Com os olhos no futuro

Estamos prontos para produzir mais e de modo sustentável. Mas precisamos de segurança jurídica e mais previsibilidade das instituições.

João Martins da Silva Junior, O Estado de S.Paulo

28 de outubro de 2021 | 03h00

A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) completou, em setembro, 70 anos de existência, durante os quais participou ativamente das grandes transformações vividas pela produção rural no Brasil. Na década de 1950, quando nasceu a nossa organização, o Brasil estava no meio de um dinâmico processo de industrialização e urbanização, enquanto a produção agrícola e pecuária permanecia no antigo regime de baixas produção e produtividade, gerando sérias restrições ao crescimento do País.

O aumento da renda e o crescimento das cidades passaram a exercer forte pressão sobre a oferta de alimentos, que não reagia às novas demandas, criando sérios problemas de abastecimento. Tornava-se claro que, na ausência de uma verdadeira revolução agrícola, a continuidade do crescimento econômico estaria ameaçada.

O que aconteceu em seguida faz parte de uma história conhecida por todos. Uma combinação de conhecimento científico, inovação, políticas públicas e forte espírito empreendedor dos produtores rurais deu origem a uma verdadeira revolução econômica, que tornou a agricultura e a pecuária brasileiras nas mais fortes e produtivas do mundo. É um caso exemplar de cooperação entre Estado e iniciativa privada.

A CNA acompanhou toda essa evolução. Como organização, representou os produtores perante o Estado e a sociedade, para que as instituições e as políticas públicas apoiassem – e não impedissem – o progresso da produção no campo. A produção rural é realizada por centenas de milhares de produtores, espalhados por todo o nosso imenso território. Sua voz e seus interesses precisam de um canal centralizador, para que cheguem aos espaços de decisão e de formação de opinião nas cidades. Sempre equidistante da política, para manter seu poder de interlocução diante das alternâncias do poder, a CNA tem certeza de que cumpriu bem o seu papel.

O teste de vitalidade das instituições não é a extensão de seu passado, mas a sua capacidade de adaptar-se às transformações das sociedades. Por isso, quando celebramos 70 anos de vida, num mundo que vai mudar muito, nosso foco não é o passado, mas o futuro. Estamos prontos para representar o agro nesta jornada.

Nossa produção permanece muito competitiva e tem muitas oportunidades para crescer. Precisamos atender às necessidades de segurança alimentar no mundo e em nossa casa, no Brasil. Poucos países têm, ainda, espaço para aumentar em grande escala sua produção agropecuária. O Brasil é, portanto, um ator estratégico para o objetivo de eliminar a fome e a subnutrição em todas as partes do mundo.

Ao mesmo tempo, a produção deve obedecer, cada vez mais, às exigências da sustentabilidade, respeitando os limites da natureza e do bom senso, para o nosso próprio bem e o bem de todos.

A CNA teve um papel importante na luta pela aprovação no Congresso e pela validação na Justiça do nosso Código Florestal. Nossa lei ambiental é severa e restritiva, mas nós apoiamos a sua aprovação porque, na agricultura, produzir e preservar são duas coisas inseparáveis. O que é imprescindível é que os marcos legais sejam estáveis, precisos e tenham foco na regeneração e na conservação, e não na criminalização e na punição. Nem sempre é amplamente divulgado que os produtores rurais brasileiros são responsáveis por grande parte de nossas áreas naturais preservadas, com seus próprios recursos.

Estamos prontos, portanto, para produzir mais e de modo sustentável. Para que isso se realize, nossos produtores e nós ao lado deles reclamamos mais segurança jurídica e mais previsibilidade das instituições. Mudanças de regras e normas, no plano tributário, no financeiro e no ambiental, criam um ambiente de incerteza. Alguém já disse, com razão, que no Brasil até o passado é imprevisível. Por isso, esperamos dos legisladores e das autoridades o bom senso de sempre preferirem mudanças que se façam cumulativamente, ao longo do tempo, a alterações radicais, cujas consequências são difíceis de prever com exatidão.

O Brasil há muito tempo deixou de crescer com a rapidez necessária para reduzir a pobreza, melhorar o bem-estar geral e nos aproximar dos países mais ricos. É certo que a produção agropecuária tem se destacado do resto da economia e não parou de crescer. Nossas exportações continuam garantindo os saldos comerciais e a formação de reservas internacionais de que precisamos para manter nossa autonomia econômica.

Nos anos 50 do século passado, nossa produção agropecuária estava estagnada, mas o País crescia e, dentro em pouco, a produção rural conseguiria se juntar ao progresso geral. Passados 70 anos, a agropecuária assumiu, agora, a liderança no crescimento, e não deseja outra coisa senão que a história se repita, com o sentido inverso, e toda a nossa economia volte a crescer em todos os setores, para que sejamos finalmente o País com que todos sonhamos.

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PRESIDENTE DA CONFEDERAÇÃO DA AGRICULTURA E PECUÁRIA DO BRASIL (CNA)

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