Bolsonaro, Trump, a CPI e os generais americanos

Em vez de atacar Aziz, comandantes deveriam rejeitar a militarização do governo federal

Rolf Kuntz, O Estado de S.Paulo

11 de julho de 2021 | 03h00

O Brasil destacou-se em Cannes, mais uma vez, com o diretor Spike Lee, presidente do júri do festival de cinema, igualando o presidente Jair Bolsonaro a Donald Trump e a Vladimir Putin. Trump, ídolo do presidente brasileiro, foi derrotado ao tentar a reeleição, mas, antes de partir, estimulou uma invasão do Congresso. Seu discípulo anotou a lição e já anunciou algo parecido no Brasil. Em 7 de janeiro, um dia depois do ataque ao Capitólio, Jair Bolsonaro ameaçou: “Se nós não tivermos o voto impresso em 22, uma maneira de auditar o voto, nós vamos ter problema pior que o dos Estados Unidos”. Na ocasião, ele voltou a falar de fraude na eleição de 2018 – sem prova, como sempre, e pondo em dúvida, como de costume, a seriedade da Justiça Eleitoral.

Como Trump, Bolsonaro fracassará na tentativa de reeleição, se o resultado no próximo ano refletir as atuais pesquisas de intenção de voto. Além disso, a derrota será por diferença bem maior que a verificada nos Estados Unidos. Lula, segundo as sondagens, será o mais votado, com folga, no primeiro turno. No segundo, o atual presidente será batido por qualquer dos principais concorrentes.

As chamadas forças de centro ainda poderão juntar-se para apoiar um nome promissor. De fato, talvez nem haja candidatura Bolsonaro, em 2022, se o presidente da Câmara desengavetar os pedidos de impeachment. Em dois anos e meio de atos e palavras irresponsáveis, de mistura de assuntos familiares com assuntos públicos, de mentiras e desgoverno, acumularam-se razões mais que suficientes para a extinção de um mandato desastroso. Mas em relação a seu guru americano o presidente Bolsonaro tem alguma vantagem – vantagem para ele e para sua família, sem dúvida, e imensa desvantagem para os cidadãos empenhados em ganhar a vida seriamente.

Parte dessa vantagem é a relação entre governo e Forças Armadas, um vínculo muito diferente, na gestão Bolsonaro, do previsto na Constituição brasileira e do observado nos Estados Unidos. Exemplo: em junho do ano passado, o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas americanas, general Mark Milley, pediu desculpas por haver acompanhado o presidente Trump numa caminhada até uma igreja próxima da Casa Branca. Diante da igreja, o presidente posou empunhando uma Bíblia. A polícia abriu caminho para o presidente dispersando com violência um protesto contra o racismo.

“Eu não deveria estar lá”, disse o general. “Minha presença causou a impressão de que os militares estão envolvidos em política interna. Precisamos”, acrescentou, “honrar um princípio essencial da República: o de que as Forças Armadas não são políticas.” As tentativas de Trump de envolver militares na repressão a manifestações de rua foram criticadas por seu secretário da Defesa, por ex-secretários e por mais de 80 altos oficiais. As Forças Armadas dos Estados Unidos mostram seu poderio, todos os dias, em boa parte do mundo, mas são discretas em casa e respeitam a democracia.

No Brasil de Bolsonaro, um general da ativa foi nomeado ministro da Saúde, encheu sua pasta de militares, todos ou quase todos sem competência para as novas funções, e resumiu numa frase escandalosa sua fidelidade ao chefe: um manda, outro obedece. Outros ministérios e secretarias já haviam sido entregues a pessoas de origem militar.

Confiado ao general Pazuello, ao coronel Elcio Franco (secretário executivo) e a figuras como a Capitã Cloroquina, o Ministério da Saúde atuou de forma desastrosa durante a pandemia. O envio do “kit covid” a Manaus talvez tenha sido a obra-prima da gestão Pazuello. O kit famigerado continha maravilhas como hidroxicloroquina e ivermectina, comprovadamente ineficazes contra a covid-19, mas as pessoas hospitalizadas precisavam de oxigênio para respirar. O conjunto da obra, no entanto, é muito mais impressionante que qualquer obra-prima, desde a militarização do setor de saúde.

Nomes de funcionários conhecidos pela patente militar, com destaque para o coronel Elcio Franco, foram citados por depoentes, nas sessões da CPI da Covid. As citações tornaram-se mais chocantes quando surgiram acusações de corrupção na negociação de vacinas – malandros tentando lucrar enquanto faltavam imunizantes e as mortes pela covid se multiplicavam. Numa das sessões, o presidente da CPI, senador Omar Aziz, falou sobre como “os bons das Forças Armadas” deveriam estar envergonhados com algumas pessoas envolvidas em falcatruas. Essas pessoas foram descritas como o “lado podre das Forças Armadas”.

Os comandantes militares, liderados pelo ministro da Defesa, repudiaram a fala de Aziz como “grave, infundada e irresponsável”. Nem infundada, nem irresponsável, de fato. O ministro e os comandantes voltaram-se contra o alvo errado, em vez de condenar o envolvimento de militares em escândalos e a desastrada militarização do governo pelo presidente Bolsonaro. Fariam muito melhor se aprendessem com a lamentável experiência recente, meditassem sobre o exemplo do general Mark Milley e se indignassem quando Bolsonaro usa a expressão “meu Exército”.


JORNALISTA

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