Bolsonaro na mesma encruzilhada de Dilma

Percepção econômica negativa do eleitor, diante da inflação, favorece a transição de poder, por via eleitoral ou impeachment.

Nathan Blanche, O Estado de S.Paulo

27 de março de 2022 | 03h00

A escalada da inflação, que tem derrubado o poder de compra das famílias, e o pequeno espaço para expansão fiscal, diante do elevado endividamento público, anunciam que o ano eleitoral do presidente Bolsonaro não será muito diferente das dificuldades enfrentadas por Dilma Rousseff na fase final de seu mandato.

Não apenas a inflação persistente na faixa de 10%, com pressões em itens sensíveis como alimentos e combustíveis, mas também o desemprego em níveis ainda elevados, a despeito do recuo recente, são fatores que historicamente minam a popularidade e a aprovação de presidentes. Entre 2015 e 2016, a percepção de descontrole econômico levou milhões de pessoas às ruas, movimento que culminou no posterior afastamento da ex-presidente do cargo.

Podemos utilizar o chamado “índice de miséria” para captar de forma indireta o sentimento da população em relação ao ambiente econômico. O indicador envolve a soma da inflação acumulada em 12 meses com a taxa de desemprego, de modo que, quanto mais alto o resultado, maior a percepção negativa da economia. Se entre 2012 e 2014 esse índice exibiu uma média de 13,1%, em janeiro de 2016 alcançou 21,3%, ilustrando o crescente descontentamento da população à época com a situação econômica. Não por acaso, o Brasil vivia o auge dos protestos pela saída da ex-presidente Dilma, afastada em maio daquele ano.

Após este indicador ceder e manter uma média de 15,6% entre os anos de 2017 e 2019, no segundo semestre de 2021 essa taxa alcançou o pico da série histórica, oscilando acima de 23% – e em janeiro de 2022 encontrava-se em 22,1%. Os cálculos utilizaram o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) acumulado em 12 meses e a taxa de desemprego divulgada pelo IBGE (Pnad Contínua), com ajuste sazonal feito pela Tendências.

Diante da proximidade das eleições e das dificuldades nas pesquisas, o governo tem procurado reagir. Além de uma crescente e indevida pressão sobre a Petrobras, os esforços anti-inflacionários já acumulam medidas como redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) e corte de tributos sobre os combustíveis. Porém as ações ainda se mostram insuficientes para reverter os choques elevados nos preços, renovados nas últimas semanas pelo conflito no Leste Europeu. Isso apesar de uma ajuda inesperada proveniente da recente apreciação cambial, de modo que a variável tem dado sua cota de colaboração para atenuar a forte alta dos preços das commodities, quando convertidos para a moeda nacional.

No entanto, mesmo a duração desta ajuda é incerta. Parte da valorização cambial decorre de uma melhora dos fluxos de capitais estrangeiros na direção do Brasil, mas a perspectiva de intensificação do aperto monetário em reação à inflação global – principalmente no caso do Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos – poderá esfriar o fôlego dos fluxos na direção de emergentes. E, no cenário doméstico, a aproximação das eleições, com uma disputada polarizada e que envolve promessas populistas de ambos os lados, não sugere um ambiente tranquilizador para os investidores.

Este ponto traz um dilema adicional do contexto atual. Ao que tudo indica, o provável ocaso do governo Bolsonaro não trará consigo um caminho alternativo alentador, capaz de reposicionar o Brasil na direção das importantes reformas e avanços na busca da produtividade perdida. Mas, sim, aponta para um velho caminho marcado por uma agenda estatizante, intervencionista e antiliberal, que já deixou como legado um rastro de ineficiência, corrupção, má alocação de recursos e crise fiscal e econômica. Ou seja, o cenário eleitoral segue marcado pelo domínio da polarização Lula-Bolsonaro, deixando, até o momento, pouco espaço para o surgimento de uma candidatura de terceira via. Por ora, os diversos pré-candidatos alternativos lutam para construir apoio dentro dos seus partidos e sofrem com a indefinição em meio a uma ampla oferta de nomes possíveis para ocupar tal posto.

Em suma, como normalmente ocorre, o desfecho desta corrida eleitoral não dependerá apenas do campo político, mas principalmente do econômico. Se o mercado adota uma postura de espera pelos sinais ainda pouco claros da agenda econômica por vir, o eleitor médio lida diariamente com um contexto de preços altos e poder de compra baixo. Principalmente no caso do cidadão economicamente mais fragilizado, seu limite está no esvaziamento dos pratos e dos carrinhos de compras, o que explica os índices ainda mais baixos de aprovação de governo em classes de renda mais baixas.

Assim, Bolsonaro revisita uma encruzilhada que Dilma conheceu muito bem: a percepção econômica negativa do eleitor médio, em meio a pressões inflacionárias elevadas e perda do poder de compra da renda, derruba a confiança no governo e favorece a transição de poder, seja por via eleitoral ou impeachment.

*

SÓCIO-FUNDADOR DA TENDÊNCIAS CONSULTORIA INTEGRADA

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.