Brasil-China, grandes negócios

Relação com o país asiático pode ser aliada na retomada do nosso crescimento

Tulio Cariello, O Estado de S.Paulo

22 de dezembro de 2018 | 03h00

A partir de 2019, o novo governo terá muito a ganhar com o estabelecimento de uma visão madura e pragmática em suas relações com a China, condizente com a relevância do país asiático no Brasil e no mundo.

Antes mesmo de anunciar sua candidatura à Presidência da República, o então deputado federal Jair Bolsonaro demonstrou preocupação com a presença da China no Brasil. Segundo anunciado pelo militar reformado em diversas ocasiões, os chineses estariam “comprando o Brasil, e não do Brasil”, percepção que reforça a ideia de que haveria algum impulso predatório da parte de Pequim.

Uma análise abrangente das relações bilaterais nas áreas de comércio e investimento, no entanto, indica que o Brasil pode colher bons frutos com a manutenção e o aprimoramento de uma aproximação estratégica com a China.

Entre 2007 e 2017, de acordo com o Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC), empresas chinesas investiram US$ 55 bilhões no Brasil. Somente em 2017 foram investidos US$ 8,8 bilhões, por meio de 27 projetos confirmados que englobaram diversos setores, como óleo e gás, energia, logística, pesquisa e desenvolvimento, agronegócio e outras atividades industriais e de serviços. Além disso, quase metade dos empreendimentos se deu via projetos greenfield, que envolvem a construção de novos negócios, gerando empregos e aquecendo a economia local. Em alguns pontos, por sinal, a esperada agenda privatizante e liberal do futuro ministro da Economia, Paulo Guedes, está em consonância com o que já tem sido visto na presença chinesa no Brasil, que também tem feito aquisições importantes, sobretudo no setor energético.

Entretanto, o ano de 2018 parece ter experimentado menor efetivação de novos investimentos chineses, ainda que isso seja reflexo temporário das incertezas provocadas pelo final de um governo transitório e um ano eleitoral particularmente conturbado. O interesse da China em investir, no entanto, segue firme: até o momento, dados preliminares do CEBC indicam a existência de 31 projetos anunciados, o segundo melhor ano na série histórica, atrás apenas de 2017. No momento, a percepção da maioria dos analistas sugere que os investidores chineses estariam cautelosos, aguardando um novo marco regulatório do governo em formação.

Além da relevância em termos financeiros, os investimentos chineses no Brasil têm muito a oferecer a qualquer projeto de desenvolvimento nacional. A China dispõe de grande expertise tecnológica em projetos de infraestrutura, fruto de décadas de gigantescos investimentos domésticos no setor, que por muito tempo foi um dos principais motores da economia chinesa. Empresas como China Three Gorges e State Grid, com presença consolidada no Brasil, têm trabalhado em grandes concessões públicas, como na modernização das usinas hidrelétricas adquiridas em leilões realizados pelos últimos governos. Nesse contexto, os chineses operam de acordo com a legislação brasileira e as regras de mercado, de forma semelhante a qualquer outro investidor estrangeiro. Além disso, sua atuação é determinada por um impulso mercadológico: compram empresas a preços competitivos no Brasil e buscam a renovação de parte da infraestrutura nacional, elemento imprescindível para o escoamento dos milhões de toneladas de soja e minério de ferro que vendemos à China todos os anos – negócio altamente rentável, que rendeu US$ 35,7 bilhões para o Brasil entre janeiro e novembro de 2018.

Em termos comerciais, o cenário é ainda mais impressionante. De acordo com dados do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços, a China é o nosso principal parceiro comercial há quase dez anos e desde 2009 temos mantido seguidos superávits com esse país – chegando ao recorde de US$ 20 bilhões favoráveis ao Brasil em 2017 –, o que em grande medida tem compensado nossas eventuais relações deficitárias ou menos proveitosas com outros parceiros relevantes, como os Estados Unidos e a União Europeia. Antes mesmo do fim de 2018, o Brasil bateu um recorde histórico de exportações: vendeu US$ 59 bilhões em produtos destinados ao país asiático, acontecimento que indica que os chineses estão, na verdade, “comprando do Brasil” como nunca.

O agronegócio, setor largamente alinhado com o novo presidente da República e, segundo a Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” (Esalq-USP), responsável por manter quase 19 milhões de empregos no Brasil, é um dos maiores beneficiários de uma relação proveitosa com a China. De acordo com o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, até novembro de 2018, dos US$ 93 bilhões exportados pelo setor, 35% foram destinados à China; e 56% de todas as vendas brasileiras destinadas ao país asiático tiveram origem no setor agropecuário, somando exportações que chegaram a US$ 33 bilhões.

É notável que as relações bilaterais tenham evoluído nos últimos anos e, apesar de todos os avanços, ainda haja um espaço praticamente inexplorado pelo lado brasileiro. A economia doméstica chinesa de hoje tem como elemento-chave o consumo, fruto de uma nova classe média com demandas cada vez mais sofisticadas e, consequentemente, disposta a gastar mais. Essa “revolução do consumo” abre uma série de oportunidades para o empresariado brasileiro, que pode explorar novos mercados na China por meio de investimentos e exportações com maior valor agregado, sobretudo em áreas nas quais já somos competitivos, como o próprio agronegócio.

Essas perspectivas indicam que uma agenda bem construída com a China tem grande potencial para contribuir de forma decisiva na retomada do crescimento da economia brasileira, algo que certamente não deverá ser ignorado pelo novo governo. 

*COORDENADOR DE ANÁLISE E PESQUISA DO CONSELHO EMPRESARIAL BRASIL-CHINA 

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