Bolsonaro, o publisher, e a imprensa

Ele e os filhos são partidários, vendem uma visão de mundo, sempre em campanha

Rodrigo Lara Mesquita*, O Estado de S.Paulo

16 de agosto de 2019 | 05h30

“Você quer o quê? Que eu seja vaselina, politicamente correto?” Com a elegância que lhe é peculiar, Bolsonaro respondia a um repórter se não considerava que a hipótese de seu discurso irônico (agressivo e belicoso, diria eu) não provocava mais tensão no clima de polarização do País. Depois de abusar dos termos escatológicos, que lhe são tão caros na sua forma única de expressar o seu civismo, nosso presidente o aconselhou a votar em outro em 2022, caso considerasse esse estilo incompatível com a Presidência.

O Globo, na sua edição da segunda-feira, 12 de agosto, sob o título Bolsonaro dirige a própria imagem para ser autêntico, abre uma reportagem afirmando que, “sete meses após chegar ao Palácio do Planalto, o presidente Jair Bolsonaro assumiu o controle total da comunicação do governo e tomou para si o papel de decidir os rumos da narrativa da sua gestão”.

É verdade, mas não explicou que o ambiente no qual Bolsonaro vai construir sua narrativa para dar rumo à sua gestão é a sua rede social, uma estrutura de comunicação distribuída, ampla e bem construída na arquitetura da internet. Ninguém controla uma arquitetura de comunicação em rede na internet, mas ele e seus filhos têm o domínio: norteiam a pauta e as edições contínuas (e, de labuja, trazem para o jogo as estruturas sociais dos jornais).

Semana passada, o Valor deu uma boa matéria com o Carlos Bolsonaro despachando no gabinete do pai. Na verdade, alinhando-se com os ministros em relação à rede social da família, comandada pelo pai e com forte coordenação dele, o 02. A família também se realinhou, com cada um voltando a atuar diariamente no conjunto de plataformas (Twitter, FB, Instagram e YouTube principalmente, entre as abertas), que são por sua vez agregadas a dezenas, centenas de estruturas com função de hub na rede.

No começo do século 20, o jornal O Estado de S. Paulo, em função do advento da rede telegráfica, inovava seus processos de criação de redes sociais de interesse específico criando murais de notícias com telegramas, que atraíam milhares de pessoas, na praça em frente à sua sede em momentos de tensão da sociedade em relação a um determinado problema. Além do ambiente jornal de papel, objeto de conhecimento do mundo analógico, o Estado perseguia a inovação para suprir a necessidade de articulação da sociedade em torno dos fatos que lhe concernem.

De lá para cá, algo afastou a imprensa tradicional do público. Confundir a atividade jornalística com a policialesca, considerar-se autoridade, ao invés de intermediário da opinião pública, distanciar-se naturalmente da população em função do crescimento e fragmentação desmesurados das cidades e, mais do que tudo, desconsiderar que hoje a opinião pública discute seus problemas diariamente nos fluxos de informação das redes sociais. Como é nelas que estão as pautas, que sempre foram do público, a imprensa ignorou também que essas redes podem e devem ser cobertas jornalisticamente com os mesmos recursos com que os gigantes da tecnologia cobrem as necessidades de venda e compra do público.

A computação e o algoritmo, simplificando, são a base desses recursos. O jornalista entra como facilitador, analista, debatedor conforme se mostra necessário. Bolsonaro e os filhos fazem isso, com tom messiânico, de forma grosseira e sem os compromissos, predicados e ética do jornalismo profissional. São partidários, vendem uma visão de mundo e estão em campanha permanente. Mas monitoram, fazem curadoria, pautam e editam sua rede social, cuja ação se amplifica por meio dos hubs agregados. O ambiente de relacionamento é a internet, com seus inúmeros objetos de conhecimento, e “milhares de armadilhas” para o processo de comunicação.

Em setembro de 2017, o Conselho da Europa publicou o documento Information Disorder: toward an interdisciplinar framework for research and policy making, que é a referência para o início da regulamentação da internet na Europa. Poucos meses depois, o Tow Center For Digital Journalism, da Universidade Columbia, publicou uma extensa, profunda e bem fundamentada reportagem, sob título Guide to advertising tecnologies. Os dois documentos mostram como a boa informação, a informação com fontes fidedignas, pode contribuir para o processo contínuo de mis-information, dis-information, mal-information, o quadro de Information Disorder com qual convivemos e que é uma das principais características da crise global que atravessamos em função da revolução tecnológica.

Os “milhares de armadilhas” do novo ambiente de comunicação são de responsabilidade dos novos impérios tecnológicos. As duas instituições apontam isso e mostram como o conjunto interligado das suas tecnologias publicitárias gerou uma imensa infraestrutura técnica, fazendo com que as motivações da publicidade se transformassem na base da economia da internet. Mudou a tecnologia e mudou o ambiente, muda a forma da narrativa e muda o arcabouço ético. Hoje somos vítimas desse processo, que ameaça também a democracia como a conhecemos.

Bolsonaro e os filhos, ao optarem por ser os publishers da rede social deles, correm o risco de se tornar vítimas desse processo de uma Era da Informação, na qual como apontou Marshall McLuhan, “a explosão da cultura através da explosão da informação torna-se cultura por si mesma, derrubando todas as paredes entre cultura e negócios” (isso é cultura?), transformando profundamente a realidade cognitiva da sociedade e gerando mais incerteza e insegurança num mundo em crise.

Para a imprensa tradicional, continuar atuando de forma broadcast, como se fosse a dona da pauta e como se a notícia no tempo das redes fosse mais importante do que o fluxo, é um grande risco. Não vai fazer jornalismo na rede, não voltará a prestar serviços à sociedade, não chegará a um modelo de negócio para os novos tempos e não recuperará relevância no processo de formação da opinião pública.

*JORNALISTA TWITTER: @RMESQUITA

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