Combustão interna

Impulsionado pelos filhos do presidente, governo parece disposto a atirar nos próprios pés

Marco Aurélio Nogueira, professor da Unesp

23 de fevereiro de 2019 | 04h30

Crises fazem parte da vida dos governos. No âmago deles se acomodam, invariavelmente, interesses diversificados, grupos de pressão, ideias conflitantes e indivíduos picados pela mosca do poder, que embriaga a todos. Harmonias são compostas à custa de esforço e determinação, na dependência da presença de líderes qualificados para unir e agregar. Quando se desfazem, põem-se em campo os apaziguadores, apaga-se o incêndio sem a certeza de que um novo não irromperá mais à frente.

Mas crises agudas não são comuns nos primeiros dias de um novo governo, quando tudo deveria fluir com naturalidade, mesmo que com dificuldades. A lua de mel com a opinião pública, a expectativa positiva dos que elegeram os governantes e a legitimidade do presidente contribuem para dar ao novo grupo uma chama de entusiasmo e vontade que ajuda a neutralizar as disputas internas.

Crises nos primeiros dias causam desconfiança. Sugerem que um barco foi lançado ao mar sem rumo claro e desprovido de um capitão em condições de manejá-lo. O barco vaga à deriva em alto-mar, rangendo nas tempestades, sem conseguir evitar escolhos e ondas fortes. A tripulação deixa de se entender, os passageiros ficam inseguros e o próprio comandante, anestesiado e confuso, acaba por ajudar o desentendimento a proliferar.

Os atritos e divergências que têm agitado o governo Bolsonaro desde o início não se devem tão somente ao “fogo amigo” ativado pelos filhos do presidente. O protagonismo do clã complica demais a ação governamental, mas precisa ser avaliado em conjunto com a confusão intrínseca ao bloco de forças que elegeu Bolsonaro e que não parece reunir condições de sustentá-lo e de auxiliá-lo a se encontrar consigo mesmo.

As eleições de 2018 transcorreram num contexto inusitado. Diferentemente do que se passara nos tempos da redemocratização e se prolongou durante os governos de FHC, Lula e Dilma ao menos até 2013, a política deixou de ser ativada por partidos políticos ou movimentos organizados. PMDB, PT e PSDB foram tragados por novas dinâmicas, marcadas por inflexões “anárquicas” e muito espontaneísmo, tudo devidamente turbinado pelas redes. O quadro de fragmentação e polarização política contribuiu tanto para esfacelar o campo democrático quanto para impossibilitar que a sociedade discutisse com cuidado os principais problemas do País e as propostas dos candidatos, que acabaram assim por se perder.

Bolsonaro venceu graças a um desejo de mudança que ficou sem opção com a desagregação dos grandes partidos e com a incapacidade das forças democráticas de oferecer propostas e candidaturas sedutoras aos eleitores.

O governo formou-se sem um programa claro e reunindo pedaços de um caótico movimento mudancista que vinha da sociedade e repercutia na política. Assentou-se sobre um arranjo submetido à pressão de quatro focos de poder, cada um buscando agendar o presidente: os filhos, os economistas de Paulo Guedes, os generais e a equipe de Sergio Moro. A disputa entre eles despontou já no período de transição e foi-se amplificando na medida em que Bolsonaro se sentiu obrigado a cumprir suas polêmicas “promessas de campanha” e chamou para auxiliá-lo um agregado de figuras menores, encarregadas de fazer fumaça e reverberar a retórica ideológica, grosseira e moralizante que ajudou a eleger o presidente.

Em vez de cuidar da governança, o núcleo mais engajado do governo optou por permanecer em campanha, comprando brigas e fazendo inimigos. O governo foi assim se inchando de ideologia e de disputas, ficou pesado e sem agilidade. Complicou-se, ainda, com a proliferação de ataques à imprensa, manobras familiares, futricas e bate-bocas virtuais, que contaram com a participação do próprio presidente. Abriram-se vazios inadequados. A própria base parlamentar governista, que se imaginava seria formada pelo PSL, mostrou fragilidade e passou a criar embaraços, dado que cresceu sua expectativa de ocupar cargos e obter vantagens.

Formou-se desse modo uma tendência a que o grupo mais bem organizado - o dos generais - adquirisse maior protagonismo e tentasse chamar a si a missão de “enquadrar” o governo, ocupando espaços e buscando incrementar a coordenação governamental. A demissão de Gustavo Bebianno fez se acenderem as luzes de alerta, pelas razões que a motivaram, pelo modo como foi feita e pelas consequências que deverá ter. Os militares são bons em coordenação, mas não têm intimidade com a política, que é o fator que mais pesa no momento.

Crises assim precisam ser compreendidas como situações repletas de implicações e desdobramentos, que no limite podem ser paralisantes e catastróficos. Revelam estilos de atuação, modos de resolver pendências internas e absorver pressões. No caso em questão, a crise revelou um governo atarantado, sem um projeto comum ou um programa claro de atuação, sobrecarregado de adrenalina e emoção. Tenta compensar sua inoperância política com o pretexto de que está a organizar uma governança sui generis. Não está propriamente enfraquecido, pois sua retórica inflamada e suas promessas conservadoras ainda mantêm ativas as bases sociais que o elegeram. Mas são flagrantes sua má qualidade gerencial e sua dificuldade de ganhar estabilidade.

Impulsionado pelo protagonismo raivoso e paranoico dos filhos do presidente, o governo parece disposto a atirar nos próprios pés, como se isso fosse prova de ousadia e destemor. Sem base parlamentar confiável e limitado, no plano social, a apoios negativos (contra a “esquerda” e o “marxismo”), flerta com o desentendimento permanente e com uma combustão interna que poderá inviabilizá-lo ou levá-lo a um endurecimento extemporâneo, que não o ajudará.

Ninguém sairá ganhando se esse quadro se estender no tempo ou virar rotina. Acima de tudo e de todos, perderão o País, a população e a sociedade.

*MARCO AURÉLIO NOGUEIRA É PROFESSOR TITULAR DE TEORIA POLÍTICA E COORDENADOR DO NÚCLEO DE ESTUDOS E ANÁLISES INTERNACIONAIS DA UNESP

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