Bolsonaro vê Doria na disputa

Vulnerabilidade põe o presidente em situação difícil, que poderá ser explorada em 2022

Aloísio de Toledo César, O Estado de S.Paulo

18 de novembro de 2020 | 03h00

Os entendidos em política costumam dizer que não se deve ficar repetindo o nome do adversário ou atribuir-lhe forças capazes de influir na disputa eleitoral. Quanto mais se repete o nome ou se admite sua influência no desenvolvimento da competição, mais cresce o adversário.

Isso vem acontecendo com extraordinária frequência no Brasil, onde temos um presidente da República que parece não se preocupar com outra coisa a não ser a sua reeleição. Nessa caminhada, carregada de egoísmo, ele demonstra temer o governador paulista, João Doria, e quanto mais o chicoteia mais o promove aos olhos de toda a Nação. Ele chegou ao extremo de negar a imunização dos brasileiros com a vacina Coronavac, produzida em parceria do Instituto Butantan com a empresa chinesa Sinovac, por entender que, se isso for feito, ou seja, se o governador paulista sair na frente, ele – e não os brasileiros – será prejudicado politicamente.

Dele já se ouviu: “Ganhei do Doria mais uma vez”. Com essa frase juvenil expôs a própria fragilidade e pode ter fortalecido aquele que considera seu principal adversário, o qual tem tido o cuidado de não baixar o nível, nem mesmo após ter ouvido, quase impassível, a expressão grosseira, típica de quem vive entre milicianos: “Aquele b... do governador João Doria”.

O que o governador paulista fez para contrariá-lo tanto? Ao contrário de Jair Bolsonaro, que a exemplo de Donald Trump se negou a liderar a luta contra a covid-19, João Doria atirou-se claramente, com sua equipe, a promover o distanciamento social e a induzir a população a usar máscara. Ele próprio só aparece em público usando máscara – e até mesmo com esse comportamento faz o contrário de Bolsonaro.

Neste momento de extrema gravidade vivido pelo País, os dois expõem a todo momento condutas contrárias. Com isso vão dividindo as opiniões e desde já formando contingentes eleitorais que poderão enfrentar-se no pleito de 2022.

Ao contrário de Jair Bolsonaro, que a toda hora anuncia a intenção de ser reeleito, o governador João Doria procura mostrar que a sua principal atenção é governar o Estado de São Paulo, ou seja, que não está com os olhos voltados para o Palácio do Planalto. Claro que isso pode ser uma tática consciente.

Mas até mesmo pelo fato de o presidente a todo momento apontá-lo como seu principal contendor, torna-se previsível que na hora adequada Doria anuncie que pretende mesmo concorrer à Presidência da República. Percebe-se na cúpula do governo paulista o fortalecimento do vice-governador Rodrigo Garcia, que parece ter ficado com a incumbência de “tocar o governo” enquanto João Doria cede às exigências prioritárias de enfrentar a epidemia e com isso impedir que aumente o número mortos.

Vários entre os demais governadores sempre deixam vazar a impressão de que não estão nada felizes com a conduta do atual presidente, por motivos diversos, como, por exemplo, colocar militares em postos de importância para os quais não têm a menor experiência. A restrição que se faz não é exatamente por eles serem militares, mas por não terem a necessária experiência.

Em verdade, o Congresso Nacional tem o dever de legislar estabelecendo que somente pessoas claramente preparadas possam ter acesso a cargos de importância. Nos Ministérios da Saúde e do Meio Ambiente, principalmente, assumiram pessoas sem o necessário preparo e isso influi na vida de cada um de nós e também na do próprio País, que se encontra internacionalmente isolado e sem a menor liderança.

Nas próprias Forças Armadas o comportamento muitas vezes irresponsável de Bolsonaro causa reações de reprovação, como a “ameaça” que fez aos Estados Unidos de usar “pólvora”, em vez de “saliva”, nas negociações de Estado. Muitos militares declararam que se sentiram humilhados com mais essa bravata de adolescente.

Estar no poder deve ser muito gostoso, porque o presidente e seus filhos parecem mesmo não querer sair. Sempre se diz que o poder é como mulher bonita, ninguém quer deixar para o próximo. Desde que chegou ao Palácio do Planalto, Bolsonaro nunca mais teve de abrir uma porta, há sempre pessoas para dizerem que ele é inteligente e está com a razão quando critica alguém ou é criticado.

Por ter adotado o “toma lá dá cá”, ao contrário do que dizia antes de se eleger, acabou prisioneiro do Centrão, grupo de parlamentares que foram anestesiados com vantagens e cargos públicos. Só consegue legislar se esses vendidos autorizam e nada consegue aprovar sem o apoio deles.

Esse quadro de vulnerabilidade o coloca numa situação difícil, que poderá ser explorada durante a disputa eleitoral de 2022, quem sabe pelo próprio adversário que ele elegeu – o governador João Doria. Nas últimas semanas aumentou a insatisfação dos brasileiros com a conduta de Bolsonaro e por isso é provável que o seu período final de governo enfrente maior oposição dos adversários.


DESEMBARGADOR APOSENTADO DO TJSP, FOI SECRETÁRIO DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO. E-MAIL: ALOISIO.PARANA@GMAIL.COM.

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