Ciência e urgência

Como base para a implementação de políticas públicas que promovam o desenvolvimento sustentável

Marcelo Morales, O Estado de S.Paulo

01 de dezembro de 2021 | 03h00

O encerramento da COP-26 abriu um novo capítulo direcionado às ações efetivas anunciadas em Glasglow para conter o aquecimento global em 1,5° C, conforme a intenção do Acordo de Paris. Logo nas primeiras linhas o documento aprovado nessa Conferência das Nações Unidas reconhece a “importância da melhor ciência disponível para ações climáticas efetivas e formulação de políticas”. 

A ciência, ao lado da tecnologia e da inovação, são as principais ferramentas para agir assertivamente, atendendo à urgência climática.

A contribuição do Grupo de Trabalho 1 do Sexto Relatório de Revisão do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC), o qual contou com a contribuição de vários especialistas brasileiros, é um endosso aos alertas propagados pelos cientistas há décadas.

O aquecimento é ocasionado pela ação humana e os eventos extremos relacionados já são observados em todas as regiões do globo. O planeta está 1,1° C mais quente e períodos secos mais longos ou chuvas intensas concentradas serão mais frequentes e mais intensos. 

Ao anunciar o fim do desmatamento ilegal, a redução das emissões de metano, o aceite do mercado global de carbono e antecipar as metas de neutralidade de carbono, o Brasil indicou, automaticamente, o árduo trabalho que tem pela frente. É pouco provável atingir todas essas metas sem o devido investimento em inovação, no desenvolvimento de novas tecnologias e na pesquisa dos ecossistemas brasileiros, que contemplam as fases de formação científica, de maturação tecnológica e na cooperação internacional, com o objetivo de implementar políticas públicas que promovam o desenvolvimento sustentável. 

O País concentra 20% da biodiversidade mundial. São seis biomas presentes no território de dimensão continental, cada um com características únicas, serviços ecossistêmicos e importância, além de 8,5 mil km de litoral. Porém, ainda conhecemos muito pouco da biodiversidade e do potencial de ativos para a produção de fármacos, alimentos ou outras soluções. 

Nesse sentido, o Brasil conta com o apoio dos cientistas em mudança do clima e outros assuntos associados para subsidiar as posições e os debates, como a Rede Brasileira de Pesquisas sobre Mudanças Climáticas Globais (Rede Clima), que conecta renomados especialistas em torno da transversalidade da agenda climática, e já conseguiu desenvolver ferramentas muito úteis. 

A plataforma AdaptaBrasil MCTI, entregue neste ano e apresentada na COP-26, é uma relevante contribuição na área de adaptação à mudança do clima para levar a melhor informação técnico-científica para os gestores, públicos e privados, e para todos os 5.568 municípios. As projeções para 2030 e 2050 abrangem recursos hídricos e seguranças alimentar e energética. Os pesquisadores trabalham para incorporar dados econômicos, saúde e infraestrutura, como portos.

As projeções baseadas em modelagem computacional também estão no Simulador Nacional de Políticas Setoriais e Emissões (Sinapse MCTI). A ferramenta oficial do governo brasileiro é baseada em modelagem computacional e permite projetar cenários, considerando o impacto de 48 políticas públicas para a redução de emissões de gases de efeito estufa em diferentes setores da economia, para acompanhar o atingimento das metas da Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC).

O programa Regenera Brasil, presente em 125 sítios de pesquisa, dedica-se a indicar a melhor forma de recuperação em larga escala de ecossistemas nativos brasileiros, de modo a conservar a biodiversidade e os serviços ecossistêmicos. O Sistema Amazônico de Laboratórios Satélites (Salas) tem por objetivo a instalação de infraestruturas de apoio à pesquisa científica no território amazônico, incluindo laboratórios flutuantes. A finalidade é fomentar a descoberta de novos materiais e princípios ativos e, com isso, desenvolver cadeias produtivas baseadas em biodiversidade. 

Em busca de avançar na fronteira do conhecimento científico está a pesquisa proposta pelo projeto AmazonFACE, que acabou de receber investimentos do governo britânico e possui recursos aprovados no âmbito do Fundo Nacional de Desenvolvimento de Ciência e Tecnologia (FNDCT). O maior laboratório ao ar livre do mundo criará artificialmente as condições atmosféricas projetadas para 2050, para tentar responder como as florestas tropicais reagirão ao aumento das concentrações atmosféricas de dióxido de carbono.

A ciência brasileira é fundamental para o reconhecimento e o entendimento dos impactos e vulnerabilidades relacionados à mudança do clima no País, também é a base para a implementação de políticas públicas que promovam o desenvolvimento sustentável. Temos muito trabalho para suprir as lacunas de informações, avançar na fronteira do conhecimento e implementar novas tecnologias. O desafio assumido pela humanidade para conter o aquecimento global dependerá de engajamento e muito investimento em ciência.


MÉDICO, PROFESSOR TITULAR DA UFRJ, É SECRETÁRIO DE ESTADO DE PESQUISA E FORMAÇÃO CIENTÍFICA DO MINISTÉRIO DA CIÊNCIA, TECNOLOGIA E INOVAÇÕES, PRESIDENTE DA UNIÃO INTERNACIONAL DE BIOFÍSICA PURA E APLICADA (2017-2021) E MEMBRO TITULAR DA ACADEMIA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS, DA ACADEMIA NACIONAL DE MEDICINA E DA ACADEMIA NACIONAL DE FARMÁCIA

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