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As relações entre EUA, Rússia e China

Momentos de crise e de acirramento de tensões exigem estadistas hábeis ...

Paulo Roberto da Silva Gomes Filho, O Estado de S.Paulo

12 de abril de 2021 | 03h00

Uma série de notícias internacionais envolvendo os EUA, a Rússia e a China demonstram que as relações entre as principais potências militares do planeta vivem um momento de tensionamento bem acima da normalidade.

A primeira notícia é a entrevista do presidente Joe Biden ao jornalista George Stephanopoulos, na rede de televisão ABC. Biden concordou com a assertiva de Stephanopoulos de que o presidente russo Vladimir Putin seria um assassino. Disse ainda que Putin “pagará o preço” por interferir nas eleições dos EUA, o que teria sido feito, segundo relatório da inteligência norte-americana recentemente divulgado, em favor do ex-presidente Donald Trump.

A resposta russa foi imediata e o embaixador nos Estados Unidos foi chamado a Moscou “para consultas”. Como se sabe, no balé da diplomacia, esse é um gesto que demonstra profundo descontentamento. A explicação da chancelaria russa foi a de que o embaixador seria consultado de modo a “não permitir que a relação entre os dois países se deteriore de maneira irreparável”. Em declaração imediatamente posterior, Putin desejou “vida longa” a Biden, para depois dar a entender que o presidente dos EUA identificava em outras pessoas características de sua própria personalidade.

Um chefe de Estado chamar outro de assassino, em tempo de paz, é algo extremamente incomum. O presidente Biden é um político experiente, que já foi vice-presidente da República e senador por décadas. É claro que sabia perfeitamente da repercussão que sua fala teria. Se fez isso, só se pode crer que tenha sido com o objetivo de provocar uma escalada nas tensões com os russos.

Mas esse não foi o único evento recente a estressar a relação entre as duas potências. A empresa russa Gazprom lidera a construção do Gasoduto Nord Stream 2, que duplicará a quantidade de gás natural que os russos vendem à Alemanha. Trata-se de um projeto de 1.200 km, que já teve 94% de sua construção terminada e ligará os dois países pelo Mar Báltico. O projeto recebe forte oposição dos EUA, que consideram que a obra visa, na verdade, a “dividir a Europa e enfraquecer sua segurança energética”, como declarou o secretário de Estado Antony Blinken em 18 de março. Isso porque o gasoduto contorna a Ucrânia, que dessa forma não recebe os royalties devidos pela passagem do gás por seu território. Na mesma declaração, os norte-americanos reiteram as sanções que já são aplicadas às empresas que trabalham na construção do gasoduto e afirmam que elas podem ser estendidas caso novas empresas venham a ser identificadas. Trata-se de uma questão delicada por envolver a aliada Alemanha, que defende a construção do gasoduto.

Para completar as recentes rusgas nas relações entre EUA e Rússia, o embaixador russo em Sarajevo escreveu um artigo dizendo que “a Rússia terá de reagir” caso a Bósnia e Herzegovina ingresse na Otan, a aliança militar ocidental liderada pelos EUA. Os bósnios movimentam-se para se juntar à aliança. O país, além da Sérvia e de Kosovo, cuja soberania ainda está em aberto, são os únicos países dos Bálcãs que não aderiram à Otan. Montenegro juntou-se à aliança em 2017 e a Macedônia do Norte tornou-se membro no ano passado.

Ao mesmo tempo, no Alasca, era realizado um “diálogo de alto nível” entre EUA e China. O secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, encontrou-se com o ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi, e com Yang Jiechi, principal diplomata chinês. Embora tenham terminado em tom ameno, com as trocas de boas intenções de praxe, as conversas começaram em tom muito duro, com Blinken afirmando que os EUA defendem uma ordem internacional baseada em regras, sem o que o mundo seria muito mais violento. Disse que os EUA consideram que as ações chinesas no trato da minoria étnica uigur, na região de Xinjiang, e em relação a Taiwan e Hong Kong, além de ataques cibernéticos aos EUA e coerção econômica da China em relação a países aliados dos EUA violam essa ordem internacional baseada em regras.

Yang Jiechi respondeu no mesmo tom, afirmando que a China se opõe firmemente à interferência em seus assuntos internos, como seria o caso de Taiwan, Xinjiang e Hong Kong, e que os EUA, além de não estarem em posição de “dar lições” à China, deveriam concentrar-se em seus próprios problemas quanto ao respeito aos direitos humanos.

Russos e chineses têm se aproximado bastante, até mesmo militarmente. As sanções econômicas que norte-americanos e europeus impuseram aos russos em razão da anexação da Crimeia e da ação militar russa na Ucrânia acabaram por incentivá-los a se aproximar da China, que por sua vez ampliou significativamente seu comércio com os russos e, pela Iniciativa Belt and Road, tem oferecido vários projetos ao enorme vizinho de norte.

Os momentos de crise e de acirramento de tensões exigem estadistas hábeis na escolha dos momentos de escalar e de arrefecer essas tensões. Esperemos que esse seja o caso de todos os envolvidos.


CORONEL DE CAVALARIA DO EXÉRCITO (WWW.PAULOFILHO.NET.BR)

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