Cartesianos e descabeçados

Difícil saber quem perdeu a cabeça no Brasil: o chefe de Estado, a opinião pública...?

Eugênio Bucci, O Estado de S.Paulo

06 de maio de 2021 | 03h00

A imagem da drag queen Tchaka segurando uma cabeça humana moldada em silicone circulou nas redes em dezembro passado. Rapidamente virou mais um assunto a ser investigado pela polícia com base na Lei de Segurança Nacional. Lógico. Ao notarem que a escultura em tamanho natural, sob a axila direita de Tchaka, lembrava a fisionomia do presidente da República, as autoridades se aviaram em brios persecutórios. Enxergaram na fotografia atrevida e coruscante um risco iminente para a integridade da Nação.

O que terão imaginado as autoridades? Assanhadas assombrações comunistas, talvez. Ou talvez tenham presumido que cabeças longe do corpo são uma questão de Estado, e isso desde que João Batista teve a dele exposta numa bandeja, por ordem direta de Herodes. Está no Evangelho. Há quem sinta calafrios cívicos só de pensar nisso. Há quem passe mal quando ouve notícias de que, nos estertores do século 18, os revolucionários franceses, não satisfeitos em decapitar reis e rainhas, decapitavam a si mesmos. Saint-Just e Robespierre ceifaram o pescoço de Georges Danton e, três meses mais tarde, sucumbiram à mesma lâmina. Era o Terror.

Quanto a nós, aqui, temos visto acefalias institucionais sem sentir terror algum. Viraram rotina. Vimos o Ministério da Saúde à deriva, sem cérebro. Vimos outras degolas simbólicas sanguinárias sem reagir. Difícil saber quem perdeu a cabeça no Brasil. Terá sido o chefe de Estado, que já declarou preferir acreditar em mula sem cabeça a crer num instituto de pesquisa? Ou terá sido a opinião pública entorpecida, destituída de seu sistema nervoso central?

Enquanto tentamos achar respostas, é bom levar em conta que, em matéria de perder a cabeça, há coisas muito piores. A bem da verdade, o descabeçamento presente, mais do que uma questão de Estado, mais do que excesso de autoritarismo e escassez de senso de humor, é um desvio civilizacional que vem de longe e nos atravessa a todos. Ninguém escapa. Além do Ministério da Saúde e do presidente, nós também somos seres cuja cabeça se separa do corpo. Admitamos de uma vez. Nós podemos não sair de casa para trabalhar ou para gazetear, mas a nossa cabeça sai. As cabeças deslocam-se na velocidade da luz, enquanto nossos corpos seguem estacionários. É assim no Brasil e no mundo inteiro, até mesmo nos países onde os governantes não acreditam em mula sem cabeça.

A moléstia da covid-19 consagrou a separação entre mente e corpo em escala global. O império do home office é a guilhotina virtual dos viventes. Cabeças nunca viajaram tanto, levando consigo a voz, a audição e o olhar. Palestra em Boston de manhã, reunião de conselho em Buenos Aires à tarde, namoro no intervalo, pagar contas em seguida. A cabeça levita, como numa experiência de quase morte; o corpo se escarrapacha, em sonolência de quase vida. Sim, a crise política, econômica e sanitária no Brasil é tenebrosa, horripilante, mas comparada à guilhotina virtual que nos secciona indistintamente é fichinha.

E aí? Fazer o quê? Se der, podemos rir. No mínimo, podemos caçoar René Descartes, o filósofo (francês, claro) do século 17 que disse “penso, logo sou” e inaugurou a racionalidade que aí está. Descartes pode não ter feito de propósito, mas preconizou a divisão do cidadão racional: um é aquele que pensa, outro é aquele que é. O psicanalista (também francês) Jacques Lacan fazia chacota a esse respeito: “Penso onde não sou, logo sou onde não penso”. A pandemia veio dar ganho de causa aos dois. Somos divididos – agora mais do que antes. Na melhor das hipóteses, pensamos que existimos, sem potência de agir.

Para completar, há uma nota funérea, um toque do além, no destino de Descartes. Quando morreu, em 1650, ele era professor particular de Filosofia da rainha Cristina da Suécia. Foi enterrado quase em segredo num cemitério católico em Estocolmo. Em 1666, seus restos mortais seguiram para a Abadia de Sainte-Geneviève, em Paris. Em 1792, em meio às convulsões guilhotinescas da Revolução Francesa, o esqueleto ficou escondido num sarcófago no Museu dos Monumentos Franceses, no Trocadero, até que em 1819, quando foram transferi-lo para a Igreja de Saint-Germain-des-Prés, alguém se deu conta: faltava a cabeça. No caso de Descartes, a divisão do sujeito teve sua vigência além-túmulos (no plural).

A decapitação post-mortem teria ocorrido logo no primeiro traslado, quando um soldado sueco de nome Isaak Plantsom surrupiou o crânio. A partir daí, segundo autores como Russel Shorto e Bess Lovejoy, a caveira ilustre virou objeto de disputa entre colecionadores, e hoje, com sua autenticidade questionada, integra a coleção do Museu do Homem, em Paris, de onde nos contempla com desdém fantasmático.

No mais, a drag queen Tchaka foi mal compreendida. A cabeça que carrega não é a do presidente da República, por mais que este não a tenha. Aquela cabeça de silicone representa a somatória das multidões de cabeças voadoras que, nas redes sociais, zunem ocas, zumbis e descarnadas para dar poder a quem não tem juízo e desespero a quem não tem poder. Sem dúvida, matéria de insegurança irracional.


JORNALISTA, É PROFESSOR DA ECA-USP

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