Brasil pós-crise do coronavírus

A força da união estará presente e não mais seremos indiferentes às desigualdades sociais

Roberto Teixeira da Costa, O Estado de S.Paulo

31 de março de 2020 | 03h00

Uma das poucas certezas que temos neste grande momento de dúvidas é a de que esta inédita crise que estamos vivendo será superada. Provavelmente será uma melhora gradual até atingirmos o novo normal. Não me arriscaria a falar em prazos, mas farei algumas previsões do que aprenderemos da triste convivência com esta pandemia.

Na realidade, não temos referencial para nos basearmos, pois a situação que estamos vivendo não tem precedentes. A única certeza é que teremos substanciais mudanças num horizonte de alguns meses, até anos.

Vamos, então, às possíveis consequências.

1) A globalização e o globalismo serão muito afetados. Os países ficarão mais fechados, o que terá impacto sobre a circulação de capitais.

2) As cadeias de suprimentos entre países serão repensadas. Na medida do possível, os países irão buscar uma verticalização interna, desde que tenham viabilidade. Não podendo, terão de buscar mais de um fornecedor externo.

3) No tocante ao fluxo de viajantes, levará algum tempo para que as pessoas readquiram confiança para fazerem suas viagens de turismo. As viagens de negócios também serão afetadas, eis que cada vez mais as videoconferências substituirão os contatos diretos.

Do nosso ponto de vista de consumidor, será que, num surto nacionalista, passaremos a dar preferência a produtos brasileiros, restaurantes de bairro brasileiros, férias no Brasil?

4) Dentro dessa mesma linha de raciocínio, também haverá um aumento substancial do trabalho remoto, evitando deslocamentos de funcionários das empresas. O trabalho sendo realizado pelos funcionários em sua residência fará as empresas se tornarem mais eficientes. Também as conference calls, e videoconferências entre empresas, serão mais utilizadas.

5) Consequentemente, haverá também menor movimentação de pessoas, o que aliviará o sistema de transportes e, principalmente, o uso de automóveis.

6) Um subproduto favorável será a melhoria do ar nas grandes cidades, pela diminuição da poluição.

7) Hábitos de consumo pessoal serão afetados, o que favorecerá a utilização da internet, acelerando o que já vinha acontecendo e resultando na alteração do nosso cotidiano.

8) Questões sanitárias terão prioridade e os hospitais serão favorecidos por investimentos para poderem cumprir sua nobre missão com mais recursos e ampliação de serviços. 

Haverá também estímulo à contratação de funcionários especializados, para melhor equipar os hospitais com recursos humanos.

9) Os investimentos públicos e privados deverão favorecer os segmentos de saneamento e habitação. Está cada vez mais evidente que a população mais prejudicada não dispõe de água e de condições mínimas de higiene por causa, entre outros fatores, da deficiência habitacional.

10) Tema migratório: os emigrantes terão cada vez mais e maiores dificuldade para encontrar abrigo em outros países. Os controles de fronteira se tornarão mais rígidos e a xenofobia aumentará.

11) No campo internacional, passada esta crise, as relações entre os Estados Unidos e a China novamente viverão tempos muito difíceis, transcendendo a questão comercial, particularmente se houver recessão mundial, o que muitos acreditam que será inevitável. A se confirmar esse cenário de dificuldades, nossa relação com esses países será submetida a grande estresse, pois teremos de manter um relacionamento comercial importante tanto com a China como com os Estados Unidos. 

12) O mercado de capitais voltará ao perfil conservador do investidor brasileiro. Infelizmente, a volta das aplicações em bolsa e a participação em ofertas públicas iniciais (IPOs, em inglês) sofrerão um retrocesso, em razão do impacto do coronavírus, aqui e nos demais mercados. Lamentamos, pois as conquistas alcançadas em 2019 até o momento, com investidores nacionais voltando ao mercado, principalmente pessoas físicas, sofrerão abalo, uma vez que levará algum tempo para eles poderem recuperar suas perdas.

13) O “day after” da pandemia e seus efeitos sobre os necessários gastos governamentais implicarão forte impacto sobre o déficit público, necessário para cobrir os gastos com saúde e manutenção de empregos. Provavelmente o governo terá de lançar mão do aumento da tributação do segmento de alta renda, impostos sobre heranças e patrimônio, entre outros.

Termino com uma visão positiva, pois creio que essa pandemia nos colocou diante de uma nova situação de solidariedade entre as pessoas e novos sentimentos de auxílio aos mais necessitados, como vem sendo feito mundo afora, nas grandes cidades. A força da união estará presente e seremos menos individualistas, não mais indiferentes às desigualdades sociais.

E, enfim, não podemos deixar de reconhecer o fortalecimento dos valores familiares resultantes desta crise.

ECONOMISTA, É CONSELHEIRO EMÉRITO DO CENTRO BRASILEIRO DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS E DO CONSELHO EMPRESARIAL DA AMÉRICA LATINA

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