As virtudes de Bolsonaro

Discurso conservador assenta na ‘persona’ de homem simples do povo defensor do Brasil

Nicolau da Rocha Cavalcanti, O Estado de S.Paulo

29 de outubro de 2020 | 03h00

Não se chega ao poder sem uma boa dose de sorte, de fortuna. O político que se esquece disso, pensando que a vitória eleitoral se deve apenas às suas ações, comete enorme erro. Também se equivoca quem atribui exclusivamente a vitória do adversário político às circunstâncias. Sempre há sorte e sempre há virtude.

Contrariando vários prognósticos, Jair Bolsonaro foi eleito presidente da República. E contrariando outras tantas previsões, ele continua contando com significativo apoio popular. Nesse quadro, há fatores circunstanciais, mas há também ações politicamente habilidosas. Ignorar as virtudes de Bolsonaro é um jeito certeiro de contribuir para sua permanência no poder.

De forma paradoxal, a fortuna política sorriu para Bolsonaro no atentado contra sua vida, em setembro de 2018. Também lhe sorriu em situações mais amenas. O casamento com Michelle de Paula o aproximou do universo protestante. Enquanto seu eleitorado esteve restrito ao âmbito militar, Bolsonaro era um político de 100 mil votos. Em 2014, a proximidade com as igrejas rendeu-lhe 460 mil votos. Bolsonaro não precisou de estudo sociológico para identificar os sentimentos do povo. Michelle o guiou.

Além da sorte, Bolsonaro soube agir com perspicácia. É conhecida, por exemplo, sua habilidade nas redes sociais. O sucesso da comunicação com o eleitor não foi, no entanto, mero fruto do uso intensivo da tecnologia. Bolsonaro valeu-se de duas atitudes – duas virtudes, em termos políticos – que foram decisivas para ele.

Desde 2014, mas especialmente na campanha de 2018, Jair Bolsonaro apropriou-se de um discurso conservador-religioso. Pode-se discutir se o que ele diz é, a rigor, conservador ou mesmo religioso. Recente live de quinta-feira, com insinuações sobre a vida sexual de uma criança, é de uma brutalidade desconcertante. No entanto, muitas pessoas com uma visão de mundo religiosa se sentem defendidas e representadas por ele. Aquilo que o torna ridículo aos olhos de muitos – por exemplo, a menção à cristofobia em seu discurso na ONU – é precisamente o que cria sintonia afetiva (mais profunda que a mera simpatia política) com outras tantas pessoas. A jogada política não é banal. A maioria da população brasileira acredita em Deus.

O uso dos sentimentos religiosos da população para fins eleitorais talvez seja um dos meios mais nefastos – e também mais eficazes – de manipulação política. Bolsonaro entendeu essa eficácia e sua verve polemista, antes dedicada à defesa da ditadura militar, passou a ser usada também em questões morais e religiosas. E o que muitos veem como uma inconstitucional confusão entre Estado e religião é para outros sinal da retidão de caráter de Bolsonaro, que não tem medo de dar a cara por Jesus Cristo.

Tudo isso pode soar estranho aos ouvidos contemporâneos, mas é inegável que as afirmações de Bolsonaro sobre matéria moral e religiosa têm ressonância em muitos corações. O efeito é poderoso – e perigoso. Bolsonaro pode fazer tudo, até brigar com Sergio Moro a respeito de interferência na Polícia Federal, mas aos olhos de seus seguidores ele está salvando o País da corrupção, do PT, do ateísmo e da ideologia de gênero. A presença da chamada ala ideológica no governo federal ajuda a manter o discurso, mesmo que as ações do presidente da República depois contradigam a tal agenda redentora.

A percepção de que Bolsonaro defende a fé e a moral é um diferencial competitivo sobre seus concorrentes. O slogan “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos” deu-lhe uma identidade forte e única. Pode parecer contraditório, mas quando Bolsonaro fala de Deus ou de aborto, aos olhos de muitos ele está apenas defendendo o direito de cada um pensar e acreditar no que quiser. E isso, seja verdadeiro ou não, tem grande força política.

A outra habilidade política de Bolsonaro refere-se à sua capacidade de mudança de acordo com as circunstâncias. Quem desejaria o deputado Jair Bolsonaro na Presidência da República? Pouquíssima gente, por certo. Mas a imagem de Bolsonaro passou por uma revolução. O político sem expressão que vivia trocando de partido passou a ser, em 2018, o salvador que vinha varrer o socialismo do País e instaurar um regime liberal.

Agora, assiste-se a mais uma metamorfose. No governo, Bolsonaro trocou o boné liberal pelo gorro populista. Não são difíceis de identificar várias incoerências entre Bolsonaro deputado, candidato e presidente. Mas a política não é uma prova de lógica, e Bolsonaro tem feito dessa metamorfose ambulante um diferencial competitivo sobre os concorrentes. Na batalha política, o ex-capitão não tem pudores de dizer o oposto do que dissera antes.

Bolsonaro não é apenas hábil nas redes sociais. Quando lhe convém, é o mais valentão na defesa da moral e dos bons costumes. Ao mesmo tempo, é o político mais amorfo, sem substância definida, em todo o restante. Bolsonaro dança conforme a música. E – jogada de mestre – tudo isso assenta perfeitamente em sua persona pública, de homem simples do povo que quer apenas o melhor para o Brasil.

ADVOGADO E JORNALISTA

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