Casos de câncer e uso de agrotóxico – perspectivas

Rumamos para uma contraproducente equação: há novas terapias, mas não se reduzem os fatores que impulsionam a doença.

Ramon Andrade de Mello, O Estado de S.Paulo

04 de maio de 2022 | 03h00

O envelhecimento da população brasileira deve crescer nas próximas décadas. Pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostra um aumento da expectativa de vida de 3,3 anos em dez anos. O número de idosos aumenta e o panorama das doenças deve se alterar significativamente. Temos um declínio das enfermidades infecto-parasitárias, típicas de nações em desenvolvimento, passando por um aumento das chamadas Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNT), como hipertensão arterial, diabetes, entre outras.

O aumento do número de casos de câncer é outro desafio que temos pela frente. Para o triênio 2020-2022, o Instituto Nacional de Câncer (Inca) estimou 625 mil novos casos de câncer por ano. No período anterior, entre 2018 e 2019, a projeção era de 600 mil novos registros anualmente. Para responder a essa demanda crescente de tratamento, cientistas do mundo todo têm investido em pesquisas oncológicas, com destaque para o ramo denominado de medicina de precisão.

Os resultados desses estudos têm permitido alcançar sucesso nos tratamentos de vários tumores cancerígenos em milhares de pacientes. Os cientistas encontraram nas terapias genéticas, por exemplo, que atuam nas mutações dos genes das células defeituosas para eliminá-las, uma técnica complementar aos métodos tradicionais – quimioterapia, radioterapia ou cirurgia. Este é um passo importante e traz otimismo para enfrentar doenças que até pouco tempo atrás considerávamos incuráveis.

Porém os avanços das pesquisas oncológicas são apenas uma parte do esforço que precisamos compreender para que as próximas gerações tenham melhores perspectivas de vida. A prevenção deve ser outro pilar a guiar a saúde da população, buscando a melhoria da qualidade de vida com, por exemplo, práticas regulares de atividade física e alimentação saudável. E, neste quesito, precisamos reavaliar práticas adotadas até o momento. O uso intensivo de agrotóxico avança na contramão dos alertas dos pesquisadores do mundo todo, aumentando os riscos para a saúde da população.

O uso de pesticidas nas lavouras não é exclusividade brasileira. A adoção dessa prática tem garantido ao agronegócio atender à crescente demanda de alimentos. No entanto, o custo para saúde vem passando por questionamentos frequentes. Em 2015, por exemplo, a Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (Iarc, na sigla em inglês) publicou uma avaliação da carcinogenicidade de cinco ingredientes ativos de agrotóxico, agregando estudos de 11 países, incluindo o Brasil. O levantamento mostrou que a malationa, a diazinona e o glifosato, autorizados e amplamente aplicados nas lavouras brasileiras, estão entre aqueles que apresentam grandes riscos para a população. De acordo com a Organização Internacional do Trabalho (OIT), os agrotóxicos respondem por mais de 70 mil intoxicações agudas e crônicas todos os anos e que evoluem para óbito. A entidade registra, ainda, 7 milhões de casos de doenças agudas e crônicas não fatais relacionadas ao uso dos pesticidas.

A presença de agrotóxicos não se limita aos alimentos in natura. Em razão do processo de bioacumulação, vamos encontrar sua presença inclusive em produtos alimentícios processados pela indústria, como pães e biscoitos, que têm o trigo, o milho e a soja como ingredientes. Uma parcela significativa da humanidade já percebeu o potencial nocivo desses insumos agrícolas, e por isso assistimos a uma tendência mundial à escolha de produtos orgânicos para o consumo no dia a dia.

Os impactos do agrotóxico na saúde da população têm angariado a atenção de pesquisadores ao redor do mundo. Os estudos toxicológicos detalham a maneira como as moléculas dos pesticidas atuam provocando tumores cancerígenos. Esses produtos atuam de maneira a iniciar e acelerar as mutações nas células cancerígenas, provocando o surgimento de diversas neoplasias como câncer de mama, testículos e fígado. As gestantes expostas aos pesticidas correm maior risco de ter filhos com possibilidade de diagnóstico de leucemia e linfoma.

A liberação do uso desses insumos agrícolas deve ser assunto de um debate amplo e importante para o futuro da saúde da população. As pesquisas científicas caminham para encontrar soluções para um dos males mais preocupantes para a humanidade. As descobertas ampliam as possibilidades de tratamento dos tumores cancerígenos, reduzindo os efeitos colaterais dos métodos tradicionais, como a quimioterapia. O sucesso dessas novas técnicas não pode esbarrar numa expansão de casos em razão do uso intensivo de pesticidas nas lavouras. Caminhamos para uma equação contraproducente, buscando, de um lado, novas terapias ao mesmo tempo que não conseguimos reduzir fatores que impulsionam o diagnóstico da doença. Temos o desafio de buscar um equilíbrio como forma de ter um futuro mais saudável e com qualidade de vida.

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MÉDICO, PhD EM ONCOLOGIA PELA UNIVERSIDADE DO PORTO, PORTUGAL, É PROFESSOR DE ONCOLOGIA CLÍNICA DO DOUTORADO EM MEDICINA DA UNIVERSIDADE NOVE DE JULHO (UNINOVE)

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