Assembleia da CNBB: escutar os jovens

Nos seus desafios e nas suas expectativas se mostram os rumos da sociedade do amanhã

Dom Odilo P. Scherer, cardeal-arcebispo de São Paulo

11 de maio de 2019 | 04h30

O Santuário Nacional de Aparecida sediou, de 1.º a 10 de maio, a 57.ª Assembleia-Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), com a participação de cerca de 330 bispos católicos, representantes das 275 dioceses do Brasil. Realizada anualmente, a assembleia tem o objetivo principal de tratar de assuntos relevantes para a vida, a organização e a atuação da Igreja Católica no País, de forma a atender às demandas da missão da Igreja em todas as suas dimensões, sempre em sintonia com as orientações do papa Francisco e da Santa Sé.

Os principais assuntos tratados foram a definição das diretrizes quadrienais da ação da CNBB e da Igreja no Brasil, o acompanhamento da vida social, econômica e política do País, assuntos de doutrina da fé e liturgia, a preparação do sínodo da “Pan-Amazônia”, a ser realizado em Roma no próximo mês de outubro, e a situação religiosa no Brasil, especialmente no que se refere aos jovens. Durante a sua assembleia, a CNBB também elegeu o seu novo quadro diretivo para o próximo quadriênio. E não faltou muita oração e também um dia de retiro espiritual, pregado por dom José Tolentino, bispo português responsável pelo arquivo secreto do Vaticano e pela biblioteca pontifícia.

A pluralidade de assuntos e temas abordados durante a assembleia denota a amplitude e a riqueza dos campos de atuação da Igreja Católica no Brasil, que, atenta à sua missão religiosa, não deixa de dar a sua contribuição para o bem comum, estimulando e orientando seus membros a serem cidadãos participativos nas suas comunidades, em vista da edificação de comunidades locais bem constituídas e atentas às mais diversas realidades humanas em que estão inseridos. Um bom cristão também há de ser um bom cidadão.

Nesse sentido, a juventude está merecendo uma atenção especial da Igreja e o papa Francisco dedica um empenho pessoal aos jovens. Nas suas palavras, “os jovens são o agora de Deus” e necessitam de maior atenção da Igreja. Nas expectativas e nos desafios dos jovens mostram-se os rumos para a construção da sociedade do amanhã. “Eles são, de certa forma, o termômetro para avaliar como está a sociedade”, disse Francisco no encontro com os bispos da América Latina durante a Jornada Mundial da Juventude, no Panamá, em janeiro deste ano.

Diversas têm sido, ao longo do tempo, as iniciativas da Igreja voltadas para os jovens. Na América Latina, em 1979, a Conferência de Puebla fez a opção pelos jovens no continente. Seguramente, porém, a iniciativa que teve maior relevância e visibilidade, nesse sentido, foi a Jornada Mundial da Juventude, promovida por São João Paulo II a partir de dois eventos: o jubileu dos jovens, em Roma, no Ano Santo da Redenção de 1984, e o encontro mundial dos jovens realizado no Ano Internacional da Juventude proclamado pela ONU, em 1985.

Logo em seguida, o mesmo papa dedicou uma carta apostólica aos jovens, convidando-os a participarem de um encontro em Roma, em 1986. Essa foi a primeira Jornada Mundial da Juventude, que teve continuidade no ano seguinte, no encontro internacional de jovens de Buenos Aires. A Jornada Mundial da Juventude, realizada a cada três anos, tornou-se um encontro internacional de peregrinação de jovens, aos quais o mesmo São João Paulo II dedicou estas palavras: “Vós sois a esperança da Igreja. Vós sois a minha esperança!”.

Bento XVI deu continuidade às jornadas da juventude e convocou três delas durante o seu pontificado. Francisco fez o mesmo e sua primeira participação no evento foi no Rio de Janeiro, em 2014. Ainda permanecem bem vivas as imagens impressionantes dos milhões de jovens na orla de Copacabana, aos quais o papa dirigiu palavras encorajadoras e pediu que descessem às ruas e participassem com esperança da construção do seu futuro.

Francisco, porém, percebeu que os novos tempos pediam para ir além: era preciso dar a palavra aos jovens, para falarem com toda a liberdade. Já não bastava falar sobre a juventude ou falar aos jovens, a partir de paradigmas preconcebidos, era necessário ouvi-los. E ele mesmo deu o exemplo na preparação da assembleia do Sínodo dos Bispos sobre a juventude. A primeira etapa da preparação da assembleia sinodal consistiu numa ampla pesquisa e escuta dos jovens, que dela tomaram parte aos milhares, sem restrições de fé ou ideologia.

Em setembro de 2017, Francisco presidiu em Roma um seminário sobre a condição juvenil no mundo, com a participação de centenas de jovens provenientes de muitos países. Foi a etapa preparatória para o sínodo, realizado em outubro de 2018, com o tema O jovem, a fé e o discernimento vocacional. Mesmo sendo o sínodo um organismo episcopal, a assembleia sinodal também contou com significativa participação de jovens de vários países.

Fruto desse sínodo sobre o tema da juventude foi a exortação apostólica Christus vivit (Cristo vive), publicada em abril passado. Na sua assembleia-geral, a CNBB acolheu esse documento pontifício, que deve assinalar um novo método no trabalho com os jovens. Desse método fazem parte a escuta empática, a discussão, o discernimento e a ação. O próprio papa destacou a importância desse passo para a Igreja no final da reunião sinodal: “Uma vez que a Igreja escolheu ocupar-se dos jovens neste sínodo, ela, no seu conjunto, fez um opção muito concreta e considera esta missão uma prioridade pastoral decisiva, à qual deve investir tempo, energia e recursos”. Sem dúvida, serão esforços compensadores, pois aos jovens devem ser dedicadas as melhores atenções e energias.

A CNBB encarregou uma comissão de estudar e propor um projeto de iniciativas e ações para a juventude no Brasil, contando com as diretrizes do papa Francisco na sua exortação apostólica.

*DOM ODILO P. SCHERER É CARDEAL-ARCEBISPO DE SÃO PAULO

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.