Avanço na mortandade e fracasso na economia

Governo falhou em duas áreas cruciais: na defesa da saúde e na ação econômica

Rolf Kuntz, O Estado de S.Paulo

28 de março de 2021 | 03h00

Com pandemia solta e economia emperrada, o Brasil supera 300 mil mortes pela covid-19, acumula recordes de óbitos e encerra março com uma combinação perversa: inflação em alta, desemprego elevado e dezenas de milhões de pessoas à espera de uma nova rodada de auxílio emergencial, suspenso em janeiro. Completado um ano de pandemia, o presidente da República nomeou seu quarto ministro da Saúde e patrocinou a formação de um comitê coordenador de ações contra a covid. Ao atribuir a liderança ao senador Rodrigo Pacheco, presidente do Congresso, Jair Bolsonaro se manteve, cautelosamente, longe dessa função. Pressionado, defendeu a vacinação, mas aproveitou a ocasião para propagandear, mais uma vez, seu famigerado tratamento precoce. Há ociosidade na maior parte da indústria, mas excesso de trabalho em funerárias e cemitérios.

Grandes erros do governo converteram o País em epicentro da pandemia, fator de risco para todo o mundo e ameaça grave aos vizinhos. Mas isso é apenas parte de um balanço raro, se não único, no chamado mundo ocidental. Além de se destacar pelo fracasso federal na crise sanitária, o Brasil saiu do grupo das dez maiores economias. Passou da 9.ª para a 12.ª posição, em 2020, segundo a Austin Rating, ficando abaixo de Canadá, Coreia do Sul e Rússia, elevados aos 9.º, 10.º e 11.º lugares.

Mas a saúde econômica do Brasil é pior que a de muitos países a partir da 13.ª posição – concorrentes com mais investimentos produtivos, maior integração global e melhor educação. Pelo tamanho do produto interno bruto (PIB), Austrália, Espanha e Indonésia ficaram logo abaixo do Brasil, segundo a Austin Rating, e os dois primeiros países poderão ultrapassá-lo em 2021.

Não se trata, no entanto, de enfrentar um concurso internacional, mas de reconhecer e atacar problemas acumulados em muitos anos. O Brasil já andava muito mal quando chegou a pandemia. Em 2019 o PIB cresceu só 1,4%, menos que em 2018, segundo ano de retomada depois da recessão de 2015-2016. No primeiro trimestre de 2020 a produção foi 2,1% menor que nos três meses finais do ano anterior. No ano passado, o recuo de 4,1% resultou também de problemas anteriores à covid-19. O crescimento em 2021, estimado em 3,6% pelo Banco Central, será insuficiente para anular a queda. Realinhar o País ao resto do mundo será ainda mais demorado.

O governo Bolsonaro parece jamais haver percebido a dimensão e as características da crise brasileira, iniciada muito antes do novo coronavírus e já visível no primeiro mandato da presidente Dilma Rousseff. A industrialização, iniciada há cerca de um século e acelerada a partir dos anos 1940, vem sendo revertida. Mas essa desindustrialização é um desmoronamento, em nada comparável com as mudanças observadas no mundo mais avançado, onde ocorre, há anos, a passagem para uma chamada fase pós-industrial.

O governo, segundo alguns analistas, vai mal na economia por ter abandonado sua agenda liberal. Mas nunca existiu essa agenda, e se tivesse existido teria sido uma bobagem. Problemas de competitividade vão muito além de falhas sanáveis com base em cartilhas liberais para jardins de infância.

É bobagem falar sobre o peso da tributação e ignorar a qualidade – e a funcionalidade – dos impostos. Antes de ser pesada, a tributação brasileira é ruim: encarece o investimento produtivo, afeta a competitividade e é tremendamente regressiva, limitando o poder de consumo da maioria. Mudanças, no entanto, envolvem custos. Vamos diminuir os impostos indiretos e aumentar os diretos, atingindo a escala superior de rendimentos, como nos países desenvolvidos? Estão todos de acordo? Mais ou menos?

Outras questões também ultrapassam a cartilha. Como explicar o poder de competição do agronegócio e de algumas indústrias de transformação, exemplificadas pela Embraer? Pessoas andam impressionadas com as maravilhas tecnológicas produzidas por fintechs e aplicadas à atividade rural. São maravilhas, sim, mas, antes da atuação dos jovens produtores de belos equipamentos, a agropecuária brasileira já era uma das mais competitivas, com décadas de modernização e de aumento de produtividade.

Dá para entender essa história sem a contribuição da Embrapa, de outras instituições de pesquisa, de grandes escolas de agronomia e de boas políticas de financiamento e de garantia de preços? E a Embraer – ela saiu do nada, a partir da decisão de um grupo de empresários corajosos e criativos, num ambiente aberto ao livre empreendimento? Não há relação, por exemplo, com o Instituto de Tecnologia de Aeronáutica, ou com o empurrão inicial proporcionado pelo governo, ou com alguma ideia de estratégia nacional e com as condições de financiamento?

Políticas de desenvolvimento podem resultar em protecionismo e em distribuição de favores, como no caso dos “campeões nacionais”. Mas, concebidas e aplicadas com seriedade e inteligência, podem ser fontes de vigor e de progresso econômico e social. Que tal deixar o besteirol de liberalismo versus antiliberalismo e redescobrir a boa discussão sobre desenvolvimento?


JORNALISTA

 

 

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