheio l’uomo qualunque e o torna presa das formas modernas e pós-modernas de demagogia.

Como sempre, a tentação autoritária nasce e se nutre no interior das nossas sociedades, antes de se encarnar num adversário avesso a compromissos e inteiramente “outro”. Teremos a coragem de nos examinar neste espelho impiedoso?

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TRADUTOR E ENSAÍSTA, É UM DOS ORGANIZADORES DAS OBRAS DE GRAMSCI NO BRASIL

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