China

A Nova Rota da Seda deve incluir 60% da população e mais de 30% do comércio mundial

Pedro Cavalcanti*, O Estado de S.Paulo

19 de outubro de 2019 | 03h00

Entre maravilhado e temeroso, o mundo ocidental assiste a um novo renascimento da milenar civilização chinesa. Maravilhado diante dos índices fantásticos de crescimento econômico, impulsionado há décadas por produtos oferecidos a preços sem concorrência e mais recentemente por tecnologia de vanguarda.

Como os chineses conseguiram e continuam conseguindo? O assombroso mecanismo permanece em grande parte inextricável, dissimulado atrás da muralha da língua para nós tão estranha que até hoje há quem discorde da transliteração do nome das cidades mais conhecidas: Pequim ou Beijing, Shanghai ou Xangai, Cantão ou Guangzgou, Nanquim ou Nanjing. Quanto à pronúncia correta a dificuldade é ainda maior. A diferença na tonalidade de certas sílabas, imperceptível para ouvidos ocidentais, pode modificar inteiramente o significado das palavras.

Até recentemente a presença brasileira, como a da maioria das nações ocidentais, limitava-se a diplomatas e passageiros dos ônibus de janelas fechadas e ar-condicionado que traziam de volta pouco mais do que fotografias de si próprios diante da Muralha da China. Nos últimos anos, empresários individuais têm se estabelecido por alguns anos em Pequim, num esforço de estreitamento de laços econômicos e culturais, iniciativas, sem dúvida, meritórias, mas ainda semelhantes a pequenos barcos perdidos no oceano de ignorância dos brasileiros sobre a China.

Basta lembrar que, além das três cidades acima citadas e de Hong Kong, que é um caso à parte, raros compatriotas seriam capazes de citar outras metrópoles, não só as históricas, mas as que nasceram nas últimas décadas da noite para o dia como cogumelos. Podemos encontrar sua localização no mapa, mas sem auxílio de um professor não conseguimos sequer pronunciar o seu nome.

Da incompreensão e do assombro nasce o temor. Se não sabemos como o governo chinês conduziu 1,4 bilhão de pessoas pelo bom caminho, como saberemos qual será seu próximo passo e que consequências terá para seu próprio povo e para o resto do mundo? O risco é considerável. Na China tudo é gigantesco, até os assombrosos erros da sua História recente. Se nos ativermos aos últimos 70 anos, desde que Mao Tsé-tung, vencedor da longa batalha contra Chiang Kai-shek, proclamou seu controle sobre a República Popular da China, assistimos a duas experiências brutais: o Grande Salto Adiante e a Revolução Cultural. Ambas ambiciosas, radicais e desastrosas.

Como se explica, então, que depois de tudo dar errado tudo passou a dar certo? A verdade é que não sabemos. Temos, é verdade, algumas explicações óbvias, como os pesadíssimos investimentos em educação e infraestrutura. Em dez anos a China instalou 29 mil km de linhas de trem-bala, 500 vezes os existentes nos EUA e 18 vezes os da França. Entre 2007 e 2012 a China consumiu mais aço que os EUA em todo o século 20. Ao mesmo tempo, desmentia-se a velha história – já largamente desacreditada por Japão e Coreia do Sul – de que os orientais eram bons para copiar, mas não para inovar. A China, diga-se de passagem, de onde nos vieram o papel, a pólvora e a bússola, fabrica hoje os celulares mais avançados do mundo. E seus habitantes mostraram inesperada capacidade de se adaptar às novas tecnologias. Há cidades onde as compras constituem uma dificuldade para o turista, pois pagamento com cartão de crédito pertence ao passado, e se ainda se usa dinheiro, o troco é sempre difícil. As transações são feitas pelo código QR até nas bancas de legumes dos mercados.

No âmbito internacional, o que podemos esperar? Há pelo menos três interrogações no ar: 1) até onde seguirá a guerrilha de tarifas com os EUA; 2) se nova Rota da Seda (Belt and Road, na versão inglesa) é uma bênção ou uma ameaça de dominação para os países que pretende atravessar; e 3), finalmente, os riscos de revoluções na política interna, de que Hong Kong é só uma amostra. Da guerra de tarifas não se espera nada de bom. Haverá talvez vantagens em curto prazo, até para o Brasil, que poderá aproveitar as brechas abertas pela guerra tarifária para aumentar suas vendas ao mercado chinês, mas com o passar o desequilíbrio do comércio internacional afetará a todos. Da origem dos tumultos de rua em Hong Kong também pouco se sabe. A fórmula encontrada nas relações com a China continental – um país, dois sistemas – já não satisfaz. Mas como a revolta não apresenta líderes reconhecidos, não se sabe exatamente o que desejam, a não ser maior independência da China continental. Pequim argumenta que os tumultos são um problema interno de Hong Kong. Mas pelo sim, pelo não já deslocou tropas para suas proximidades. É uma ameaça sempre presente. Resta a Nova Rota da Seda com ficou conhecida o projeto lançado pelo presidente Xi Jinping em setembro de 2013, menos de um ano após a sua ascensão ao poder. Apresentado por ele como “o projeto do século”, pretende conectar a Ásia ao resto do mundo através de novas vias marítimas e terrestres por meio de investimentos e acordos políticos e comerciais.

Desde o início de 2016 já foram assinados 35 projetos, num total de US$ 7,5 bilhões, com o Egito, a Índia, a Turquia, a Indonésia, as Filipinas, Omã e Bangladesh.

Mas esse é apenas o início. A Nova Rota da Seda, com suas novas estradas e rede portuária transformada deve incluir 60% da população do globo e mais de 30% do comércio mundial. Depois dos países em desenvolvimento, a Nova Rota da Seda já chegou à Europa. Um protocolo de acordo com a Itália prevê investimentos chineses nos portos da Gênova e Trieste.

De um lado, o governo italiano prevê um efeito altamente positivo nas exportações do país. Já o presidente francês, Emmanuel Macron, vê esses caminhos da nova estrada da seda com reticências: “Essas estradas não podem conduzir a uma nova hegemonia, reduzindo nações a um estado de vassalagem”, adverte. Essa, na verdade, é a grande dúvida levantada pelo renascimento da milenar civilização chinesa.

*JORNALISTA E ESCRITOR

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