Bolsonaro à luz da ciência comportamental

Ele pensa rápida e intuitivamente, mas deveria refletir sobre decisões, evitar riscos

ROBERTO MACEDO*, O Estado de S.Paulo

21 de março de 2019 | 03h00

A ciência comportamental cobre várias disciplinas que estudam as ações humanas, como a sociologia e a psicologia. E também o comportamento do ser humano no contexto de outras disciplinas, como economia e biologia. Como economista, vi que nas duas últimas décadas a economia comportamental ganhou grande espaço na análise econômica. Com ajuda da psicologia, analisa as decisões econômicas e, especificamente, as financeiras.

Entre as evidências desse avanço, destaco um manual de economia comportamental publicado este ano pela North-Holland, Handbook of Behavioral Economics – Foundations and Applications. Tem dois volumes, 1.241 páginas e foi escrito por 24 autores, vários deles de universidades famosas, como Yale, Harvard, Cornell, MIT e a London School of Economics. No prefácio é dito que Daniel Kahneman, Richard Thaler, George Akerlof, Tom Schelling, Robert Shiller e Jean Tirole, todos premiados com o Nobel de Economia desde 2000, o foram “em parte, ou no todo, por suas contribuições seminais à economia comportamental”.

Na sua essência, a economia comportamental contesta o axioma da racionalidade do ser humano, que por muito tempo pautou a análise econômica de suas decisões. Argumenta que essa racionalidade é limitada e muitas vezes leva a decisões equivocadas.

Na economia comportamental destaco Daniel Kahneman, um psicólogo. Suas análises têm aplicação ampla, como às ações do presidente Bolsonaro. Os artigos científicos que deram prestígio a Kahneman são de difícil leitura para o público em geral, mas ele também publicou um livro mais acessível, já traduzido para o português, Rápido e Devagar: duas formas de pensar (São Paulo: Objetiva, 2012). Nele argumenta que o processo decisório do ser humano recorre a dois sistemas. O sistema 1, automático e rápido, essencialmente intuitivo, influenciado por instintos, emoções e vieses comportamentais, muitas vezes não se mostra racional. O sistema 2 pensa de forma mais elaborada e controlada, toma mais tempo e nele a racionalidade é mais presente. Nas decisões, a mensagem é se informar bem sobre o objeto delas, submetê-las ao sistema 2, e que o recurso a este se torne um hábito.

As decisões de Bolsonaro ficam mais por conta do sistema 1. São impulsivas e às vezes causam perplexidade, como ao divulgar um vídeo obsceno recentemente. Passando a um exemplo de sua gestão, após enviar ao Congresso seu projeto de reforma da Previdência Social, objeto de dificílimas negociações, num encontro com jornalistas abordou a idade mínima de 62 anos proposta para a aposentadoria de mulheres e o valor de R$ 400 por mês previsto para antecipar aos 60 anos o Benefício de Prestação Continuada, devido a idosos carentes. Então admitiu que a idade mínima feminina poderia ficar mais próxima de 60 anos e o referido valor poderia ser ampliado.

Ou seja, já cedeu antes de a negociação avançar, a ponto de um líder oposicionista, Paulinho da Força, ironicamente agradecer essa concessão em mensagem a parlamentares, nestes termos: “Nós que lutamos por uma reforma mais amena podemos dizer que temos um aliado de peso: o amigo Jair Messias Bolsonaro”. Houvesse o presidente recorrido ao sistema 2, uma resposta racional seria que a proposta do governo é a que foi encaminhada ao Congresso e lá será discutida.

Na economia, reconhecendo não entender do assunto, racionalmente decidiu pelo sistema 2 ao delegá-lo ao ministro Paulo Guedes, mas mesmo assim costuma dar seus pitacos pelo sistema 1, como nessa reunião com os jornalistas.

Bolsonaro também se descuida na busca de informações, agravando seu despreparo em vários assuntos. Não se espera que um presidente entenda de tudo, e racionalmente deve sempre se aconselhar com especialistas de sua confiança. Mas ele valoriza muito o aconselhamento de pessoas como Olavo de Carvalho, um filósofo que também parece operar pelo sistema 1, e seus três filhos, mais inexperientes do que ele. Estes deveriam mesmo é cuidar dos próprios mandatos, pois é para isso que foram eleitos.

Bolsonaro tem também vieses comportamentais que não se coadunam com seu cargo. Demonstra não gostar dos políticos brasileiros e do jogo político indispensável para aprovar matérias no Congresso, jogo esse que requer um compartilhamento de poder que Bolsonaro recusa até mesmo a seu próprio partido. Pensando noutra disciplina, a política comportamental, também aí ele está operando pelo sistema 1.

O que fazer? Usando termo antigo aplicado a automóveis, que não vinham tão bem ajustados como os modernos, pode-se dizer que o presidente ainda está amaciando como tal. Aliás, então era comum colocar nos carros novos uma placa com o termo amaciando, para advertir pedestres e motoristas quanto a riscos ligados à baixa velocidade com que os veículos eram amaciados, a paradas súbitas e a outros contratempos. Assim, ainda nesta fase Bolsonaro deveria habituar-se ao sistema 2, para refletir sobre decisões, ir devagar, buscar bons assessores, evitar discursos improvisados mediante textos escritos revisados por assessores e desviar-se em situações de maior risco.

Como penso no Brasil, continuo a desejar sucesso ao presidente, mas vale apontar o risco de que isso não aconteça – e sobrevir um desastre. Seus desacertos são um dos ingredientes da deterioração das expectativas de crescimento do produto interno bruto (PIB) em 2019, que, segundo o Boletim Focus, do Banco Central (de expectativas do mercado financeiro), começaram o ano com uma taxa de 2,5%, mas de umas quatro semanas para cá essa previsão caiu para 2%. Contudo esse mesmo mercado ampliou de 2,6% para 2,8% sua previsão de aumento do PIB em 2020. Ou seja, parece acreditar que o sucesso do presidente foi adiado, o que já é uma deterioração das expectativas quanto ao seu desempenho.

* ROBERTO MACEDO É ECONOMISTA (UFMG, USP E HARVARD) E CONSULTOR ECONÔMICO E DE ENSINO SUPERIOR

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