Brasil: esperança e apreensão

Aonde nos levará o clima de tensão e polarização ideológica que constatamos há algum tempo entre nós?

Dom Odilo Pedro Scherer, O Estado de S.Paulo

14 de maio de 2022 | 03h00

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que congrega mais de 300 bispos católicos do País, esteve reunida em sua assembleia geral anual na última semana de abril. Questões de liturgia, formação dos seminaristas e dos sacerdotes e sua saúde, ações solidárias entre as mais de 270 dioceses do Brasil e o próximo Congresso Eucarístico Nacional, a ser realizado no Recife em meados de novembro deste ano, foram alguns dos temas abordados. Boa parte desses encontros também é dedicada à oração, partilha fraterna e comunicação entre os bispos.

Como é de praxe nessas ocasiões, os bispos refletiram sobre a situação religiosa, social, política e econômica do Brasil e as implicações para a sua missão. No final da assembleia, de cinco dias, foi emitida uma mensagem com palavras de discernimento e esperança ao povo brasileiro. A primeira palavra foi dirigida aos numerosos atingidos pela pandemia de covid-19, que levou imenso sofrimento a pessoas e famílias, com um número elevado de vidas perdidas. Mereceu especial apreço a onda de solidariedade concreta, em todos os níveis, vivida pelo povo brasileiro durante a pandemia. Expressões de aplauso mereceram os profissionais da saúde, voluntários e cientistas, que contribuíram de maneira impagável para que o sofrimento não fosse maior ainda.

A mensagem também expressa a preocupação do episcopado diante do quadro grave enfrentado pelo Brasil, atualmente, com o crescimento da desigualdade social, da miséria e até da fome, num país que é o segundo maior exportador de alimentos do mundo. Suscitam preocupação as constantes agressões à natureza, nossa “casa comum”, a violência persistente, e até em aumento, atingindo os setores mais vulneráveis do povo brasileiro, como os indígenas, quilombolas e as populações das periferias das cidades.

Aonde nos levará o clima de tensão e polarização ideológica que constatamos há algum tempo entre nós? A mensagem dos bispos alerta que a lógica do confronto representa uma ameaça ao Estado Democrático de Direito e suas instituições, leva a desmontar conquistas e direitos consolidados, predispõe à intolerância e à violência, transforma adversários em inimigos, fomenta o ódio nas redes sociais, deteriora o tecido social e desvia o foco das questões fundamentais a serem enfrentadas. Tudo isso deixa no ar certa sensação de desalento e incerteza em relação aos rumos do nosso país.

O mesmo clima de perplexidade observa-se em relação ao quadro político. Neste ano eleitoral, as atenções estão voltadas quase inteiramente para a eleição presidencial, sem a devida consideração com a importância da eleição dos governadores e parlamentares. O Brasil, afinal, não é uma “monarquia presidencial absolutista”, de um único governante. O devido peso dado a cada instância e instituição dos Poderes da República é fator de segurança e vitalidade para a vida democrática. A escolha de parlamentares idôneos é fundamental para o bom funcionamento do sistema político. Os bispos incentivam eleitores e candidatos a exercerem a boa política, sem a qual o País não sairá do atual atoleiro do confronto ideológico. A vitória principal, que está em jogo nas eleições, não é a de um partido ou candidato, mas do Brasil e dos brasileiros, que devem sair mais confiantes e esperançosos destas eleições.

Duas ameaças perigosas merecem atenção. A primeira é a manipulação política da religião, que não leva na devida conta a desejável separação entre poder político e poder religioso. As duas instâncias não precisam, necessariamente, estar em oposição e viver no confronto, mas numa saudável condição de autonomia e independência. O uso político da religião para alcançar o poder político, geralmente, deixa consequências desastrosas, e a História ensina que a laicidade do Estado, bem compreendida, é um bem para todos os cidadãos.

Outra ameaça é a manipulação da verdade, mediante a difusão deliberada de inverdades, para prejudicar alguém. A mentira não pode ser aceita como forma legítima de se posicionar diante de pessoas ou circunstâncias. As fake news, ou notícias falsas, podem promover graves injustiças contra pessoas e o bem comum. Em tempos de campanha eleitoral, a tentação de fazer das mentiras um método político para levar vantagens pode ser grande. No entanto, a disseminação de narrativas deliberadamente falseadas põe em risco a sadia convivência social e também o sistema democrático no País. Regimes autocráticos, geralmente, fazem uso sistemático da mentira e da falta de transparência para se impor à sociedade.

Enfim, a mensagem conclama todos a participarem das eleições com liberdade e responsabilidade, dando a própria contribuição para os destinos do Brasil. Que se escolham candidatos realmente comprometidos com propostas e programas voltados para o bem do povo brasileiro, lembrando que os pobres e as camadas mais vulneráveis da população são os que precisam da maior atenção dos governantes.

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CARDEAL-ARCEBISPO DE SÃO PAULO

 

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