Beber, sim. Estudar, não?

Estamos ampliando o obscurantismo, a ignorância e o rancor num país já tão desigual

Yara Jafet, O Estado de S.Paulo

13 de agosto de 2020 | 03h00

Não sabemos quando a pandemia vai passar. Mas a diminuição na demanda por leitos de UTI, pelo menos em São Paulo, vem autorizando afrouxar o rigor nas regras de isolamento social. Então, shopping centers, restaurantes e bares, dentre outros, já abriram as portas.

Todavia, quando a questão é a reabertura das escolas, tudo muda de figura. O sim e o não duelam freneticamente. E enquanto os embates são travados, ficamos a perguntar o que estamos vivendo e, mais ainda, o que é de fato importante para o Brasil.

O que é de fato relevante para famílias inteiras que voltaram às praias (sem máscara), ou admitem cuidadoras despreparadas tomando conta de várias crianças em locais nem sempre apropriados, ou silenciosamente aceitam que escolas abram seus parques para alunos brincarem de forma clandestina? A quem estamos enganando?

É claro que a economia precisa girar. E girou até então, embora em menor velocidade, graças ao home office, às vendas online e ao delivery, como é tratado o serviço de entrega em domicílio. Porém não há dúvida quanto ao que parou de vez: o acesso ao universo de convivência e aprendizado que só a escola pode oferecer.

Enquanto a reabertura do comércio contou com horários alternativos de funcionamento, nada disso foi pensado para as escolas. Ninguém pensou em primeiro lugar nas crianças e nos jovens, ainda que o futuro do desenvolvimento e do crescimento de qualquer nação dependa deles. Ninguém programou sistema de turnos durante o dia escolar, de forma a garantir o necessário distanciamento, acompanhado de todos os protocolos necessários.

Qual será o impacto na questão da evasão escolar? Quantos jovens desistirão de sua formação acadêmica sem as aulas presenciais? Quantos têm acesso a hardwares que permitem a educação à distância? Quantos se interessam pelos conteúdos propostos sem a interação com os amigos e a intermediação do professor? Qual o tamanho do fosso que estamos aprofundando entre os mais e os menos favorecidos? E qual o prejuízo socioemocional que estamos causando a crianças e jovens?

Na empolgação de uns e desinformação de muitos, propalam-se apenas os riscos, muitas vezes superdimensionados e alarmistas, da reabertura das escolas. Por que a vida de um médico vale menos que a vida de um professor? Por que um tem de se expor e ao outro é franqueada a possibilidade de ficar em casa? Por acaso formam-se médicos sem professores? Ambos dão vida e trazem luz à humanidade em sua profissão.

Médicos de risco foram e são afastados. Professores de risco também devem ser afastados. Porém estes podem continuar ativos, tutelando jovens professores que, com menos risco para a própria saúde, têm mais condições de estar na linha de frente com alunos e estagiários. E todos só têm a ganhar com isso.

Da mesma forma que o retorno seguro às aulas presenciais significa óbvio reconhecimento da escola como centro do processo da verdadeira e duradoura retomada, seria igualmente óbvio ter um plano de ação detalhado para levar isso a efeito – o que lamentavelmente não existe –, para que mestres, pais e alunos pudessem analisar e debater.

Afinal, escola é o espaço privilegiado de aprender a aprender. Não há lugar mais essencial para a edificação de novos paradigmas. É ali que se formam os cidadãos críticos de que o mundo tanto precisa. É ali que se pode criar o indispensável distanciamento da desinformação que fomenta a alienação coletiva.

Com o contínuo desrespeito à educação estamos deformando, ao invés de formar e preparar a nova geração. Estamos ampliando o obscurantismo, a ignorância e o rancor num país cada vez mais desigual.

Adicione-se a este triste e “pandêmico” cenário outras reflexões necessárias. Primeiramente, é fundamental diminuir as expectativas dos pais quanto a conteúdos programáticos que os filhos têm de ter a qualquer preço. É preciso que sejamos realistas. O ano letivo como o conhecíamos foi perdido. Provas, chamadas orais, aprovação, reprovação, vestibular não podem manter os mesmos critérios.

Um ano na vida de crianças e jovens só não será perdido se contarem com o que hoje se faz imprescindível: o acolhimento. Este favorecerá seu crescimento e desenvolvimento emocional, essência da cognição significativa.

É necessário que as autoridades revejam a exigência do cumprimento de 800 horas. A quem serve isso neste momento de tanto ineditismo? Nunca vivemos situação semelhante na História recente.

É imperativo repensar com seriedade e planejar 2021 a partir de agora, começando por ouvir os professores (eles têm muito a dizer sobre os alunos). A dualidade do voltar ou não às aulas presenciais será racionalmente equacionada se governo e sociedade decidirem pôr a educação no centro da discussão.

Se desejamos continuar comendo, bebendo, comprando, enfim, vivendo, é preciso garantir oportunidade de ensino àqueles que, em poucos anos, estarão produzindo, servindo, enfim, construindo as estruturas indispensáveis à existência de todos nós. E o resumo de tudo isso é um só: educação!

MÉDICA E EDUCADORA

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