Cada vez mais fogo e menos árvores

Destruição da Amazônia e dos cerrados concorre para mais desacreditar o governo Bolsonaro

Aloísio de Toledo César , O Estado de S.Paulo

15 de dezembro de 2020 | 03h00

A destruição de nossas matas e nossos cerrados, em parte pela ação e em parte omissão dos brasileiros, foi neste ano de 2020 talvez a maior desde a chegada dos portugueses ao Brasil, em 1500. A maioria da população já se acostumou com as repetitivas notícias de que são cortados diariamente tantos mil hectares de nossas reservas florestais, fato que se repete e propaga em todo o mundo a ideia de que nós, brasileiros, não damos importância a essa extraordinária e incomparável riqueza.

O mais chocante nessa destruição é a indiferença ofensiva do presidente Jair Bolsonaro e de seu ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, o qual não tem poder de decisão e só faz aquilo que o patrão lhe ordena. Por ser assim tão obediente, não existe esperança de que seja substituído no cargo por alguém que defenda a Floresta Amazônica e o restinho de cerrado que escapou dos destruidores.

Jair Bolsonaro é negacionista por inteiro, ou seja, assim como condena o isolamento social para combate ao coronavírus, ele também não reconhece que nossas árvores estão sendo cortadas todos os dias para a fabricação de lindos móveis na Europa e nos Estados Unidos. Ele é o principal responsável e finge que não tem nada que ver com a destruição.

Quem mais sofre com isso é a nossa Floresta Amazônica, que em seu admirado esplendor vai a cada dia ficando menor, a ponto de já influir de forma assustadora no clima do País.

Dias atrás o governo federal ameaçou retirar o ipê da lista internacional de proteção de espécies ameaçadas, por ser uma das madeiras mais cobiçadas no exterior. Os ipês são vistos talvez como uma das árvores mais admiradas no Brasil e por isso choca comprovar que tanto faz para o governo federal se eles forem extintos ou não.

Parece haver uma espécie de cegueira do presidente da República em relação ao que está acontecendo com o meio ambiente. Em parte se entende, porque ele só vê à sua frente as eleições de 2022, ou seja, tudo o que ele faz tem como objetivo azeitar o caminho para poder permanecer mais tempo no Palácio do Planalto. Está bastante claro que ele e seus filhos estão gostando tanto que querem mandar na Nação por mais tempo.

Os estudiosos ensinam que o Brasil detém 60% da Floresta Amazônica, que é um regulador para o índice de chuvas no País, com influência também no planeta. Durante muito tempo o Brasil foi respeitado por preservar a Floresta Amazônica, mas os desmatamentos progressivos modificam de forma cada vez mais clara aquilo que Jair Bolsonaro diz não existir.

O desmatamento concorre para as queimadas, tanto na Amazônia como no cerrado, a prova disso ficou bastante evidente durante todo o ano de 2020. Além de nossas árvores e plantas de tantas espécies, também a fauna sofreu horrivelmente com os efeitos do fogo. Parece inacreditável que essa tendência a destruir cresça a cada ano e não haja um despertar do presidente e dos demais integrantes do seu governo.

Houve lamentável equívoco do presidente Bolsonaro quando afirmou que as queimadas são provocadas pelo índio e pelo “caboclo”. A verdadeira razão das queimadas está na ganância de fazendeiros, que cortam as árvores, valendo-se da falta de fiscalização, e depois ateiam fogo na parte derrubada, para convertê-la em pasto para os rebanhos. O fogo propaga-se, queimando extensões enormes de nossas preciosas matas.

O admirável historiador Arnold Toynbee reconhece que o homem é a primeira espécie de ser vivo em nossa biosfera que adquiriu (com o diabo) o poder de destruí-la e, ao assim fazer, de liquidar a si mesmo. Ele está cheio de razão, porque os homens e outros seres vivos são parte integrantes da biosfera e se ela se tornar inabitável o homem – bem como as outras espécies – seria extinto.

“Parece que o homem não conseguirá salvar-se da destruição de seu poder e ganância materiais diabólicos, a menos que passe por uma mudança no seu coração, a qual o leve a abandonar seu objetivo presente, adotando o ideal contrário”, escreve o historiador britânico.

Será que existirá alguém no País capaz de amolecer o coração de Jair Bolsonaro a ponto de fazê-lo olhar com amor para as nossas árvores tão preciosas da Amazônia e dos cerrados? Tem-se a impressão de que ele só olha no espelho e no calendário eleitoral.

O pior é que, quando olha no espelho, a toda hora enxerga aquele que considera seu pior adversário – João Doria, o governador dos paulistas. Pelo que se vê, ao combatê-lo, na verdade, só o projeta cada vez mais.

Nunca tivemos um presidente da República que se preocupasse mais com sua eventual futura eleição do que em governar. O curioso é que no seu governo há um grupo “ideológico”, mas, onde estão as ideias? Até agora não se viu ideia nenhuma que atue em favor do Brasil.

Os descontentamentos com o governo de Bolsonaro são crescentes e a destruição da Amazônia e dos cerrados concorrerá para desacreditá-lo cada vez mais.


DESEMBARGADOR APOSENTADO DO TJSP, FOI SECRETÁRIO DA JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO. E-MAIL: ALOISIO.PARANA@GMAIL.COM

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.