Centenário de Hélio Damante

Sua participação na vida paulista estendeu-se da atividade intelectual ao jornalismo e à política

Lourenço Dantas Mota*, O Estado de S.Paulo

17 de agosto de 2019 | 03h00

O centenário de nascimento de Hélio Damante chama a atenção para um personagem que, embora à sua maneira discreta e modesta, teve atuação de destaque na vida cultural e no meio jornalístico de São Paulo na segunda metade do século passado. Damante – que também influiu no debate de questões religiosas, com a coluna Movimento Religioso, de O Estado de S. Paulo – publicou estudos breves mas densos de história e folclore de São Paulo, que merecem releitura. Seus trabalhos deixam no leitor um gosto de quero mais, que é um convite a ir além do que foi o autor. Esse é um dos traços das obras que não envelhecem. Sem falar no prazer do texto de seus livros, que combinam o estilo claro e direto do bom jornalismo com o rigor da informação e da análise.

Damante deseja apenas colaborar para evitar que São Paulo, “sob o impacto das profundas transformações que o sacodem”, corra o risco “de se desidentificar de seu passado e tornar-se terra de ninguém”, como explica na apresentação de um de seus melhores livros, Nova Paulística, de 1971. Daí, acrescenta, “o caráter didático e por vezes óbvio destes estudos”. Nem o didatismo nem a obviedade, assim claramente assumidos, diminuem o interesse pelos estudos que compõem o livro, ou limitam seu público aos iniciantes.

A identidade que deseja preservar não é excludente, nada tem de saudosista das origens tipicamente luso-brasileiras. Não diminui, ao contrário, busca realçar a importância das transformações que sacudiram São Paulo, talvez mais do que qualquer outro Estado brasileiro. Assim, entre trabalhos sobre a fundação da cidade de São Paulo, Nossa Senhora na toponímia paulista, a história do Vale do Paraíba e Mauá e a Estrada de Ferro Santos a Jundiaí, sobressai o que trata da imigração, o capítulo Italianos.

Ele é um bom exemplo do trabalho de Damante: uma síntese precisa, que serve de introdução para os iniciantes e, para os estudiosos, além de lhes reavivar a memória, é rica de sugestões. O essencial está ali, como a entrada em São Paulo, no curto período de 1890 a 1914, de nada menos que 1.499.370 imigrantes, sendo quase a metade (693.569) de italianos, que deixaram longe as duas outras principais correntes migratórias – espanhóis (283.672) e portugueses (227.599). E o fato de os italianos, pelo menos os que vieram para São Paulo, terem sido rapidamente assimilados, apesar de enfrentarem no começo inevitáveis resistências e preconceitos.

Damante mostra, em traços rápidos, como a presença dos imigrantes italianos permeia toda a sociedade paulista, de alto a baixo. Sua influência logo se faz sentir em todos os setores, das relações de trabalho, do meio empresarial à vida intelectual e artística e à política. Eles se dissolveram na sociedade a ponto de se tornarem quase irreconhecíveis como tais, o que só tem paralelo, nessa amplitude, com os portugueses, que levam sobre os italianos óbvias vantagens. Mesmo assim, a influência italiana se estendeu com força a uma área, a da vida sindical, na qual pouco se pode notar a presença portuguesa.

O que a releitura de um trabalho como esse logo sugere, até por sua deliberada brevidade, é a necessidade de aprofundamento do tema. E não apenas restrito aos italianos – embora sua presença, depois da dos portugueses, seja mais marcante – nem apenas a São Paulo. Além dos espanhóis, e para ficar apenas nas principais correntes, há alemães, libaneses e sírios, japoneses e judeus vindos de várias partes do mundo. Faltam estudos abrangentes sobre a influência dos imigrantes na formação do Brasil. A exemplo de outros países americanos de forte imigração, aqui essa formação não se esgota nos primeiros séculos, marcados pelos colonizadores europeus, pelos índios e pelos africanos.

O folclore foi o outro objeto dos estudos de Damante, no mesmo molde dos de história, o de breves e instigadoras introduções. Seu livro Folclore Brasileiro – São Paulo, de 1980, trata o tema em seus vários aspectos, das festas, das danças, dos cultos e do artesanato à linguagem popular. A releitura do capítulo sobre linguagem popular, que traz um breve vocabulário, permite avaliar em que medida as palavras e expressões típicas do interior paulista estão perdendo sua força sob a influência da massificação promovida pela televisão, com sua linguagem moldada pelos padrões dos grandes centros urbanos.

Damante deixou, ainda, importantes subsídios para a história da Igreja Católica no Brasil num período crucial, que vai dos anos 1940 até os anos 1990. Nessas décadas, com poucos intervalos, ele foi o responsável pela coluna Movimento Religioso, mantida pelo Estado – onde foi também editor de Política e editorialista – até sua aposentadoria, em 1991. Lá se pode sentir como os fiéis católicos reagiram às grandes transformações por que passou a Igreja naquele período, sobretudo as provocadas pelo Concílio Vaticano II. Damante não apenas tratava das tensões causadas pelas mudanças, como frequentemente dava a palavra a representantes das várias tendências do clero. Sua atuação nesse setor se estendeu à Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero, onde foi professor de História das Religiões.

Sua participação na vida paulista não se limitou à atividade intelectual e ao jornalismo. Estendeu-se à política. Exerceu um breve mandato de vereador na Câmara Municipal de São Paulo, em 1955, e foi assistente particular do governador Carvalho Pinto (1959-1963). Ocupou, também, posição de destaque na luta pela renovação do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, ainda preso na época à influência do velho sindicalismo ligado ao Ministério do Trabalho, que impedia a verdadeira e autêntica representação da categoria. No desempenho do cargo de vice-presidente (1957-1959), foi um dos líderes do movimento que preparou o caminho para a ascensão de uma nova geração de dirigentes nos anos 1970.

*JORNALISTA

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