Com a bênção de Jair

Impressiona que a tese dando conta de um PT que sempre respeitou as regras do jogo ainda fique de pé.

Mário Vitor Rodrigues, O Estado de S.Paulo

04 de outubro de 2021 | 03h00

Elencar todos os arroubos autoritários de Jair Bolsonaro não é simples. O pior presidente desde a reabertura democrática, quiçá em toda a história da República, precisou de menos de três anos para impor um período de retrocessos e corrosões institucionais que decerto ficará marcado na memória nacional.

Escora-se na desesperança provocada por esse cenário a confecção de uma narrativa capaz de moldar o passado recente e turvar ainda mais o debate público: o PT sempre jogou dentro das regras democráticas.

Em Como as democracias morrem (Zahar), Steven Levitsky e Daniel Ziblatt apontam duas premissas basilares para um sistema democrático seguro: que as partes concorrentes se reconheçam como legítimas e comedimento dos atores políticos – um compromisso de serem razoáveis ao lançarem mão de instrumentos em benefício próprio, a despeito de tê-los ao alcance.

Comedimento e reconhecer a legitimidade de concorrentes nunca estiveram entre as prioridades do Partido dos Trabalhadores. Seja quando a legenda esteve na oposição, seja durante o período em que comandou o País.

Até assumir o poder em 2002, o PT pediu o impeachment de todos os presidentes democraticamente eleitos. Pode-se argumentar que defender o acionamento de um mecanismo previsto na Carta é legítimo, mas é precisamente desse comedimento que tratam Levitsky e Ziblatt.

Da mesma forma, não houve comedimento quando o maior esquema de corrupção da história foi engendrado para financiar a perpetuação de um projeto de poder – crimes que o petismo até hoje se nega a assumir, mesmo após a devolução de bilhões aos cofres públicos.

Há quem diga que o PT sempre reconheceu suas derrotas. Pode haver controvérsia se pedir o afastamento dos vencedores após ser derrotado garante selo de bom perdedor, mas não sobre até hoje o partido alegar ter sofrido um golpe em 2016, concluído com o pleito em 2018. Na visão do petismo e de boa parte da esquerda, o atual é um período de exceção.

Diga-se, a fraudulenta expansão dos gastos públicos para vencer de qualquer jeito em 2014, responsável por dois anos depois levar ao impeachment de Dilma Rousseff, também não é reconhecida pelo partido.

Sobre a legitimidade de concorrentes, desde a primeira eleição direta após o fim da ditadura militar, em 1989, o PT fez da demonização de seus adversários prática comum. Interditar o debate por meio de campanhas caluniosas e pechas antidemocráticas, como “fascista”, sempre foi considerado “do jogo”.

Que o digam Ciro Gomes e Marina Silva. Até hoje o primeiro é perseguido por ter tido a ousadia de não se curvar aos anseios do partido na última eleição. Já Marina foi vítima daquela que talvez tenha sido a mãe de todas as campanhas de fake news. Fernando Henrique Cardoso é um caso à parte: cometeu o pecado de derrotar Lula duas vezes, ambas no primeiro turno.

Ninguém deu melhor exemplo do que o PT entende por reconhecimento de seus opositores, contudo, do que seu presidente na virada do século: “Eles têm de apanhar nas ruas e nas urnas”, bradou José Dirceu em 2000, durante manifestação na frente do Palácio dos Bandeirantes. Dias depois, militantes petistas tirariam sangue de Mário Covas, governador de São Paulo à época.

A defesa intransigente das ditaduras cubana e venezuelana não colabora para que o PT receba o brevê de guardião da democracia, entretanto é por meio da obsessão pela regulação da mídia que sua natureza autoritária se revela.

Há poucos dias, Lula veio a público dizer que se lembrava bem de como a imprensa venezuelana “destruía” o ditador Hugo Chávez e confessou arrependimento de não ter levado adiante um projeto de regulação que, segundo ele, chegou a ser aprovado e só faltou ir para o Congresso.

É preciso admitir, todavia, que em comparação à “resolução sobre a conjuntura” do PT, aprovada em 2016 pelo diretório nacional, a fixação em conter os meios de comunicação é modesta: “Fomos igualmente descuidados com a necessidade de reformar o Estado, o que implicaria impedir a sabotagem conservadora nas estruturas de mando da Polícia Federal e do Ministério Público Federal; modificar os currículos das academias militares; promover oficiais com compromisso democrático e nacionalista; fortalecer a ala mais avançada do Itamaraty e redimensionar sensivelmente a distribuição de verbas publicitárias para os monopólios da informação”, revela o documento.

O que mais impressiona, para além das evidências de uma visão de mundo que passa longe do apreço pela ordem democrática, é a facilidade com que, mesmo diante de um histórico tão robusto de avanços autoritários, a tese dando conta de um PT que sempre respeitou as regras do jogo ainda fique de pé.

A verve golpista de Jair e a repulsa provocada pela estética bolsonarista certamente colaboram para isso. Embora estabelecer uma comparação automática com a realidade não deixe de fazer sentido, um parâmetro tão rasteiro talvez não seja a melhor referência para um país que precisa urgentemente desvencilhar-se da polarização.

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JORNALISTA

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