Bolsonaro e Lula no país dos absurdos

Favoritos à reeleição aproveitam-se de erros crassos dos constituintes de 1988 e da ditadura dospartidos.

José Nêumanne, O Estado de S.Paulo

05 de janeiro de 2022 | 03h00

Se as pesquisas de opinião estiverem fazendo previsões minimamente razoáveis, é muito provável que a disputa pela Presidência da República levará ao segundo turno a inevitável reeleição do petista Lula da Silva, condenado por corrupção nas instâncias iniciais do Judiciário, ou de seu inimigo preferencial, o capitão-terrorista Jair Bolsonaro. Ambos são caudatários da crença fanática de seguidores e da composição conveniente dos tribunais superiores, que jogaram no lixo inúmeras evidências da existência de uma prática sistêmica da corrupção das gestões sob comando de um partido soit-disant de trabalhadores. E de prosélitos que desconhecem o sentido dicionarizado da palavra mito (mentira) e não dão a mínima para promessas de campanha nunca realizadas pelo outro, como, por exemplo, o fim da reeleição.

Essa autêntica praga da frágil democracia praticada no Brasil, a bem da verdade, não decorre da enxundiosa e defeituosa Carta Magna vigente. Mas da primeira das muitas emendas que lhe foram impostas para atender a conveniências das duas organizações partidárias que tomaram as decisões importantes dos últimos anos: a negação do princípio democrático do rodízio no governo, tão importante quanto os pleitos que escolhem os mandatários, a duração dos mandatos e a autonomia harmônica dos Poderes da República. A versão bananeira do mandato executivo de oito anos com um recall no meio, praticada nos Estados Unidos desde a fundação, tem característica injustificável de perene permanência no poder: lá o chefe do governo se mantém no poder uma vez e, depois, se recolhe à necessária aposentadoria. Cá, um chefão partidário pode se reeleger permanentemente com um quadriênio de intervalo. Daí a eventualidade de reeleição inexorável no segundo turno da próxima eleição.

Neste oposto do “país das maravilhas”, visitado na ficção por Alice, personagem do britânico Lewis Carroll, criou-se a figura, indesejável e extintora da igualdade de oportunidades propiciada pelos pais fundadores ianques, do presidente perpétuo. O erro, cometido para atender ao interesse especial de um grupo no poder no segundo mandato pós-Constituição de 1988, condenará a Pátria espoliada ao eterno empobrecimento pela corrupção consensual, vil e demolidora, que fará desfilar nos palanques de festas cívicas figuras execráveis de figurões de uma elite bilionária e insensível. Elas se apropriam de forma criminosa até de conceitos nobres, como a liberdade individual e de conquistas societárias, denominadas de sociais, na apropriação até do sentido das palavras, como no domínio do Grande Irmão de George Orwell, em 1984.

O ano começa sob o signo duplamente absurdo de um comandante perpétuo, que afasta e, depois, volta a entronizar o sócio, apontado como adversário. O PT, que pareceu se extinguir nas últimas eleições, ressuscita pelas mãos do vitorioso do pleito federal de 2018, que, por sua vez, se mantém no palanque e na perspectiva da subida da rampa do palácio pela necessidade do falso oposto. Como nos espetáculos de humor macabro, um é a escada do outro, que, no capítulo seguinte da farsa dolorosa, assumirá o trono subindo nos ombros que agora o sustentam.

O resultado é desastroso, trágico como a vingança de Medeia contra Jasão. A polarização forçada, que gera a alternância dos opostos, produz o empobrecimento democrático (permita o trocadilho irônico e infame) de toda a Nação, que paga caro demais o preço da ilusão. O sonho de Bolsonaro e Lula é um mandato futuro, sabe-se lá em qual ano, ou em que decênio, quiçá em que século, se considerarmos que ambos têm herdeiros, alcançar o absolutismo, encarnado pela Rainha de Copas, de Alice, que mandava decepar a cabeça de quem a contrariasse.

A colheita nefasta dessa permanência vai deixando ruínas por onde passa: os prejuízos da Petrobrás, o desmantelamento da instrução pública, a negação do excelente serviço de saúde estatal, o desemprego crônico em níveis insuportáveis, a falência do Estado e das empresas, a miséria do povo e o empobrecimento da classe média são a falência visível deste anti-Alice no país dos absurdos. O recuo no combate à corrupção, a negação a tradições que se consolidavam, como os esquemas de imunização do SUS, abatidos pela crença tétrica do bolsonarismo mortal, a devastação descarada do meio ambiente, o recrudescimento da violência urbana e rural e outros efeitos diretos do abandono do estatuto do desarmamento são flagrantes ocultos na propaganda de charlatães e homicidas militantes.

O Brasil, depois de submetido à dicotomia da corrupção partidária e ideológica e à demolição negocista miliciana, só sairá dessa profecia, que nem Cassandra ousaria apregoar, se aproveitar mais esta chance de evitar a marcha da desabalada correria de um rebanho tresmalhado de cordeiros rumo ao pélago final. Será um desperdício irreparável adiá-la por mais um quadriênio. Pode não ser o caso de gritar agora ou nunca, pois nações não se extinguem, mas os exemplos de Argentina, Venezuela e Haiti não devem ser desprezados. Quando a doença se manifesta, não é possível prevenir, há que remediar. E já.

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JORNALISTA, POETA E ESCRITOR

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