Bom dia, escravo

Perto do novo formato de exploração, dar espelhinho a índio é um gesto solidário

Eugênio Bucci, O Estado de S.Paulo

21 de novembro de 2019 | 03h00

Nos EUA, a senadora democrata Elizabeth Warren abriu uma cruzada contra o Facebook e outros titãs da tecnologia digital (tech industry), como Amazon e Google. Possível candidata à sucessão de Donald Trump, ela pretende quebrar os monopólios exercidos por essas empresas.

Do outro lado do Atlântico, a União Europeia (UE) procura fazer a sua parte. Tentou proibir os gigantes Facebook e WhatsApp (ambos controlados pelo cyberimperador Mark Zuckerberg) de compartilhar dados sobre seus usuários, uma prática que, segundo o Parlamento Europeu, violaria as políticas de proteção de dados do continente e favoreceria ainda mais o mercado monopolista. A UE também vem exigindo que os conglomerados digitais adotem medidas mais efetivas contra as fake news, mas não impôs recuos significativos aos tais titãs.

No Velho Mundo, como no Novo, as democracias ainda estão longe de enquadrar os conglomerados. Ao contrário, eles é que ameaçam engolir a democracia de uma vez.

Não é difícil de entender por quê. Se uma sociedade que se pretende livre deixa os eleitores se afogarem na desinformação, as decisões aprovadas por esses mesmos eleitores tendem a perder racionalidade, legitimidade e sustentabilidade. Quando a desinformação é crônica, aflora o risco real de que o processo decisório da democracia deságue na negação da democracia. O risco, aliás, já está posto. Em diversos países, líderes nacionais, depois de ganharem eleições livres, passam a combater a ordem democrática: em várias partes do mundo a democracia vem gestando seu oposto.

Por certo, são muitos os fatores que concorrem para esse quadro alarmante, mas, qualquer que seja o prisma analítico, as corporações que monopolizam as tecnologias digitais e as mídias sociais têm tudo que ver com isso. Na essência de seu negócio, elas não têm compromisso com a qualidade dos processos democráticos e com a verdade dos fatos. Isso porque a essência do seu negócio não é informar. Nunca foi. O negócio delas é capturar o olhar mediante todo tipo de apelação e, por meio do olhar capturado, extrair os dados pessoais de cada um de nós – dados que depois serão comercializados, sem que a gente ganhe um centavo em troca.

Nesse jogo extrativista que fez degringolar o padrão do debate público o centro do capitalismo se deslocou. Em 1998 as cinco empresas mais valiosas do mundo eram a GE, a Microsoft, a Shell, a Glaxo e a Coca-Cola. Na lista, apenas a Microsoft, vendendo softwares, já estava no negócio de extração de dados pessoais (as outras quatro fabricavam mercadorias palpáveis, coisas corpóreas e outras antiguidades). Em 2018, passados apenas 20 anos, as cinco empresas mais valiosas do mundo eram Apple, Amazon (as duas já triscavam, no ano passado, o valor de US$ 1 trilhão), Alphabet (Google), Microsoft e Facebook. Todas eram (e são) atratoras de olhar e extratoras de dados pessoais.

A revista The Economist percebeu a mutação do capitalismo quando estampou na capa, em 6/5/2017, que os dados pessoais eram o novo petróleo. A Economist também lançava um alerta: a nova economia dos dados pedia uma nova atitude das regulações antitruste. Quem se habilitou a tomar providências? Elizabeth Warren? A União Europeia? Até agora, estamos no plano das boas intenções.

Soltos no vazio legal, os monopolistas do olhar, atuando acima do alcance das legislações nacionais, desenvolveram escalas de exploração inimagináveis. Não precisaram contratar assaltantes armados para invadir os lares e torturar os moradores até arrancar deles os seus segredos mais íntimos, como seus resultados de exames clínicos, sua fé religiosa, seus amores secretos, seus perfis de gastos no cartão de crédito, seus itinerários pela cidade e seus temores inconfessáveis. Em vez de recrutar assaltantes a domicílio, criaram estratégias sedutoras para que as multidões entregassem tudo isso e mais um pouco de mão beijada – de livre, espontânea e deslumbrada vontade.

Num Facebook da vida, o usuário sente-se um rei, como se recebesse de presente ferramentas maravilhosas para encontrar os amigos de infância e falar mal dos inimigos de morte. O pobre rei, contudo, não passa de mão de obra escrava e matéria-prima gratuita. De uma vez só. Enquanto imagina se divertir, embevecido de si mesmo, trabalha mais do que um remador das galés romanas. O Facebook não precisa empregar digitadores ou fotógrafos, pois o usuário faz isso de graça. O Facebook não precisa comprar os dados pessoais dos seus escravos, a matéria-prima vem sem custo algum, seja nas fotos de prato de comida, seja nos movimentos dos olhos diante da tela. Depois os dados viram dinheiro, na casa dos trilhões de dólares, e o usuário lá, rei imaginário, não recebe nem esmola.

Perto desse novo formato de exploração, o truque infame de dar espelhinho para índio é um gesto solidário. As crianças que trabalhavam 16 horas por dia nas fábricas infectas do século 19 não eram tão aviltadas em sua dignidade.

Estamos submetidos a uma ordem totalitária, na qual a vida privada dos reles mortais é devassada pelo poder dos conglomerados, enquanto o que se passa no núcleo do poder dos conglomerados é perfeitamente invisível para os reles mortais. As empresas mais valiosas do nosso tempo sabem tudo de nós e nós não sabemos nada sobre elas. Mais ainda, o centro dos conglomerados é opaco para o Estado democrático de direito. O poder legítimo do Estado não sabe o que se passa dentro deles. Google e Facebook escondem até quanto faturam em publicidade em países como o Brasil. Não prestam contas às sociedades que exploram. 

E tudo isso para quê? Para espalhar fake news, para deteriorar a razão dos argumentos na esfera pública, para consagrar líderes que vencem eleições livres e depois bombardeiam a liberdade. Elizabeth Warren tem razão. Ou as democracias impõem limites a essas empresas, ou elas vão fazer sangrar até a morte aquela que, precariamente, teríamos chamado de civilização.

JORNALISTA, É PROFESSOR DA ECA-USP

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