Bolsonaro, Orbán e Putin

Admirador de chefões autoritários, o presidente prefere passear de moto a falar sobre um ato de banditismo internacional

Rolf Kuntz, O Estado de S.Paulo

27 de fevereiro de 2022 | 03h00

Dois chefões autoritários, um de direita, outro com carteirinha de comunista, foram visitados e afagados pelo presidente Jair Bolsonaro em sua última excursão fora do Brasil. O de direita, Viktor Orbán, primeiro-ministro da Hungria, foi saudado num discurso de inspiração fascista, com referência a valores comuns: Deus, pátria, família e liberdade. Ao outro, Vladimir Putin, presidente da Rússia, Bolsonaro se declarou solidário, apesar da conhecida ameaça de ataque à Ucrânia. A invasão, com forças de terra, mar e ar, ocorreu na semana seguinte.

Atacada a Ucrânia, Bolsonaro evitou comentar o assunto, enquanto o Itamaraty publicava uma nota vergonhosa, conclamando as partes a “negociações conducentes a uma solução diplomática da questão”. O agredido tem de negociar com o agressor? Os dois são culpados pela violência? Não houve espaço ou tinta para uma palavrinha de censura a um ato de banditismo? O vice-presidente Hamilton Mourão fez uma declaração séria, comparando o ataque russo ao expansionismo nazista, mas foi desautorizado. “Quem fala sobre o assunto é o presidente da República”, disse Bolsonaro, mas quem esperou sua fala perdeu tempo.

Enquanto as tropas de Putin bombardeavam, aterrorizavam e ocupavam a Ucrânia, na quinta-feira, Bolsonaro liderava um desfile de motocicletas, a tal “motociata”, em São José do Rio Preto, no interior de São Paulo. Tendo ido até lá para inaugurar um trecho de rodovia, aproveitou para fazer campanha eleitoral e para exibir uma de suas especialidades, o passeio de moto. Com ele estava o ministro da Infraestrutura, Tarcísio de Freitas, conhecido usuário da garupa presidencial.

Será errado, no entanto, acusar Bolsonaro de se dedicar principalmente a exibir o talento de motoqueiro. Também errará quem o imagina empenhado em atividades típicas de um presidente, como administrar o País, planejar, negociar e executar políticas de modernização, de crescimento econômico e de inclusão social. Outras prioridades são muito mais visíveis em sua pauta. Sobra pouco tempo para atividades mais corriqueiras, como governar, quando é preciso cuidar da reeleição, evitar investigações inconvenientes para a família, fugir de conversas sobre rachadinhas e, é claro, satisfazer com dinheiro público o apetite do Centrão.

Quem se ocupa de assuntos tão importantes deve ter pouco tempo para questões como a invasão da Ucrânia. Ataques armados e violações territoriais podem ter relevância para a ordem global e para dezenas de economias, incluída a brasileira, mas nenhum presidente pode cuidar de tudo. Guerra, no entanto, é assunto importante na agenda presidencial brasileira. Não a da Rússia contra um país vizinho, ex-integrante da União Soviética, mas a guerra pessoal de Bolsonaro contra um conjunto de adversários – o governador de São Paulo, os defensores da vacinação obrigatória, os outros candidatos à Presidência, o Supremo Tribunal Federal, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e, de modo mais amplo, as instituições democráticas e republicanas.

“Não vamos perder essa guerra”, disse o presidente, há poucos dias, em mais uma crítica estapafúrdia à urna eletrônica e, por tabela, ao TSE. Naquele momento, o amigo Putin, apoiado também por Donald Trump, ainda se preparava para ordenar a invasão.

A referência à guerra com o TSE foi parte de um discurso a empresários e investidores financeiros, em São Paulo. Bolsonaro afirmou, quase aos berros, a disposição de brigar para se manter na Presidência. Só Deus, disse ele, conseguirá tirá-lo do Palácio do Planalto. Não contou detalhes dos planos divinos, mas fez uma insinuação ameaçadora ao falar de uma possível vitória petista. Vencedor, disse o presidente, Lula revogará o teto de gastos e a reforma trabalhista. “É isso que nós queremos para o Brasil? Dá para deixar tudo rolar numa boa, quem chegar chegou?”

Bolsonaro pode estranhar, mas isso é o normal numa democracia. Nesse regime, quem chegar chegou. Contados os votos, o vitorioso toma posse. O vencido aceita o resultado e, se achar conveniente, vai para a oposição. Essa é a rotina, principalmente quando o processo eleitoral é moderno e comprovadamente seguro, como no Brasil. Mas ele perguntou se “dá para deixar tudo rolar numa boa”.

Essa pergunta deveria inquietar qualquer democrata, como devem ser, espera-se, os participantes do encontro em São Paulo. Alguém, dentre eles, terá achado inconveniente “deixar tudo rolar”, se o mais votado for um candidato fora de suas preferências?

Enquanto Bolsonaro trata de interesses pessoais e familiares e rosna para as instituições, os brasileiros enfrentam desemprego elevado, inflação acelerada e economia emperrada. Os desempregados eram 11,1% da força de trabalho no trimestre final de 2021. A inflação chegou a 10,38% nos 12 meses até janeiro. As projeções de crescimento econômico para este ano raramente superam 0,5%. Não basta, enfim, ser admirador e imitador, tanto quanto possível, de Trump, Orbán e Putin. Uma boa dose de incompetência pode completar um conjunto harmonioso.

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