Bolsonaro na Rússia – para além da carne

Além de ignorar os contornos da crise, ele tem um nível de imprevisibilidade muito perigoso nessas situações

Fernando Gabeira, O Estado de S.Paulo

04 de fevereiro de 2022 | 03h00

Bolsonaro ficou conhecido por criar crises. Na sua única viagem internacional de importância, ele escolheu a crise. Não foi criada por ele, possivelmente não se interessa por suas coordenadas, mas, ainda assim, viaja para Moscou para encontrar Putin. É uma viagem para discutir comércio. Eu vendo carne, você vende fertilizante, o que mais podemos fazer? 

O problema é que tropas russas estão estacionadas na fronteira com a Ucrânia. É um tema prioritário nos Estados Unidos e na Europa. Um clima de tensão: invadem ou não invadem?

Putin sabe o que quer e, sobretudo, sabe quando pressionar para manter a Ucrânia sob sua influência. A Europa depende do gás russo, e nada mais valioso do que um bom aquecimento no inverno.

Por sua vez, Biden enfrenta um segundo grande desafio. O da retirada das tropas do Afeganistão foi desgastante. Evitar uma invasão da Ucrânia não é fácil. Mesmo porque os mecanismos de sanções econômicas nem sempre são eficazes contra um país resiliente como a Rússia. 

Bolsonaro leva talvez um pouco mais do que a carne em sua agenda. Claro que ela é importante, porque trata do interesse de seu grupo de apoio no agronegócio. Mas os russos buscam gás na Amazônia e querem fabricar seus helicópteros militares em Belo Horizonte.

Desde 2002, quando se formou uma parceria estratégica entre Brasil e Rússia, ao menos sete áreas de cooperação tecnológica se abriram. Mas, ainda assim, como explicar uma viagem dessas agora? Por mais carnívora que seja a agenda, Bolsonaro é presidente de um país e será chamado a declarar algo sobre um tema que mobiliza o mundo.

Quando a Rússia anexou a península da Crimeia, o Brasil, na época sob o governo Dilma, expressou uma posição prudente, sem se comprometer muito com nenhum dos lados. Talvez seja esse o caminho de Bolsonaro. A diferença é que agora Bolsonaro estará no cenário da crise, sob os olhos do mundo. Uma saída realmente prudente seria adiar a viagem para tempos mais calmos. Naturalmente, estará cercado de experientes diplomatas que devem orientar seus passos. Mas, além de ignorar os contornos da crise, Bolsonaro tem um nível de imprevisibilidade muito perigoso nessas situações. É irônico que a política internacional do governo em fim de mandato obrigue Bolsonaro a pisar em ovos. Até aqui ele fez inúmeras bobagens. Rompeu a cooperação com a Alemanha e a Noruega na Amazônia, jogando dinheiro e reputação no lixo. Investiu contra Macron, fez piadas machistas sobre a primeira-dama francesa. Na América do Sul, fez comentários inadequados sobre a Argentina e viu aos poucos se formar um verdadeiro cinturão de esquerda em torno dele – Bolívia, Chile e Peru.

O único ponto do mundo pelo qual se interessava abertamente, os Estados Unidos, acabou precipitando seu isolamento. Apostou em Trump, perdeu. Como se não bastasse a imprudência, seguiu duvidando da legítima eleição de Biden.

Do ponto de vista internacional, Bolsonaro está isolado. E quem está só, abraçado a Putin, deve viver uma solidão bem mais gélida. Isso parece ter sido também uma herança de Trump no universo mental bolsonarista. Os setores tradicionais da extrema direita acham que na Rússia também existem fontes de tradição que contestam a modernidade.

Steve Bannon mantinha uma relação com um tradicionalista russo, Aleksandr Dugin. Este via como necessária a recuperação da importância da Rússia no mundo e achava os chamados isolacionistas nos Estados Unidos potenciais aliados. Na eleição de 2016, a proposta de Dugin era a de encorajar a Rússia a introduzir “a desordem geopolítica na atividade interna dos Estados Unidos”. A verdade é que a participação da Rússia na eleição de 2016 nos Estados Unidos foi um grande tema de investigação. As relações entre o tradicionalismo russo e a extrema direita levaram também a um longo debate entre Dogin e Olavo de Carvalho.

Não se pode precisar até que ponto a Rússia, como a Hungria, pode ser vista como uma aliada em bandeiras tradicionais pelo bolsonarismo. Certamente, alguns temas de direitos humanos podem unir Bolsonaro e Putin para além da carne e dos fertilizantes. O Brasil tem apoiado propostas russas contrárias à expansão dos direitos das mulheres.

Paradoxalmente, a agenda conservadora que Bolsonaro não conseguiu avançar no Congresso brasileiro pode se tornar um tema de conversa na Rússia. E isto 105 anos depois da revolução bolchevique. Não deixa de ser um reencontro. Em 1917, o Brasil rompeu relações com a Rússia precisamente por causa da revolução. Em 1947, rompeu de novo por causa da ascensão do Partido Comunista. São voltas que a história dá. 

A Rússia tornou-se atraente para a extrema direita, exatamente por alguns dos fatores que pareciam ser atropelados pelos revolucionários. E o Brasil se torna mais atraente para a Rússia, na medida em que se afasta, pelo menos teoricamente, da globalização que considera uma vitória do marxismo cultural.

O mais possível é que intensifiquem a troca de carne e fertilizantes. A de ideias não parece promissora. 

JORNALISTA

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