Carros-conceito e escolas experimentais

Com modelos robustos e resistentes a crônicos maus-tratos é que ganharemos a guerra

Claudio de Moura Castro, O Estado de S.Paulo

06 de junho de 2021 | 03h00

Fabricantes de automóveis encomendam projetos criativos dos seus departamentos de engenharia, cheios de novidades e ideias arrojadas. São os “carros-conceito”. Seu objetivo não é virar o modelo do ano seguinte. Foram criados para testar inovações, bem-comportadas ou extravagantes. Visam a identificar as que são apropriadas para aparecer nos autos de linha.

Há um equivalente desse experimento na educação, são as escolas experimentais, também cheias de inovações destemidas. Aí estão, por exemplo, Summerhill, Escola da Ponte, Lumiar, Sora e a Escola do Sesc no Rio de Janeiro. Estas e outras são mais do que bem-vindas.

Cada uma tem seu próprio modelo pedagógico, político e econômico. Ainda assim, têm muito em comum. Por trás, sempre estão líderes apaixonados e carismáticos. Constroem em torno da escola uma bolha protetora, assegurando o microclima favorável ao seu sucesso. E dão certo, com uma frequência entusiasmante de casos, tornando-se ícones de progresso e criatividade.

As novidades podem incluir currículos abertos, ausência de seriação, eliminação da repetência, e a avaliação pode ser puramente qualitativa e artesanal (adeus aos testes padronizados).

A comparação com os carros-conceito é pertinente, pois devem ser pensadas como “escolas-conceito”. Não são as versões iniciais do que acontecerá com todas as escolas. Como nos carros, espera-se que testem ideias que poderão servir para as demais.

Infelizmente, impera uma grande ingenuidade, ignorando-se as condições especialíssimas em que operam. Por isso não passam no teste da escalabilidade. Uma dá certo, duas, pode ser. Uma dúzia é fracasso quase garantido. No Brasil real, há 50 milhões de alunos, e mais de 200 mil escolas. Soluções artesanais ou regras excessivamente flexíveis tornam a rede inadministrável.

É um bom exemplo a Escola Plural, implantada em Belo Horizonte. Era o sonho de educadores idealistas. Se fossem umas poucas, poderiam mostrar excelentes resultados. Mas, multiplicadas na rede municipal, fracassaram. O inevitável aconteceu, foram fechadas.


A decantada Escola da Ponte, nem no minúsculo Portugal foi replicada. As inúmeras tentativas de multiplicá-la no Brasil não foram longe, apesar do encantamento da ideia.

Talento e liderança não se contratam pela internet. E a educação não os atrai. A escola comum e corrente tem de dar certo com gente comum e corrente.

Avaliações puramente qualitativas não permitem boa pilotagem de sistemas grandes. Como saber se uma escola está em crise ou uma outra pode servir de exemplo? E como manejar 50 milhões de alunos, se ninguém sabe que tanto aprenderam? Com testes padronizados, sabemos quem é quem e podem-se tomar as providências.

Seriação, currículo rígido, ementas detalhadas, reprovação, calendário, horários e disciplina estrita podem escandalizar alguns educadores. São soluções acusadas de ser resquícios da Revolução Industrial. Porém, no mundo inteiro, são as ferramentas que resistiram aos números assombrosos de alunos. Não se trata de amá-las, mas de pragmaticamente reconhecer que, diante números tão grandes, ainda são as mais robustas.

A indisciplina é tóxica para o rendimento escolar. Quando não é controlada, boa coisa não acontece. Pelas suas características, as escolas experimentais nem precisam pensar nisso.

Currículos excessivamente flexíveis, no limite, permitiriam a eliminação da Matemática por diretores a ela avessos.

Essas são as dificuldades do lado técnico-pedagógico. Ainda mais temíveis são as que vêm do lado da sociologia da escola, da sua inércia natural e da conjugação de forças políticas militando contra quaisquer mudanças.

Em geral, as novidades desagradam às minorias barulhentas e estas têm peso político. Igualmente, a todo-poderosa burocracia faz o que sabe fazer bem: pasteurizar e descaracterizar as novidades. Nem precisa lutar abertamente. Pode até se dizer a favor. Mas, pouco a pouco, vai triturando cada uma delas. É o que aconteceu com os computadores, antes da covid-19.

A Escola do Sesc impressiona a todos. Mas como muitas da nova geração, por ser caríssima, a sua replicação é financeiramente inviável. Ademais, seleciona alunos brilhantes, quase sempre de classe alta.

Heroicamente, Ricardo Semler tenta encontrar fórmulas para multiplicar a Lumiar. Mas o avanço é lento. Quando a visitei, vi várias ideias que poderiam sobreviver aos grandes números. Mas reproduzir o modelo completo vem se revelando problemático.

A lição aí está, uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Escolas experimentais são mais do que bem-vindas. Têm seu lugar e devem ser estimuladas. Algumas produziram pessoas de desempenho estelar na sociedade. E podem gerar ideias escaláveis. Porém não há como multiplicá-las na força bruta, pois operam em condições muito especiais.

Temos de entender, as redes públicas de ensino necessitam modelos robustos e resistentes aos crônicos maus-tratos. É com eles que ganharemos a guerra.


M.A., PH.D., É PESQUISADOR EM EDUCAÇÃO

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