Butantan, a fábrica de saúde dos brasileiros

Menos de 11 meses após o primeiro caso no País, instituto pode iniciar a proteção contra a covid

João Doria, O Estado de S.Paulo

25 de setembro de 2020 | 03h00

Em 1899, a necessidade de produzir soro para combater surtos de peste bubônica levou o governo de São Paulo a criar o laboratório que, uma década depois, se transformaria no Instituto Butantan. Ao longo de mais de um século, o trabalho dos nossos pesquisadores, médicos e cientistas segue salvando milhões de brasileiros da morte, da doença e de graves sequelas, graças a vacinas e soros que tornaram o Instituto Butantan referência mundial na área de saúde pública. 

Agora, a luta contra o coronavírus exige nova, e histórica, ação do Butantan para proteger vidas e garantir a saúde de todos os brasileiros. Em menos de 40 dias o Instituto iniciará as obras de modernização e ampliação da fábrica de vacinas. É o maior investimento do Butantan, que em fevereiro completa, oficialmente, 120 anos.

No centro desse projeto está a urgente necessidade de implantar uma linha de produção para a CoronaVac, a vacina que protege as pessoas da covid-19. O imunizante foi criado pela farmacêutica Sinovac Life Science, de Pequim, e desenvolvido em parceria com o Butantan. No total serão aplicados R$ 160 milhões nessa fábrica. 

Numa ação inédita, o governo de São Paulo já obteve, em doações privadas de 16 empresas, R$ 107 milhões para antecipar os trabalhos. A vacina encontra-se na última fase dos testes clínicos, a fase 3, com resultados iniciais muito promissores.

Na China, a mais ampla pesquisa realizada até agora, com 50.027 voluntários, acabou de ser divulgada, comprovando que a CoronaVac tem excelente perfil de segurança. Mais de 94% dos voluntários nada sentiram. Entre os 5,36% que reportaram algum sintoma, a grande maioria registrou reações de grau 1, caracterizado por reações leves, como dor no local, bastante comum em aplicações de vacinas.

O bom resultado propiciou a ampliação do estudo para dois grupos populacionais mais sensíveis: o de pessoas com mais de 60 anos e o de crianças e jovens entre 3 e 17 anos de idade. Novamente a vacina está se revelando eficiente e segura. No grupo inicial de 422 voluntários acima de 60 anos, os resultados apontaram 97% de eficácia, sem reações adversas graves.

No Brasil ela está sendo aplicada em 9 mil médicos e paramédicos voluntários, acompanhados pelos pesquisadores de 12 centros científicos, em cinco Estados e no Distrito Federal. Agora, com os elementos positivos da pesquisa chinesa, a Anvisa autorizou o Butantan a incluir 4 mil novos voluntários nos testes clínicos, estendendo o trabalho a grupos de pessoas com mais de 60 anos de idade e também crianças e jovens, além da inclusão de voluntários de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Os testes englobarão 13 mil brasileiros em oito unidades da Federação.

Na quarta-feira, 23 de setembro, confirmamos com a Sinovac a chegada de 6 milhões de doses a São Paulo já em outubro e a importação de matéria-prima para formular mais 40 milhões de vacinas no Butantan até dezembro deste ano. E conseguimos antecipar parte do acordo com a empresa, garantindo mais 15 milhões de doses até fevereiro de 2021. Isso significa que entre outubro e fevereiro São Paulo terá um total de mais de 60 milhões de doses da CoronaVac.

Antes das campanhas de imunização em massa, porém, o produto precisa receber a aprovação da Anvisa. Trabalhamos com o cenário técnico de que esse aval, para uma campanha emergencial de vacinação, pode ser dado após a conclusão dos estudos de eficácia, no início de novembro. A fabricação de uma vacina eficiente e segura, independentemente da técnica usada e da sua origem, é a garantia de que a esperança do mundo inteiro vai tornar-se realidade – a realidade da imunização coletiva.

No caso do coronavírus, estamos dizendo que menos de 11 meses após o primeiro caso no Brasil o Butantan poderá iniciar a proteção em larga escala contra o Sars-Cov-2. Com a ampliação da fábrica e a transferência de tecnologia prevista no acordo, a produção passará a ser totalmente local e poderá alcançar 100 milhões de doses anuais da CoronaVac, permitindo até mesmo a exportação para países vizinhos.

Como comparação, hoje a maior linha de produção no instituto é a da vacina contra a influenza. Neste ano o Butantan bateu o recorde histórico ao entregar 80 milhões de doses do imunizante contra a gripe ao Ministério da Saúde. Nossos pesquisadores estão avançando com sucesso na vacina contra a dengue. E anualmente protegem milhões de brasileiros contra hepatite, difteria, coqueluche e tétano. Também garantem a saúde das mulheres com a vacina contra o HPV. E produzem soros que salvam crianças e adultos dos venenos de cobras, aranhas e escorpiões.

Digo sempre que nossa corrida é pela vida. E torço pela aprovação do maior número de vacinas, atualmente em desenvolvimento, contra a covid-19. Em São Paulo, o conjunto de ações que resultará na modernização da fábrica, na transferência de tecnologia e no aumento da capacidade de produção de vacinas confirma a vocação de 120 anos do Butantan de ser a grande fábrica de saúde para todos os brasileiros.

GOVERNADOR DO ESTADO DE SÃO PAULO

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.