Avós e pessoas idosas

A solidão e o abandono são particularmente dolorosos para muitos em tempo de pandemia

Dom Odilo P. Scherer, O Estado de S.Paulo

10 de julho de 2021 | 03h00

No próximo dia 25 de julho será comemorado pela primeira vez o Dia dos Avós e dos Idosos, instituído pelo papa Francisco em 31 de maio deste ano. Não por acaso, essa comemoração é perto da festa de São Joaquim e Sant’Ana, pais de Maria e avós de Jesus. Eles são venerados na tradição católica popular como padroeiro dos avós e dos idosos.

A mensagem dirigida pelo papa Francisco aos avós e idosos parte do contexto da pandemia de covid-19 – que deixou muitas pessoas idosas no desalento e em dura solidão – e os conforta com as palavras de Jesus: “Eu estou contigo todos os dias” (cf. Mt 28, 20). Francisco dirige-se com essas mesmas palavras aos avós e idosos que tantas vezes experimentam a solidão e até mesmo o abandono. Essa condição está sendo particularmente dolorosa para muitos idosos neste tempo de pandemia, quando as pessoas de mais idade são obrigados a aceitar um distanciamento físico e social drástico para evitar o contágio do novo coronavírus e com a doença.

Incluindo-se também entre os idosos, o papa repete-lhes familiarmente: coragem! Deus não os deixa nunca no abandono! “Muitíssimos de nós adoeceram e muitos partiram, viram apagar-se a vida do seu cônjuge ou dos próprios entes queridos, e tantos – demasiados – viram-se forçados à solidão, isolados por um tempo muito longo”. Durante esse tempo, porém, os idosos podem estar certos de que Deus lhes envia “anjos” para os confortar e consolar: anjos que podem ter o rosto de um filho ou neto que os visita, de um amigo de longa data que lhes envia uma mensagem, ou do vizinho da porta ao lado, de um profissional da saúde, de um cuidador... “Oxalá cada avô, cada idoso, cada avó, cada idosa – especialmente quem dentre vós está mais sozinho – receba a visita de um anjo!”.

De maneira pedagógica e sutil, o papa também convida cada um a ser esse anjo para as pessoas idosas, recordando a todos o dever de cuidar dos próprios pais e outras pessoas idosas ou abandonadas a uma amarga solidão. O papa também convida os idosos a aprofundarem a vivência de sua fé, acolhendo os sinais de sua proximidade, lembrando-lhes que a visita e a proximidade de Deus também se manifestam nas boas palavras que lhes são dirigidas e nos cuidados que lhes são dispensados de tantas maneiras.

Acolhendo as limitações próprias da idade, os idosos podem encontrar serenidade e amadurecer ainda mais a sabedoria aprendida com o passar dos anos: “Cada dia leiamos uma página do Evangelho, rezemos com os salmos, leiamos os profetas! Ficaremos comovidos com a fidelidade do Senhor”.

Mais de uma vez Francisco se referiu às pessoas idosas em seus pronunciamentos, advertindo que elas não devem ser vistas a partir de cálculos puramente econômicos e na lógica da sociedade de competição, produção e consumo, segundo a qual poderiam ser considerados inúteis e descartáveis. Os próprios idosos devem ser os primeiros a não se resignar a uma condição de inutilidade e sem mais nada para fazer. Eles ainda têm missões importantes na vida e contribuições a dar à humanidade. “A nossa vocação é salvaguardar as raízes, transmitir a fé aos jovens e cuidar dos pequeninos. Não vos esqueçais disto!”.

De maneira especial, nos momentos de crise e grandes dificuldades as pessoas idosas têm uma renovada missão. Francisco convida-as a não desanimarem se as energias se vão exaurindo, ou lhes pareça não haver mais razão para pensarem em projetos novos na vida; eles também não se devem entregar quando as preocupações com os próprios familiares já são tantas e o fardo da idade parece demasiado pesado.

Oxalá o longo período da pandemia, que já deixou um saldo imenso de sofrimento e vidas perdidas, não tenha sido inútil, mas ajude a valorizar mais as pessoas e sua vida e a viver com mais solidariedade e atenção recíproca. “Ninguém se salva sozinho. Somos devedores uns dos outros. Todos somos irmãos (cf. papa Francisco, Encíclica Fratelli Tutti, 35).

Na mensagem aos avós e idosos aparece o tema do diálogo entre as gerações. A população mundial está envelhecendo bastante rapidamente e nenhuma sociedade se pode dar ao luxo de desprezar os idosos e sua importante contribuição para o bem comum. O futuro do mundo está na aliança entre os jovens e os idosos e no diálogo harmonioso entre as gerações. Jovens podem sempre aprender com os idosos e lutar para tornarem realidade os seus sonhos de justiça, paz e solidariedade.

Por fim, o papa convida os idosos a aprofundarem sua experiência de Deus, que nunca fica velho e segue alimentando a esperança. Os idosos podem ser os intercessores pelo mundo e pelas jovens gerações. No mar tempestuoso que atravessamos, a oração dos anciãos indica a serena certeza de um porto seguro para todos.

É estranho que se veja a velhice, mais e mais, como uma doença e se valorize pouco a imensa contribuição que as pessoas idosas ainda podem oferecer para a vida social. Nesse contexto, as palavras de Francisco têm o efeito de um raio de luz na penumbra que envolve o ocaso da vida.


CARDEAL-ARCEBISPO DE SÃO PAULO

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