Caráter e liderança

Eis dois dos atributos do futuro presidente da República para tirar o País do lamaçal.

Luiz Felipe D'Ávila, O Estado de S.Paulo

22 de setembro de 2021 | 03h00

Montesquieu dizia que “a indiferença pelo bem comum é a causa da ruína das repúblicas”. Ruína que começa com a indiferença do presidente da República em honrar suas promessas ao povo brasileiro. Prometeu abrir a economia, privatizar estatais e aprovar reformas liberais para desidratar o Estado intervencionista que estrangula os brasileiros que trabalham e produzem riqueza, mas se rendeu à agenda do corporativismo que destrói a produtividade e a competitividade do Brasil e ainda criou mais estatais, como a ENBPar, que recebeu um aporte de R$ 4 bilhões dos cofres públicos.

Prometeu combater a “velha política” e a corrupção, mas se aliou ao Centrão, sepultou a Lava Jato, e pululam escândalos de superfaturamento de vacinas e de seus familiares. Por fim, Bolsonaro prometeu honrar os valores cristãos, mas na hora da pandemia demonstrou falta de misericórdia e de compaixão com milhares de brasileiros que padeceram da covid. Menosprezou a importância da vacina e repudiou o uso de máscara. Ademais, o presidente mostra-se indiferente aos reais problemas que afetam a vida dos brasileiros, como a queda da renda e o aumento do desemprego e da inflação, que vem encarecendo o preço do gás de cozinha, da carne, do arroz e feijão.

Evidentemente, o presidente da República culpa os infortúnios do seu governo à pandemia, à imprensa “esquerdista” e às decisões do Supremo Tribunal Federal e do Congresso. Essa visão infantil de que o problema está sempre nos outros revela sua incapacidade de reconhecer as incompetências política e administrativa do seu governo.

A questão crucial é como atravessar o vale do desgoverno e das crises institucionais até a eleição de 2022. O Brasil tem hoje um caminho e dois desvios. O caminho é a construção de um plano de ação para defendermos a democracia e nos unirmos em torno de uma candidatura presidencial competitiva, capaz de vencer os dois desvios – Bolsonaro e Lula. O primeiro representa a maior ameaça à democracia desde o golpe militar de 1964; o segundo retrata a volta ao pesadelo do passado em que se semeou a desgraça do presente – o sectarismo político, a corrupção sistêmica que corroeu a credibilidade das instituições e a gênese do nefasto governo Dilma, que nos brindou com recessão econômica, 13 milhões de desempregados e a atuação irresponsável de um Estado intervencionista que debilitou a economia.

A união dos defensores da democracia tem de ser construída em torno de dois pilares. Primeiro, é vital restabelecer os canais de diálogo cívico e de articulação política entre as principais lideranças do País em torno da defesa da democracia. Trata-se de uma tarefa imperiosa para combater o radicalismo político e os rompantes autoritários nas redes sociais, na imprensa, no Parlamento e nas cortes. Essa missão requer verdadeiro espírito público para sobrepor as divisões políticas que fragmentaram famílias, partidos, instituições e a Nação. Demanda disposição de conversar com antigos adversários para construir o entendimento em torno de prioridades urgentes para derrotar Lula e Bolsonaro. Exige restabelecer laços de confiança que tecem o consenso social para transformar ideias em apoio popular e votos no Congresso e nas urnas. Foi justamente essa amálgama de objetivos claros, mobilização cívica e resolução política que permitiu o País superar três crises: a eleição de Tancredo Neves em 1985, a destituição do presidente Collor em 1992 e o impeachment de Dilma em 2016.

Segundo, é preciso racionalidade e objetividade para colocar as prioridades do Brasil acima das disputas políticas. O Centro de Liderança Pública (CLP), em parceira com várias instituições da sociedade civil, criou em setembro de 2020 o Unidos pelo Brasil, um movimento para pressionar o Congresso a votar uma agenda mínima de projetos que ajudem a impulsionar a retomada da economia e a modernização do Estado. Ao unir pessoas determinadas a trabalhar por uma agenda de país e capaz de mobilizar a sociedade civil e o Parlamento, o Unidos pelo Brasil exerceu um papel protagonista na aprovação de projetos, como o marco do saneamento básico, a autonomia do Banco Central, a nova Lei do Gás e o projeto que acaba com os supersalários da elite da administração pública. A iniciativa prova que, mesmo em momentos turbulentos da política, é possível avançar com a agenda modernizadora do País, unindo esforços da sociedade civil e das lideranças políticas em torno de objetivos comuns.

O Brasil precisa apaziguar os ânimos, focar sua atenção numa agenda de país e olhar para o futuro. Não há futuro promissor se continuarmos a insistir nas escolhas erradas do passado que pavimentaram o caminho do radicalismo político, da recessão econômica, do desemprego e da maior crise social no País. A construção do Brasil que queremos começa pelas escolhas que faremos em 2022. O futuro presidente precisa ter dois atributos para tirar o País do lamaçal do patrimonialismo, do corporativismo e do clientelismo: caráter e liderança.

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CIENTISTA POLÍTICO, É AUTOR DO LIVRO ‘10 MANDAMENTOS – DO BRASIL QUE SOMOS PARA O PAÍS DE QUEREMOS’

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