‘Carpe diem’ – felicidade, paz, amor e ética

A verdade é que sem paz, amor, amizade e ética ninguém poderá ser feliz

Ruy Altenfelder*, O Estado de S.Paulo

22 de julho de 2019 | 03h00

O saudoso amigo cardiologista professor Adib Jatene costumava dizer que trabalhava cada dia intensamente, no seu consultório, nos hospitais operando seus pacientes, visitando os convalescentes, exercendo a cidadania (secretário e ministro da Saúde). Em determinada ocasião, quando da alta do governador Mário Covas do Hospital do Coração, perguntaram ao dr. Jatene se o governador não corria risco de vida voltando a trabalhar mais de 15 horas por dia, como era de seu hábito. Adib Jatene encarou os repórteres e respondeu: “Meus amigos, o trabalho não faz mal a ninguém, o que mata é a raiva”. 

Yuval Noah Harari, no seu mais recente livro, 21 Lições para o Século 21, no capítulo dedicado à ética sem Deus, afirma que você pode ficar espumando de raiva durante anos, sem nunca assassinar o objeto do seu ódio. Nesse caso você não terá ferido nenhuma outra pessoa, mas terá ferido a si mesmo. Portanto, prossegue Harari, o seu próprio interesse, e não a ordem de algum deus, é que deveria induzir você a fazer alguma coisa quanto à sua raiva. Se você se livrar totalmente dela vai se sentir muito melhor do que se assassinar um inimigo (obra citada, página 252).

O referido e renomado autor, ao mencionar o que ele denomina “ideal secular”, define que o compromisso secular mais importante é com a verdade, que se baseia em observação e evidência, e não apenas na fé. Os seculares, ensina Harari, esforçam-se para não confundir verdade com crença, não santificam nenhum grupo, nenhuma pessoa, nenhum livro, como se tivessem a custódia única da verdade. Em vez disso, santificam a verdade. O compromisso com a verdade fundamenta a ciência moderna.

Nos últimos dias dois bons amigos nos deixaram: Ney Prado e Paulo Bomfim. Tinham em comum o ensinamento do dr. Adib Jatene: trabalhavam intensamente e não tinham inimigos. O que importa é viver cada dia praticando o bem, aproveitando o dia, ensinava, carpe diem.

O excelente suplemento cultural da Associação Paulista de Medicina publicou no seu número 310 artigo do médico e escritor Luiz Gastão Costa Carvalho Serro Azul, que se aplica ao que estamos refletindo. Sob o título Carpe diem, o autor cita o poeta norte-americano Walt Whitman, lembrado como precursor do verso livre. A sua obra poética centra-se na coletânea Leaves of grass, Folhas de erva, revista e completada ao longo de sua vida. Ele traduz o ensinamento de Horácio (Quintus Horatius Flaccus, 65 a.C), um dos maiores poetas da Roma antiga e filósofo, que vale a pena transcrever.

“Aproveita o dia. Não deixes que termine sem teres crescido um pouco. Sem teres sido feliz, sem teres alimentado teus sonhos. Não te deixes vencer pelo desalento. Não permitas que alguém te negue o direito de te expressares, que é quase um dever. Não abandones tua ânsia de fazer em tua vida algo extraordinário. Não deixes de crer que as palavras e as poesias, sim, podem mudar o mundo. Porque, passe o que passar, nossa essência continuará intacta. Somos seres humanos cheios de paixão. A vida é deserto e oásis. Nos derruba, nos lastima, nos ensina, nos converte em protagonistas de nossa própria história. Ainda que o vento sopre contra, a poderosa obra continua, tu podes trocar uma estrofe. Não deixes nunca de sonhar, porque só nos sonhos pode ser livre o homem. Não caias no pior dos erros: o silêncio. A maioria vive num silêncio espantoso. Não te resignes, nem fujas. Valoriza a beleza das coisas simples, se pode fazer poesia bela sobre as pequenas coisas. Não atraiçoes tuas crenças. Todos necessitamos de aceitação, mas não podemos remar contra nós mesmos. Isso transforma a vida em um inferno. Desfruta o pânico que provoca ter a vida toda adiante. Procura vivê-la intensamente sem mediocridades. Pensa que em ti está o futuro, e encara a tarefa com orgulho e sem medo. Aprendes com quem pode ensinar-te experiências daqueles que nos precederam. Não permitas que a vida se passe sem teres vivido.”

Ney Prado e Paulo Bonfim aproveitaram o tempo presente trabalhando, sem raiva, sem inimigos, como também o fizera o grande médico Adib Jatene. Prezavam a responsabilidade, não acreditavam em nenhum poder superior que toma conta do mundo: recompensa os justos. Por isso mesmo, nós, mortais, temos de assumir tudo o que fazemos. Precisamos assumir total responsabilidade pelos crimes e falhas da modernidade. Em vez de rezar por milagres, precisamos perguntar o que podemos fazer para ajudar.

Importante também mencionar a relevância da ética, que passou a ser baliza de comportamento no mundo corporativo, como tenho citado nos meus recentes trabalhos. Definida como o conjunto de regras e preceitos de ordem valorativa e moral do indivíduo, de um grupo social ou do conjunto da sociedade, a ética foi a poderosa bandeira que mobilizou a reação da sociedade à escalada da corrupção no setor público. São exemplares, como resultado da pressão social, dois avanços: a Lei da Ficha Limpa, que busca alijar candidatos corruptos, e a Lei Anticorrupção. Tais avanços sinalizam para o reconhecimento da ética como um dos pilares da construção da modernidade, com desenvolvimento sustentável e população beneficiada ao máximo pelo bom uso dos recursos públicos, com planejamento eficiente e gestão correta dos projetos e das políticas públicas.

Carpe diem, aproveite o tempo presente, vivendo-o integralmente, sem pensar no que o futuro nos reserva. Não gaste o tempo com pensamentos e coisas inúteis. Colha o dia de hoje e confie o mínimo possível no amanhã.

A verdade é que sem paz, amor, amizade e ética ninguém poderá ser feliz.

* PRESIDENTE DA ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS JURÍDICAS (APLJ) E DO CONSELHO SUPERIOR DE ESTUDOS AVANÇADOS (CONSEA/FIESP), É MEMBRO DO CONSELHO DE ÉTICA DA PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA

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