Bolsas de pesquisa para quem precisa

Cortes de recursos nessa área comprometem o futuro do País

Adriana Bin e Sergio S. Filho, O Estado de S.Paulo

07 de janeiro de 2021 | 03h00

O Brasil tem vivido um ambiente de incerteza, em que o enfrentamento de problemas correntes tem muitas vezes comprometido progressos conquistados com dificuldade, provocando danos que ameaçam ainda mais o futuro do País. Em momentos de crise, os países desenvolvidos têm reforçado o apoio à educação e à pesquisa científica em geral. Por aqui temos visto o contrário, com propostas e medidas que põem em xeque todo o sistema, do ensino básico à pós-graduação.

Em São Paulo o orçamento proposto para 2021 permite corte de R$ 450 milhões de recursos da Fapesp, em desrespeito à Constituição do Estado, que destina um mínimo de 1% da receita tributária estadual a essa fundação. Neste artigo demonstramos que cortes dessa magnitude causarão grandes prejuízos à produção de conhecimento no Estado de São Paulo e no País. O sistema brasileiro de fomento da pós-graduação é um dos mais bem estruturados do mundo, o mais forte de toda a América Latina e responsável por manter o Brasil na fronteira da produção de conhecimento de todas as áreas.

Estudantes de pós-graduação são um dos alicerces da produção científica e tecnológica de um país e não seria exagero dizer que são a força renovadora do avanço do conhecimento que se faz em centros de pesquisa públicos e privados e em universidades em todo o mundo.

O argumento universal para a manutenção e expansão das bolsas de mestrado e doutorado é que sem esse mecanismo dificilmente haveria suficiente dedicação à pesquisa para produzir ciência de qualidade.

Será mesmo? Vejamos algumas evidências.

Pesquisa recente conduzida pela Unicamp e pela Fapesp (www.fapesp.br/avaliacao) quantificou e qualificou os impactos de bolsas de mestrado e doutorado na produção de conhecimento no Estado de São Paulo. Os resultados são enfáticos: sem as bolsas o impacto da produção científica seria cerca de cinco vezes menor do que é hoje! Essa redução seria suficiente para derrubar drasticamente a posição do Brasil no cenário internacional de produção de conhecimento científico e tecnológico.

Analisando dados de mais de 57 mil mestres e doutores, compararam-se três grupos de indivíduos: os que tiveram bolsas da Fapesp, os que tiveram bolsas da Capes e do CNPq e os que fizeram mestrado e doutorado sem bolsa. Os resultados apontam uma diferença bastante significativa entre os que tiveram e os que não tiveram bolsa, tanto em termos quantitativos como qualitativos.

Os ex-bolsistas Fapesp de doutorado apresentam impacto científico medido por número de citações cerca de seis vezes maior que os que não tiveram bolsa, usando como referência a base Scopus, uma das mais amplas bases de publicações no mundo. No caso do mestrado, a comparação aponta uma medida cinco vezes maior.

Citação indica justamente que uma determinada publicação teve repercussão científica e tecnológica, sendo empregada como base para novos conhecimentos e suas aplicações. O significado desses números é claro: as bolsas de pós-graduação têm sido fundamentais para garantir os padrões de qualidade necessários à prática científica de interesse mais amplo, com repercussão nacional e mundial.

Tão significantes quanto são os achados relacionados à altmetria, as chamadas métricas alternativas que ajudam a medir como a produção de conhecimento científico se dissemina na web social. Também nesse aspecto os trabalhos dos ex-bolsistas se destacam em relação aos demais. No caso do doutorado, publicações de ex-bolsistas receberam nove vezes mais menções em redes sociais, blogs e sites de notícias, entre outros meios, do que os trabalhos dos que não tiveram esse tipo de apoio. É uma medida de relevância da produção científica para além dos limites da academia.

Essas diferenças ocorrem não só para as áreas conhecidas pela sigla em inglês Stem, que incluem biológicas, exatas e tecnológicas. Nessa conta entram também as ciências humanas, sociais aplicadas, linguística, letras e artes. A produção de capítulos de livros por doutores que tiveram bolsa da Fapesp nessas áreas do conhecimento é cerca de quatro vezes maior que a dos que não tiveram bolsa; para a produção de livros o número é seis vezes maior.

Esses são achados importantes também para compreender que quando tratamos de produção de conhecimento é preciso considerar que as diferentes áreas têm formas adequadas de medir seu impacto.

Avaliações conduzidas em outros países mostram resultados semelhantes e reforçam o argumento de que o mecanismo de bolsas é fundamental para alimentar a base de produção de conhecimento num país. E isso é essencial para o desenvolvimento de soluções criativas e adequadas para diferentes problemas e desafios, sejam eles tecnológicos, sociais, econômicos, ambientais ou de qualquer outro campo que nos impacte como indivíduos, famílias, localidades e Nação.

Sendo assim, quem precisa de uma política robusta de bolsas de pesquisa é mesmo o Brasil. Cortes de recursos nessas áreas comprometem o futuro do País.


PROFESSORES DA FACULDADE DE CIÊNCIAS APLICADAS E DO INSTITUTO DE GEOCIÊNCIA DA UNICAMP

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