Bolsonaro e o manual do derrotado

Ele já admitiu não ter esperanças de obter o voto impresso, mas é a bandeira que lhe resta

Fernando Gabeira, O Estado de S.Paulo

06 de agosto de 2021 | 03h00

Uma das afirmações mais engraçadas de políticos no Brasil é a que prevê que o presidente Bolsonaro vai adotar moderação nos seus contatos com adversários e a sociedade. Nada mais claro que o projeto de confronto de Bolsonaro. Basta examinar o precedente de seu inspirador nos Estados Unidos, Donald Trump.

Com antecedência, Trump previu a própria derrota e iniciou um processo de questionamento do voto pelo correio e, finalmente, de todo o sistema eleitoral norte-americano. Derrotado, Trump inundou a Justiça com recursos contra a apuração. Perdeu todos, porque não se constataram casos de fraude.

Logo em seguida, a chamada Alt-Right (Direita Alternativa) fez aquela dramática tentativa de assalto ao Capitólio, um dos fatos mais graves da História moderna americana, que terminou com mortes e um grande desgaste internacional para uma democracia que parecia inabalável.

Derrotado em todos os passos acima mencionados, restou a Trump um importante consolo: cerca de 50% dos eleitores republicanos consideram que ele foi eleito e o processo eleitoral americano é desonesto. Esse é um roteiro que, na pior das hipóteses, garante ao derrotado continuar na imaginação dos seus eleitores, que o consideram, apesar de tudo, um vencedor.

Trump questionava o voto impresso, enviado pelo correio. Bolsonaro questiona o voto eletrônico, que, por sinal, é muito respeitado no Brasil não apenas por especialistas, mas pela quase totalidade dos políticos que se submeteram a ele.

O roteiro é o mesmo. Ambos são vítimas da própria ignorância ao negarem uma pandemia que se tornou um dos fatos mais importantes do século. Ambos contam com militância aguerrida para questionar violentamente a derrota. E, finalmente, ambos sonham em sobreviver como vencedores na fantasia de seus adeptos.

No caso de Bolsonaro, há fatos singulares. O primeiro deles é que questiona um sistema eleitoral internacionalmente elogiado. Em segundo lugar, seu movimento foi captado pelos juízes que conduzem o sistema e eles decidiram reagir aos ataques eivados de falsas informações.

Antecipadamente, Bolsonaro é investigado pelo TSE por desacreditar o processo eleitoral. É uma medida defensiva que desarma a engrenagem montada à semelhança da americana. Quando Bolsonaro questionar o TSE por sua derrota, ele já estará na condição de alguém investigado por inventar falsas teorias sobre o processo. Da mesma maneira, como existe um inquérito no STF sobre fake news, ele estará sendo investigado também em outro contexto, mas, no fundo, pelos mesmos motivos.

Outro diferencial no roteiro americano é que a tentativa de invasão do Capitólio, no momento pós-eleitoral, foi relativamente fácil de debelar, apesar de seu impacto político internacional. Bolsonaro tem trabalhado muito para aumentar o número de pessoas armadas, tem penetração em algumas Polícias Militares e as Forças Armadas brasileiras não parecem tão decididas como as norte-americanas a se afirmar como um instrumento de Estado.

Essa fase do roteiro, portanto, pode ser mais complicada no Brasil. Mas não há nada que demonstre que Bolsonaro possa ter a mesma resposta que Trump teve dos eleitores republicanos, embora um certo contingente de fiéis vá continuar acreditando que ele perdeu por causa das urnas eletrônicas, e não por causa de seu governo devastador.

Os primeiros dados do confronto estão lançados. Nem o TSE nem o próprio STF vão reagir apenas com notas de repúdio, apesar do trabalho diuturno do ministro Luís Roberto Barroso para demonstrar não só a eficácia, mas também a segurança e auditabilidade do sistema eleitoral. São movimentos complementares, muito mais eficazes do que simples protestos burocráticos.

Faltam dois atores nesse drama republicano. Um é o Congresso Nacional. Lira e Pacheco têm estado mudos. Mas a PEC do voto impresso será votada, com derrota provável na comissão especial ou derrota inevitável no plenário.

Outro ator silencioso é o procurador-geral da República, Augusto Aras. Ele quer ser ministro do Supremo Tribunal, mas se contentou até agora com a recondução ao cargo que ocupa. Apesar da pressão de seus colaboradores na própria Procuradoria, Aras não se deve manifestar.

Há a convergência da defesa do TSE e da votação no Congresso, mas seria uma ilusão supor que Bolsonaro vá abandonar essa bandeira. Na verdade, é tudo o que lhe resta para unir seu eleitorado fiel, disputar eleições e seguir com um discurso político, mesmo se for esmagado nas urnas.

Num dos raros momentos de sinceridade, Bolsonaro admitiu que não tem esperanças de conquistar o voto impresso. No entanto, tem de seguir em frente com seu discurso de derrota antecipada porque, paradoxalmente, admiti-la e se preparar para sobreviver a ela é o caminho que escolheu.

Nada mais claro neste momento do que os passos que Bolsonaro vai trilhar daqui para a frente. Apesar de ser um projeto tão disruptivo para a democracia brasileira, não se pode dizer que seja oculto, muito menos que não tenha havido tempo para se preparar, diante dele.


JORNALISTA

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